Viajar
Para viajar, basta existir.
Concordo com essa fala de Fernando Pessoa,
muitas vezes viajamos na nossa imaginação
ao lermos um bom livro, ao assistirmos a um filme,
a um espetáculo musical ou percorrendo céus e estradas;
seja na ficção ou no dia-a-dia da realidade frenética,
sempre estamos viajando.
Viver é caminhar para a maior de todas as viagens, a morte!
Autora: Ive Nenflidio
Trocas
– Mulher existente em meus pensamentos,
se neste instante eu sucumbisse,
você ainda me manteria em seus pensamentos?
Eu continuaria presente em seus sonhos?
– Sim, menino do mato,
você sobreviveria dentro de mim...
– Mulher, eu preciso conhecer novas estradas,
realizar uma grande viagem.
– Você não voltará?
Quero que você me ensine tudo,
quero aprender a observar as nuvens,
aquelas com formas de bichos e
as grandes Cumulus Nimbus.
Por que foges de mim, menino do mato?
Quero aprender contigo
a contemplar o pôr-do-sol e a compreender
todos os fenômenos naturais,
quero conhecer todas as paletas da mata,
todos os perfumes das flores.
Menino que mora dentro de mim,
Por que o cheiro da relva molhada é
diferente do perfume da terra encharcada?
– Não posso responder todas as
suas indagações, querida amiga...
há muitos lugares a serem explorados,
eu devo desbravar novos destinos,
subir a montanha,
procuro novos perfumes
com notas puras,
preciso percorrer todas as chapadas,
escalar todos os picos,
serão singelos momentos e
no alto de cumes
plantarei rosas vermelhas pra ti;
meus olhos enxergarão longe e
te sentirei junto a mim,
serei devorado por pensamentos,
terei espasmos dolorosos.
– Por que foges de mim?
Menino...
sem ti como conhecerei os perigos dos mares, rios e cachoeiras?
preciso desafiar meu corpo em longas caminhadas,
você me mostraria novas trilhas,
decifraríamos todas as cores do arco-íris,
sem pestanejar,
me olharia,
iluminaria meus questionamentos,
eu enxergaria o mundo com os seus olhos de menino.
– Mulher, se eu ficasse aqui junto a ti...
você que está presente em minhas entranhas,
com seu perfume visceral,
no mais fundo da minha busca instintiva,
sei que as coisas simplesmente
não permaneceriam iguais,
não posso ficar,
delicada mulher de largos sorrisos,
não fique triste!
não sou daqui,
sou do mato,
sou livre e estou preso,
sou como um pássaro enclausurado, não canto mais.
E esse cantador você não pode mudar!
Autora: Ive Nenflidio
Prece
Penso nas dores do mundo
E nos algozes sem alma
Penso no Cristo torturado
No sofrimento de seres mutilados
Penso nos famintos isolados
Em campos de refugiados
Penso nas crianças com corações dilacerados
Nos homens atormentados
Penso no silêncio dos violentados
Nos seres desesperados
Penso em antigas civilizações
Nas lamentações
Em velhas reinvindicações
Penso nas mentes doentes
Nas mães impotentes
E nos heróis resistentes
Que o medo não me afaste dos meus sonhos
Que as dores não me tirem a esperança
Que a frieza dos homens não me cegue
Que a hipocrisia não me afaste do justo
Que os temores que sinto não me impeçam de ir até você
Autora: Ive Nenflidio
Veredas
Algumas estradas, as mais belas ainda me levam até você!
Estou em seus pensamentos?
Cante-me uma prece,
crie belas melodias dedilhadas...
Estou em sua mente?
Venha me visitar, invada meus sonhos,
brinque com meus desejos...
Sente saudade?
Desenha-me uma canção,
recita-me uma sinfonia...
Sente minha falta?
Venha me ter...
Me quer? Mereça-me.
Autora: Ive Nenflidio
Eu sem você
Será que nunca estarei em teus braços?
(Re)desenho novas formas de viver sem ti,
admito que estava terrivelmente equivocada.
