Regue tuas lágrimas a paixão perdida, mas que não venha a aguada de uma nova primavera encontrar-te a semente do amor putrefeita por tão longo pranto.
Mereces muito mais tu a tua liberdade, do que teus fracassos a coroa dos teus lamentos!
Manito O Nato
Da Tua paz e da Tua luz, sem ter, sem dor, sem ruído.
Ouvi meu coração por fim bradar da lua:
“Dá-me fazer senhor, da imperfeição uma asa
e envolto em tua Paz voar feliz na rua”.
756
Presente
Sou... Estou... Estás... São... Preciosidade soberana, segura, Lente diáfana da realidade em ação! Perene morada de glória e loucura.
Não fujas do É, nem divagues. Assim, que ao imponderável será, Remorsos e quimeras não pagues. Preserva a flama que só aquele te dá!
Porque contemplar em frincha estreita, Se encontrarás ossada desértica e adeus? Registro ou é história ou é colheita. Em memória os cultue, vá lá, eram teus!
Acende teus refletores e teus gravetos Luz no presente, não no que vem ou foi embora. Nele teus tesouros, ramalhetes e sonetos. Vive intensamente a eternidade do agora!
993
Nas asas da surreal-idade
Nas asas da surreal-idade Lancei-me fora ao vento Tendo a esquerda o silencio E à direita mortas verdades... N'alma lembranças acesas No olhar o sonho celeste... Levo no coração agreste Rumorejante vozerio
À frente, em brilho noturno Única silenciosa e bela Reinando sobre o vazio Sorri-me a estrela-dalva Emoldurada pela janela
Ao meu convite e da mata Que do véu negro ela encanta Ajoelhada diante dela A noite fica parada... E o silencio a cantar se levanta No coaxar, nos silvos e nos pios, Soltando-se em risos cálidos; Tudo petrifica o momento Escondido na vésper azulada... E eu sem pensamento Adormeço em sua luz... ao relento.
1 155
Pérolas de um sonho
Quando ofertado me será teu cheiro Em branco linho ou no seleiro impuro Virás, eu juro, reanimar-me inteiro E matinal respiro há de romper o escuro
Quando ofertado me será teu peito Serei refeito das dores e temores idos Aleitamento de paz terá efeito Nos vicejantes sonhos por ti acolhidos.
Quando ofertados me serão teus sonhos Em sussurrar secreto te poderei ouvir, No embalo de notas e lábios risonhos, Solfejadas pérolas, meu sonho invadir
Ao jorrar nos corações do amor o sumo Em verão miscigenado de rumor e calma Nossa incerteza reencontrará seu rumo Sorvendo, por consumo, do suor da alma
Dissipadas divisas veremos esmaecer E recrudescer o frio e fino fio do desejo À relva, recostados em nosso anoitecer, Voltar a crer, viver do sonho de novo beijo
621
Solidão de mim
Retirante de mim Alem de mim vou buscar Turba bendita Estrépito ludo rodeia meu penar. Rumor, areia e mar... Acolá farnéis à vista Fragor e risos. Ruído desolador, Epidérmico ardor. É agora insolação o matinal alvor Ardência benfazeja! Açoita esse mandrião. Desperta seu letárgico grito, Beta multicor em aquário bretão. Glacial solidão! Minh'alma orvalhou esse chão Com a razão apregoando o fim No regado torrão dessa ruína Germinou o homem Da solidão de mim!
997
Vozes do silencio
Da manhã do tempo ouço seu clamor,
Vozes do silencio de mim desgarradas.
Ávidos lamentos do não amado amor
Escondido nos cúmulos das incertezas
Amordaçadas.
Eco longínquo de vozes sem vida
Dos rascunhos de sonhos de amores não tidos
De verbetes não lidos da estrofe perdida
Nos mananciais de princípios e dogmas
Poluídos.
Reclama das horas sepultadas em devaneios
Por não amar com o amar que o amor quis,
Quando quis do amor subjugar os anseios
Enxertados com espectrais e renitentes receios
Desde a raiz.
Róseo fulgor não havido que haveria de ser,
Nesta negra e poeirenta mina de hulha,
Ora resta lutuoso brilho do anoitecer,
Sob o olhar vago e profundo da ave penitente
Que infeliz arrulha.
