mari_80s_ana

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Amor ardente

Amor ardente é aquele
que deixa a alma maltratada,
Tortura com o silêncio
E o desprezo de não ser amada;

Quando tal paixão despertou,
Me acho incerta quanto ao tempo,
Mas ser capaz de a contemplar
Serve para o meu contentamento;

Não sei o que hei de esperar,
Se para mim tanto me dói mais
não poder a ele tocar;

Expresso-me pela agonia,
Essa que me tem quebrada,
De quem ama e jamais foi amada.
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Poemas

25

Para sempre hei de amar!

Para sempre hei de amar!
Para sempre hei de recordar
Quando diante de mim sentavas,
Cabisbaixo no olhar, mirando
Os rabiscos que nos papéis desenhavas;

Para sempre hei de amar!
Ao redor tanta mocidade e eu só te via a ti,
Contemplava-te como se fôssemos sós no mundo,
Tu, tão diferente de todos eles,
Seria o começo de um amor profundo;

Para sempre hei de amar!
Quando cantavas,
Ah quem o visse cantando!
Voz forte, robusta, meia anasalada,
Fazia-me ajoelhar pelo seu encanto;

Para sempre hei de amar!
Só não me permito esquecer
quando tocava as cordas da guitarra,
Via-me eu, perdida num canto, acanhada,
A deixar que a minha alma fosse quebrada;

Para sempre hei de amar!
Com a alma em pedaços
Tomada pela louca paixão,
Amarei devotamente
Tudo o que chegar ao meu coração;

Sofro!
Sofro porque te amo a ti,
Sofro porque amo e não sei amar,
Sofro porque tenho medo,
Medo de o tempo a mim te levar.

E levou.

695

Suspiros sôfregos

Suspiros sôfregos,
Uma linha de suor
Compondo a testa,
Face pálida de rubor;

Cabelos desgrenhados
Que instigam tal desejo meu,
O meu coração palpita
Só de ouvir o som do teu;

Nossas pernas enroscadas,
Nossos corpos livres de qualquer pano,
Nossas almas compenetradas,
Deste jeito tão insano;+

Agora vejo-me triste,
Cerro os olhos, bruscamente,
Com ganas de continuar a ver minha Circe,
Que se dissipou do meu sonho tão friamente.

717

Sopra o vento

Sopra o vento,
Que amaina as lágrimas que caiem
Sedentas dos teus olhos cor de mar,
Descem por teu gesto, já rugoso,
Com traços do tempo que ninguém faz parar;

Olhos opacos vidrados no além,
Contavas-me o quão triste foste toda a tua vida,
O quanto choraste ao céu que ouvisse
As tuas presses de puritana rendida;

Avó, que lindo nome o teu!
Maria dos meus encantos
Por quem me apaixonei um dia,
Aquela que me permitia olhá-la
A entrançar belos e ondados fios de ouro,
Aquela que diante de mim sofria!

Tinhas um cantar de encantar, Chorava eu de fininho,
Tardes passadas no terraço
A ouvir as melodias da primavera,
Sentada a olhá-la, formosa,
Maria a lavar as vestes
Quando para mim dissera:
Sempre tão chorosa;

Minha Maria enchia-me a leda alma
Quando, de noite, sussurrava ao ouvido
Tudo o que um coração não ouve;

Com os seus braços em volta de mim,
Nas noites gélidas de Janeiro, Jurei que dali não sairía nunca mais,
Juramento matreiro!

Vim saber que o tempo não parava,
Vim saber que nunca mais cantaria para mim,
Vim saber que perdera a minha circe;

Soube que te irias
Quando parada a olhar para ti,
Maria, quase sem vida,
Me pedias, sofregamente,
Para sanar a tua dor;

Despedi-me.
De ti, do tempo e das lembranças.
Vim afogar as malditas mágoas
Daquela que costumava ser a minha rainha,
A velha das fartas tranças;

O teu olhar sem vida lembra-me
Do fastidioso tempo que passou, Queria poder também amar-te,
Mas o meu coração não ajuda
A amar a quem me deixou;

Hoje, olho para ti com a saudade do passado,
Com a esperança de voltar a olhar a minha Maria,
Que tomou o meu coração despedaçado!

Hoje sou eu quem faz as tranças,
Quem canta aos céus
que te leve completamente de mim
E deixe somente as boas lembranças.

499

Tirai os meus olhos e o coração

De ti cansada estou,
Cansada estou de esperar por ti,
O meu descaso e cansaço
Vem da mágoa que já senti;

A paixão a ir-se pelas entranhas,
Chorando a minha alma
De servo inexperiente,
Enquanto espero por ti amargamente;

Passei a celeste madrugada
A contemplar aquilo que não é meu,
De jeito nenhum me pertence,
Tal amor que Senhor me deu;+

Rogai a Deus que peço:
Tirai os meus olhos e o coração,
Que para mim só o desprezo chega
Para acabar com esta sansão.