Complicado seguir sem ouvir tua voz,
sem te perceber em meus sonhos,
sem sentir mais meu corpo incendiar.
Complicado não receber tua visita no meio da noite,
reconhecer que era tudo uma adorável ilusão.
Complicado não ter mais para quem escrever.
A vida...
idealizamos caminhos que nunca percorreremos,
abraços que nunca teremos,
olhares que nunca trocaremos,
paixões que nunca concretizaremos,
beijos que nunca receberemos.
Autora: Ive Nenflidio
Desejo infinito
Saudade da estrada
Sou barco ansiando
Som das águas chegando
Promessa lenta
Tempo ingrato
Te aguardo
Sofro por não te abraçar
Sou súbita morada
Destino escasso
Vivo além do tempo
Autora: Ive Nenflidio
Apressa-te
Procuro palavras, respostas
Mensagens nas ondas eletromagnéticas
Só encontro o silêncio
Se afasta acanhado
Te dou espaço
Quero-te inteiro
Quando desejares
Vens a mim
Desejo encoberto
Só me pertence o que abraço
E assim me guio aos seus braços
Estranho intruso de pupilas entontecidas
Não demores!
Preciso falar em seu ouvido
Direi palavras proibidas
Brincarei com os seus cinco sentidos
Te conduzirei ao Vale da Lua
Lugar de cantos e encantos
Autora: Ive Nenflidio
Somos atores
Na eterna expectativa para o início do espetáculo,
estamos apartados, concentrados, cenas complementares.
Me preparo para o grande ato,
observo as cortinas do proscênio do antigo teatro,
penso na nossa primeira troca de olhares,
idealizo belas interpretações.
Primeiro ato...
Você chega de mansinho,
extraordinária espera,
como já esteve em outros bastidores.
se aproxima calmo,
não te reconheço, face desconhecida;
observo teu corpo,
te vejo com contornos indefinidos,
visão encoberta, visão turva,
luzes apagadas.
Segundo ato...
Corações de tempos antigos,
almas atadas
finalmente se encontram,
estão unidos para dramas encenados
ao som de antigas árias,
trocam olhares silenciosos,
toques sutis,
abraços cerrados,
desejos aflorados,
súbito calor,
palavras confundidas, fictícias,
difusas, perdidas...
Finalmente te reconheço, você estava em meus pensamentos...
Guardado em instantes, eternizados.
Fim do segundo ato.
Autora: Ive Nenflidio
Lusco-fusco
Na busca por novos caminhos,
tento decifrar desatualizadas cartas,
primitivos manuscritos com raros caracteres,
não compreendo, são frases implícitas,
confusas visões... bifurcações...
Confesso segredos em breves distrações;
definitivo lusco-fusco,
singela luz do declínio,
doce crepúsculo,
chega sem pressa...
É um fugaz divisor das águas.
Estou inquieta, tento meditar, busco a paz,
não sinto o vento, estou ardendo,
você partiu levando um pedaço de mim,
penso em tuas mãos caminhando em meu corpo,
fotografo teu rosto para te esquecer,
procuro a melhor metáfora poética.
Autora: Ive Nenflidio
Alucinação
Sonho confuso:
como invenção de antigas memórias,
reparo carros enfileirados,
analiso o fluxo lento...
Apressados?
Só os corpos angustiados...
confinados em comboios.
Caminhos congestionados e desejos lépidos.
Em meio ao caos,
presencio inusitada beleza ofuscante,
contemplo um exuberante pôr-do-sol,
estaciono na estrada,
fotografo em pensamentos todas as cores,
que extravagante visão emocionada!
Vejo pássaros falantes e
me confundo com os motores silenciosos,
ouço melodias entoadas por anjos solitários,
como preces de eremitas
que, aprisionados na solidão,
contemplam o horizonte dos deuses.
Aprecio o entardecer, sigo...
não ouço buzinas, mas observo pelo espelho retrovisor
algo que ficou no passado,
vejo mãos gesticulando, corações agitados.
Entendo... Acelero!
Não desperto do breve devaneio,
permaneço presa ao mundo dos sonhos...
Autora: Ive Nenflidio