Lista de Poemas
Quanto Deus me deu
Quanto Deus me deu,
Olhar para te olhar,
O teu gesto tão singular
Que me tem cativa;
Entre pérolas e esmeraldas,
Entre sorriso e olhos cansados,
Entre ti, meu bem, minha alma,
Entre lágrimas e soluços agoniados;
Face pálida e deleitosa,
Lábios rosados tão belos
Que me perco de tão formosa;
Senhor leva a minha dor sofrida,
Só te peço que não leves os meus olhos
Para contemplar a minha inimiga.
Quanta dor
Quanta dor não faz sentir,
Em cada fibra do meu jeito,
A dor da rejeição,
Essa que me fere o peito;
Orgulho ferido num leito desenhado,
Pingas do que te corre nas veias
Que caiem, piedosamente, em mim
Sob a sombra d'um gesto quebrado;
Vejo-me leda e formosa,
Tamanha é a minha fantasia,
Quantos dias eu não conto
Para sanar de mim tal agonia;
Some-te dos meus pensamentos,
Que de ti não quero que não me queiras,
Quem seria eu, meu anjo,
Se a ti não te quisesse?
Pelas entranhas do mar
Vejo uma fraca linha no horizonte,
Sussurros agoniados de ventos se ouvem,
Sente-se as gentes gritando poesia
Em meio ao inebriante cheiro a maresia;
Consigo até imaginar o seu gesto,
O seu corpo esculpido banalmente,
Pelas entranhas do mar vejo
A minha esmeralda no meio desta gente;
O seu corpo balança ao som das ondas,
Numa dança envolvente que me cega,
O meu olhar de desejo reprimido
Culpa-me e entrega-me d'alma a ela;
Enfim, sua sombra se dissipou,
Resta-me contemplá-la no meu pensamento,
O mar agita-se bruscamente
Para dar ínicio a todo este tormento.
Tirai os meus olhos e o coração
De ti cansada estou,
Cansada estou de esperar por ti,
O meu descaso e cansaço
Vem da mágoa que já senti;
A paixão a ir-se pelas entranhas,
Chorando a minha alma
De servo inexperiente,
Enquanto espero por ti amargamente;
Passei a celeste madrugada
A contemplar aquilo que não é meu,
De jeito nenhum me pertence,
Tal amor que Senhor me deu;
Rogai a Deus que peço:
Tirai os meus olhos e o coração,
Que para mim só o desprezo chega
Para acabar com esta sansão.
De frente ao mar
Aqui me sento
De frente ao mar,
Não sabendo o que há de vir,
Não sabendo o que hei de esperar;
Dedilhando a areia,
Deixo-me levar por pensamentos,
Deixo-me molhar pela água,
Deixo que ela leve os meus tormentos;
E se o meu amor fosse tão bom
Quanto a formosura deste lugar?
E se o meu amor fosse alcançável
Quanto o medo que tenho de esperar?
A dor da incerteza é bem pesada,
Cuidarei do meu pássaro
Ou deixá-lo-ei voar?
Mal sabe ele que d'ele não espero nada.
Dia mais cinzento
Dia mais cinzento que este,
Não via desde o início da primavera,
Tão piedosamente melancólico,
Assim como Deus quisera;
Corri aos tropeços para a varanda,
Não dando ouvidos à mãe a chamar,
Desta vez não para ver o meu amor,
Fui assistir o céu desabar;
Sinto-me inquieta, um reboliço em mim,
Olho o vizinho, as árvores agitadas no jardim,
Miro as senhoras apressarem o passo,
Apoquentadas, com os ninos no regaço;
Logo, um clarão estranho aqui se apodera,
Sem ver de quê, um último chilrear,
A mãe pisa a madeira velha, fugosamente,
Resmungando o cabelo que não chegou a entrançar;
Ouço começar a chuva de fininho,
O coração errar uma batida desenfreada,
Dou por mim a pensar nesta desgraça:
Como faço para deixar de amar,
Como estou sofregamente apaixonada.
Predileta Musa
Minha predileta Musa,
D'olhos cor de esmeralda,
Que para mim é já incansável
Degustar de tão bela alma;
Na leda madrugada que rendeu,
Ouvir-te-ia cantando
Sob o peitoril da janela,
Tecendo a alma que já morreu;
Alma minha, talvez dela,
Essa que vai subindo ao céu,
Tão fria, quase congela,
Tamanha é a mágoa, tão singela;
Minha celeste criatura
Que me quebra o coração,
Sabe ela que não há fortuna melhor
Que me ter por rendição.
Não mais fiz depois que amei
Vivi em ilusões desmedidas,
Rodeada por quem pouco exerga,
Vivi somente para ver o sol se erguer,
Alumiar um conectar de vistas,
Que a volúpia e luxúria faz crescer;
ao que move a minha amargura,
De nao ter ocio no amor e na poesia,
Que amo tanto e tudo o que respira,
Que é como cantiga sem partitura,
Uma doce, vil, alma insegura;
Encontrei-me na lira que escrevi,
Sonhei e prometi Mundos somente
A quem não soube dar estima,
Que amor e lágrimas lhe tive,
Tanto que só chora quem ama
E só ama quem nada sente;
Perder-me em sôfregas palavras,
Desaparecer num abraço sentido,
Tocar-lhe, sorrir-lhe e sussurrar-lhe,
Bem baixinho ao ouvido,
A melodia de um coração partido.
Suspiros sôfregos
Suspiros sôfregos,
Uma linha de suor
Compondo a testa,
Face pálida de rubor;
Cabelos desgrenhados
Que instigam tal desejo meu,
O meu coração palpita
Só de ouvir o som do teu;
Nossas pernas enroscadas,
Nossos corpos livres de qualquer pano,
Nossas almas compenetradas,
Deste jeito tão insano;
Agora vejo-me triste,
Cerro os olhos, bruscamente,
Com ganas de continuar a ver minha Circe,
Que se dissipou do meu sonho tão friamente.
Um dia encontrar-te-ei
Um dia encontrar-te-ei
Sozinho, todo apressado do outro lado da rua,
Seremos dois outra vez,
Eu a olhar-te e tu na tua,
Voltaremos ao que sempre fomos,
Música sem harmonia,
Vida sem poesia;
E depois de passados anos
Vejo-me de novo perdida,
Segurando o meu coração em prantos,
Que relembra o quanto doía;
Talvez agora te possas lembrar de mim,
Voltar atrás no tempo
De onde eu te via do banco do jardim,
Tu, com aquele brilho nos olhos
Parecias feliz;
E hoje quem és tu?
Que ainda me fazes arder no fogo,
Que me puxas, agrides e magoas,
Que me rasgas o peito sem palavras boas,
Que me fazes ter dó de mim;
Talvez, daqui a uns anos,
Eu possa esquecer como me fazias sentir,
Vou mais além,
Talvez enquanto passo a minha vida a escrever-te,
Tu sejas feliz com outro alguém;
Talvez possas pensar em mim
Enquanto olhas a lua,
Talvez um dia serás meu
E eu não serei tua.
Comentários (5)
Muito prezo as tuas palavras miuda, não tens só beleza exterior, o que sai de ti é bem mais forte e bem notável. 17 anos e muita boa escrita :D Um Abraço
Lindos poemas!
Suas palavras são verdadeiras e sinceras, consigo sentir quando algo é bom, mas isso é ótimo
Suas palavras são verdadeiras e sinceras, consigo sentir quando algo é bom, mas isso é ótimo
Tão jovem, tão bela e tão talentosa. São três ingrediente mágicos e incendiários. Parabens!