558
Amor de mãe
Escorre, oh distintivo de amores selados, líquido lânguido, de fonte pura e altiva, vagueando por sulcos amargos, cansados, em gotas que rolam na face, a deriva, lavando do semblante a beleza perdida, esquecida, na lida intensa de recantos sombrios.
As aves que em teu ninho romperam cascas, ora errantes presas de alísios e do poente, bebericado tendo o teu suco em rotas tascas, voltar-se hão ao ninho, arrulhando docilmente; esquivas, chorosas, pias e prodigas crias a consolarem-se e a oferecerem-te mãos vazias.
Secam-se os veios de amargor e prantos. Filtram-se as lagrimas em exultantes cantos. Debela-se, debalde, a dor e volta o encanto.
Assim enverga-se o coração do parto, feito junco. Aceita das tascas as sobras e do amor o fiunco... e se alegra, e sorri, tingindo de azul o pranto
662
Como é bela minha cidade!
Curvilíneos relevos, seios maduros, moldados em rochas de amor, cinzelados pelo Criador, deleitam e aprisionam o olhar de apaixonados filhos a sonhar em jamais evadir-lhe os muros.
Com sorridente frescor jovial e alma morena cheirosa de mar, espraiada na areia seduz o luar, que na espuma lhe beija as veias, nas noites claras de lua cheia, em mágico rito de glamour sensual.
Sob os cílios do sol ardente, sobre as coroas de terras nuas, escorre sangue por suas ruas, impregna-lhe o olfato de fatos e na enlutada invasão de seus matos, Ela se imola por toda gente.
Explorando sua tez inocente, ferindo seus seios e muros, proclamam-lhe mãe os perjuros, Ao tempo em que ao labor os nobres, sonhadores, abastados ou pobres, orgulhosos postam-se reverentes.
Mais que torrão, uma beldade! Ora moça de trato fino, de andar seguro e arguto tino, ora gueixa sedutora e cortês... Mesclando dor, luxúria e altivez, como é bela minha cidade!
603
Gota de orvalho
Descida do firmamento Em movimento recamado, Com suavidade e leveza, Ao belo soma ornamento Pelo céu estimulado.
Úmida, maternal, sem pecado, se deita sobre arranha gatos, Sobre ramagens e flores E em ritmo contínuo e calado, Transcende em altar os matos
É pérola inimitável No seu estar passageiro, Tal e qual o pensamento, Que no tempo insaciável Do presente é prisioneiro.
Viça pelas manhãs a rosa E depõe-se no dia ao meio, Mas, se o sol a quer enxuta, Ao balanço da flor viçosa Esparge sem ter receio.
Em folha seca pousada, Brilhante qual passageira, Úmida gota de orvalho, Anuncia nova ramada, Primavera alvissareira.
Ah, Déa de efêmera glória... Celebrando seu estar solene, O orvalho por ti se enluta E a rosa tem na memória O beijo que a faz perene.
692
O grito da vida
A tarde enfeita-se do entorno ao monte, As ondas bailam suaves no final de dia, Em degrade escarlate veste-se o horizonte, Tremula dourado o sol na brisa tardia, Tépida, reflete a areia um último cintilar...
Reconfortadora, imersa no silêncio, Não tardará a noite, amiga passageira. O astro rei inclina-se a orar!... A paz brilhará na estrelada cimeira: Anúncios perpétuos d’um novo despertar.
Emerjo-me do mergulho nos frágeis ais E submerjo na fecundidade das tardas tintas, Em cada tom de laranja, carmim e lilás, Derradeiros recamos da luz fugidia. Ressuscitam-me no que há e no que havia.
Ouço sob este manto que recolhe o dia, Tênue como a brisa redentora da tormenta, Enredado em bordado de paz e harmonia, - Aqui estou; Amor que depura e inocenta... O grito da Vida ecoando desde o horizonte.
E a não menos que em tudo me refaz: Espírito, substância, consciência e vontade; Sonhos, propósitos, esperanças e liberdade. Submeto-me às alvíssaras que o Amor traz Num estar sem lembranças e sem verdades.