665

Dia mais cinzento

Dia mais cinzento que este,
Não via desde o início da primavera,
Tão piedosamente melancólico,
Assim como Deus quisera;

Corri aos tropeços para a varanda,
Não dando ouvidos à mãe a chamar,
Desta vez não para ver o meu amor,
Fui assistir o céu desabar;

Sinto-me inquieta, um reboliço em mim,
Olho o vizinho, as árvores agitadas no jardim,
Miro as senhoras apressarem o passo,
Apoquentadas, com os ninos no regaço;

Logo, um clarão estranho aqui se apodera,
Sem ver de quê, um último chilrear,
A mãe pisa a madeira velha, fugosamente,
Resmungando o cabelo que não chegou a entrançar;

Ouço começar a chuva de fininho,
O coração errar uma batida desenfreada,
Dou por mim a pensar nesta desgraça:
Como faço para deixar de amar,
Como estou sofregamente apaixonada.

716

Padecer no Mundo

Minha alma despe-se
Com esta chuva que cai,
Relâmpagos e trovões,
Esta desgraça arruinai;

Foi Senhor que se revoltou
Com este mundo desconcertado,
Nesta manhã de pleno deserto,
Os vilões rezam por seu belo estado;

Quem tirou ao Mundo
A paz dos nossos corações,
Que seja sugado pela tormenta,
Que repousem nas chamas, seus ladrões;

Seja preto ou branco,
Gordo, alto ou de boa mente,
Ninguém pode fugir deste Mundo,
Só resta padecer nele descontente.

687

Não mais fiz depois que amei

Não mais fiz depois que amei.
Vivi em ilusões desmedidas,
Rodeada por quem pouco exerga,
Vivi somente para ver o sol se erguer,
Alumiar um conectar de vistas,
Que a volúpia e luxúria faz crescer;

Vede, que escrevo sem freio e regra
ao que move a minha amargura,
De nao ter ocio no amor e na poesia,
Que amo tanto e tudo o que respira,
Que é como cantiga sem partitura,
Uma doce, vil, alma insegura;

Vivi pouco o que se numa vida vive,
Encontrei-me na lira que escrevi,
Sonhei e prometi Mundos somente
A quem não soube dar estima,
Que amor e lágrimas lhe tive,
Tanto que só chora quem ama
E só ama quem nada sente;

Ainda assim, de longe o quero contemplar,
Perder-me em sôfregas palavras,
Desaparecer num abraço sentido,
Tocar-lhe, sorrir-lhe e sussurrar-lhe,
Bem baixinho ao ouvido,
A melodia de um coração partido.
487

Quanta dor

Quanta dor não faz sentir,
Em cada fibra do meu jeito,
A dor da rejeição,
Essa que me fere o peito;

Orgulho ferido num leito desenhado,
Pingas do que te corre nas veias
Que caiem, piedosamente, em mim
Sob a sombra d'um gesto quebrado;

Vejo-me leda e formosa,
Tamanha é a minha fantasia,
Quantos dias eu não conto
Para sanar de mim tal agonia;

Some-te dos meus pensamentos,
Que de ti não quero que não me queiras,
Quem seria eu, meu anjo,
Se a ti não te quisesse?

708

Quanto Deus me deu

Quanto Deus me deu,
Olhar para te olhar,
O teu gesto tão singular
Que me tem cativa;

Entre pérolas e esmeraldas,
Entre sorriso e olhos cansados,
Entre ti, meu bem, minha alma,
Entre lágrimas e soluços agoniados;

Face pálida e deleitosa,
Lábios rosados tão belos
Que me perco de tão formosa;

Senhor leva a minha dor sofrida,
Só te peço que não leves os meus olhos
Para contemplar a minha inimiga.

636

Oh destino!

Oh destino!
Por quê tu tão desafortunado,
Não vivo eu depois das águas
Para não ver o meu bem adorado;

Amor esse que não é meu,
Sólo a mis pensamientos pertence,
Porém, mais meu que teu,
Que o meu fado, aqui, perece;

Assisto o sorrir mesquinho,
Coisa pouca, quase forçado,
Beleza é sinónimo de ti, meu bem,
Que é quase um pecado;+

Olhos tão opacos cheios de vida
Que preenchem o teu ser,
E que me iludem nos teus encantos,
Ai, que farei eu senão te querer?

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Comentários (4)

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miguel_damas

Muito prezo as tuas palavras miuda, não tens só beleza exterior, o que sai de ti é bem mais forte e bem notável. 17 anos e muita boa escrita :D Um Abraço

jw2018

Lindos poemas!

aliceholanda9

Suas palavras são verdadeiras e sinceras, consigo sentir quando algo é bom, mas isso é ótimo

Alberto de Castro

Tão jovem, tão bela e tão talentosa. São três ingrediente mágicos e incendiários. Parabens!