mari_80s_ana

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Amor ardente

Amor ardente é aquele
que deixa a alma maltratada,
Tortura com o silêncio
E o desprezo de não ser amada;

Quando tal paixão despertou,
Me acho incerta quanto ao tempo,
Mas ser capaz de a contemplar
Serve para o meu contentamento;

Não sei o que hei de esperar,
Se para mim tanto me dói mais
não poder a ele tocar;

Expresso-me pela agonia,
Essa que me tem quebrada,
De quem ama e jamais foi amada.
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Poemas

25

Padecer no Mundo

Minha alma despe-se
Com esta chuva que cai,
Relâmpagos e trovões,
Esta desgraça arruinai;

Foi Senhor que se revoltou
Com este mundo desconcertado,
Nesta manhã de pleno deserto,
Os vilões rezam por seu belo estado;

Quem tirou ao Mundo
A paz dos nossos corações,
Que seja sugado pela tormenta,
Que repousem nas chamas, seus ladrões;

Seja preto ou branco,
Gordo, alto ou de boa mente,
Ninguém pode fugir deste Mundo,
Só resta padecer nele descontente.

686

Pelas entranhas do mar

Vejo uma fraca linha no horizonte,
Sussurros agoniados de ventos se ouvem,
Sente-se as gentes gritando poesia
Em meio ao inebriante cheiro a maresia;+

Consigo até imaginar o seu gesto,
O seu corpo esculpido banalmente,
Pelas entranhas do mar vejo
A minha esmeralda no meio desta gente;

O seu corpo balança ao som das ondas,
Numa dança envolvente que me cega,
O meu olhar de desejo reprimido
Culpa-me e entrega-me d'alma a ela;

Enfim, sua sombra se dissipou,
Resta-me contemplá-la no meu pensamento,
O mar agita-se bruscamente
Para dar ínicio a todo este tormento.

644

Quanta dor

Quanta dor não faz sentir,
Em cada fibra do meu jeito,
A dor da rejeição,
Essa que me fere o peito;

Orgulho ferido num leito desenhado,
Pingas do que te corre nas veias
Que caiem, piedosamente, em mim
Sob a sombra d'um gesto quebrado;

Vejo-me leda e formosa,
Tamanha é a minha fantasia,
Quantos dias eu não conto
Para sanar de mim tal agonia;

Some-te dos meus pensamentos,
Que de ti não quero que não me queiras,
Quem seria eu, meu anjo,
Se a ti não te quisesse?

708

Tirai os meus olhos e o coração

De ti cansada estou,
Cansada estou de esperar por ti,
O meu descaso e cansaço
Vem da mágoa que já senti;

A paixão a ir-se pelas entranhas,
Chorando a minha alma
De servo inexperiente,
Enquanto espero por ti amargamente;

Passei a celeste madrugada
A contemplar aquilo que não é meu,
De jeito nenhum me pertence,
Tal amor que Senhor me deu;+

Rogai a Deus que peço:
Tirai os meus olhos e o coração,
Que para mim só o desprezo chega
Para acabar com esta sansão.

664

De frente ao mar

Aqui me sento
De frente ao mar,
Não sabendo o que há de vir,
Não sabendo o que hei de esperar;

Dedilhando a areia,
Deixo-me levar por pensamentos,
Deixo-me molhar pela água,
Deixo que ela leve os meus tormentos;

E se o meu amor fosse tão bom
Quanto a formosura deste lugar?
E se o meu amor fosse alcançável
Quanto o medo que tenho de esperar?

A dor da incerteza é bem pesada,
Cuidarei do meu pássaro
Ou deixá-lo-ei voar?
Mal sabe ele que d'ele não espero nada.

624

Um dia encontrar-te-ei

Um dia encontrar-te-ei
Sozinho, todo apressado do outro lado da rua,
Seremos dois outra vez,
Eu a olhar-te e tu na tua,
Voltaremos ao que sempre fomos,
Música sem harmonia,
Vida sem poesia;

E depois de passados anos
Vejo-me de novo perdida,
Segurando o meu coração em prantos,
Que relembra o quanto doía;

Talvez agora te possas lembrar de mim,
Voltar atrás no tempo
De onde eu te via do banco do jardim,
Tu, com aquele brilho nos olhos
Parecias feliz;

E hoje quem és tu?
Que ainda me fazes arder no fogo,
Que me puxas, agrides e magoas,
Que me rasgas o peito sem palavras boas,
Que me fazes ter dó de mim;

Talvez, daqui a uns anos,
Eu possa esquecer como me fazias sentir,
Vou mais além,
Talvez enquanto passo a minha vida a escrever-te,
Tu sejas feliz com outro alguém;+

Talvez possas pensar em mim
Enquanto olhas a lua,
Talvez um dia serás meu
E eu não serei tua.

571

Lembranças

Aqui me sinto repousada
Entre o verde,
Que pelo quente de agosto é abraçado,
Lembro as poucas lembranças que me é possível recordar,
Aquelas que mal ficaram no passado;

De perna cruzada e a cantarolar, Aprecio o que diante de mim a vista alcança,
Duas crianças com ganas de chegar ao céu
Embaladas na própria dança;

Risos e respirações sôfregas,
Quase propositadas, criam harmonias,
Aqui sentada peço a quem me ouve
Que tais garotas não passem as minhas agonias;

De repente, um choque de realidade,
De quem muito sonha e pouco alcança,
E com a lembrança do tempo
De que não mais serei criança.

747

Dia mais cinzento

Dia mais cinzento que este,
Não via desde o início da primavera,
Tão piedosamente melancólico,
Assim como Deus quisera;

Corri aos tropeços para a varanda,
Não dando ouvidos à mãe a chamar,
Desta vez não para ver o meu amor,
Fui assistir o céu desabar;

Sinto-me inquieta, um reboliço em mim,
Olho o vizinho, as árvores agitadas no jardim,
Miro as senhoras apressarem o passo,
Apoquentadas, com os ninos no regaço;

Logo, um clarão estranho aqui se apodera,
Sem ver de quê, um último chilrear,
A mãe pisa a madeira velha, fugosamente,
Resmungando o cabelo que não chegou a entrançar;

Ouço começar a chuva de fininho,
O coração errar uma batida desenfreada,
Dou por mim a pensar nesta desgraça:
Como faço para deixar de amar,
Como estou sofregamente apaixonada.

715

Suspiros sôfregos

Suspiros sôfregos,
Uma linha de suor
Compondo a testa,
Face pálida de rubor;

Cabelos desgrenhados
Que instigam tal desejo meu,
O meu coração palpita
Só de ouvir o som do teu;

Nossas pernas enroscadas,
Nossos corpos livres de qualquer pano,
Nossas almas compenetradas,
Deste jeito tão insano;+

Agora vejo-me triste,
Cerro os olhos, bruscamente,
Com ganas de continuar a ver minha Circe,
Que se dissipou do meu sonho tão friamente.

717

Para sempre hei de amar!

Para sempre hei de amar!
Para sempre hei de recordar
Quando diante de mim sentavas,
Cabisbaixo no olhar, mirando
Os rabiscos que nos papéis desenhavas;

Para sempre hei de amar!
Ao redor tanta mocidade e eu só te via a ti,
Contemplava-te como se fôssemos sós no mundo,
Tu, tão diferente de todos eles,
Seria o começo de um amor profundo;

Para sempre hei de amar!
Quando cantavas,
Ah quem o visse cantando!
Voz forte, robusta, meia anasalada,
Fazia-me ajoelhar pelo seu encanto;

Para sempre hei de amar!
Só não me permito esquecer
quando tocava as cordas da guitarra,
Via-me eu, perdida num canto, acanhada,
A deixar que a minha alma fosse quebrada;

Para sempre hei de amar!
Com a alma em pedaços
Tomada pela louca paixão,
Amarei devotamente
Tudo o que chegar ao meu coração;

Sofro!
Sofro porque te amo a ti,
Sofro porque amo e não sei amar,
Sofro porque tenho medo,
Medo de o tempo a mim te levar.

E levou.

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Comentários (4)

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miguel_damas

Muito prezo as tuas palavras miuda, não tens só beleza exterior, o que sai de ti é bem mais forte e bem notável. 17 anos e muita boa escrita :D Um Abraço

jw2018

Lindos poemas!

aliceholanda9

Suas palavras são verdadeiras e sinceras, consigo sentir quando algo é bom, mas isso é ótimo

Alberto de Castro

Tão jovem, tão bela e tão talentosa. São três ingrediente mágicos e incendiários. Parabens!