Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo.
Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo. Além de escrever e ler gosto de cinema, de música e de praticar jardinagem. Sou mãe e essa é uma experiência de vida que me fascina e desafia permanentemente. https://www.facebook.com/faatimarodrigues [email protected]
Irene parou no portão e olhou para trás. Quis voltar para conferir se havia fechado bem a porta dos fundos. Achava que sim, todavia a sua intuição indicava ser necessário confirmar essa desconfiança. Esse era um gesto usual em sua rotina. Voltou e conferiu portas e janelas, foi ao banheiro, lavou as mãos e seguiu. Sempre que ia sair uma perturbação vinha a sua mente e não a deixava prosseguir sem que esses atos se concretizassem. E mais! Ao voltar para conferir, qualquer que fosse o esquecimento, também ia ao banheiro e depois lavava as mãos... Agora conseguiu sair! Ah! Que alívio ! Ficou pensativa sobre esses gestos costumeiros, mas prosseguiu. Já estava quase atrasada para o seu compromisso: iria assistir a um concerto do Coral Todos Nós. Dirigiu-se ao centro da cidade, entrou no teatro devagarinho, sentou-se e olhou para os lados em busca de conhecidos. Posicionou-se numa fileira em que tinha uma boa visão. Gostava muito daquele teatro: sua forma, sua acústica, suas cores. Escolheu essa programação em busca de algo diferente, algo que a acalmasse, pois a noite anterior foi de insônia entremeada por pesadelos. Atribuía essa perturbação a um filme de terror que assistiu antes de dormir. Por conta daquelas cenas de execuções ficou a madrugada inteira em desassossego e amanheceu o dia exausta. Na noite seguinte decidiu viver uma experiência diferente e ver algo bonito que a acalmasse, por isso é que estava ali. No ponto extremo esquerdo do palco um senhor vestido de preto cruzou o olhar com o dela. Aquele jeito de olhar a constrangeu, manteve-se em alerta e a indagar-se: - Por que ele me olha tão incisivamente? Enquanto pensava sobre isso dava-se início a apresentação cultural do coral Todos Nós, que é reconhecido pela qualidade da sua formação e repertório. O maestro regia com firmeza e atenção e as vozes do coral se alternavam entre os tons graves e agudos, entoando belas melodias. O repertório escolhido era impecável. O homem vestido de preto entrava e saía da coxia e dirigia-lhe um olhar penetrante. Ela sustentava o olhar, mas um arrepio a atravessava inteira. A peça do coral prosseguia, enquanto sentava ao seu lado uma senhora elegantemente vestida e bem maquiada, que a olhou de forma breve, cumprimentou-a e voltou-se para o palco. Conheciam-se de vista e a Irene supunha ser tal conhecimento vinculado às suas presenças nesse tipo de ambiente. Estando agora acompanhada pensou: ficarei livre do olhar invasor daquele assistente de palco. Ficou quieta observando-o, mas ao vê-lo com a atenção voltada para a coxia levantou-se e saiu. Atravessou todo o teatro pela lateral e adentrou a um outro vão bastante iluminado que dava acesso à rua. Sentiu o ar banhar-lhe o rosto, o que a deixou bastante relaxada. Olhou para o céu em busca da sua constelação preferida, mas nada viu: a poluição obscureceu o céu. Lembrou-se de quando deitava-se na calçada em sua casa, em Capim Dourado, e ficava contando as estrelas, coisa que se a sua mãe visse logo reprovava; segundo ela contar as estrelas no céu fazia nascer verrugas no corpo. Prosseguiu a caminhada, mas ao dar uns dez passos na calçada sentiu uma presença próxima e olhou para trás. O que a levou a constatar que o homem de preto, e de olhar penetrante caminhava olhando para o infinito. Era fim-de-ano e uma feirinha de natal composta de objetos artesanais ocupava os passantes. Ele parou numa barraca de enfeites natalinos e ela parou na barraca vizinha, queria demonstrar que não percebia o assédio dele; cruzaram os olhares e ela sentiu-se mais uma vez invadida. Aquele não era um olhar usual e ele continuava a segui-la. Manteve-se calma. Viu que ele comprava algo e aproveitou para tentar escapar da sua presença. Saiu atravessando a multidão, entrou na Rua Direita, conhecida por seu intenso movimento, e desaguou numa rápida caminhada na praça São Bento. Já descia uma escadinha para dirigir-se ao Vale do Anhangabaú e prosseguir numa rua lateral que daria acesso à Travessa em que morava quando deu de frente com ele. Estava exausta de caminhar e sentou-se num banquinho que estava disponível ao lado de uma banca de jornal. Do outro lado da rua o homem vestido de preto comprava cigarros e olhava-a de esguelha. Resolveu caminhar rápido. Embrenhou-se na multidão e dirigiu-se a passos rápidos para o Viaduto do Chá. O céu estava escuro anunciando chuvas. Pensou consigo mesma: - Era só o que faltava! Não andava com guarda-chuva. Começou a correr e o homem do teatro, que portava agora uma capa preta, ria-se e corria também. A Irene estava prestes a cair de cansaço. Foi então que uma música suave chegou aos seus ouvidos; abriu os olhos e ao sentir um incômodo na coluna aprumou-se na cadeira enquanto a dama sentada ao seu lado, no teatro, dirigiu-lhe um olhar de reprovação. O homem de preto continuava seus afazeres deslocando-se do palco à coxia, enquanto ela bocejava sem entender ao certo em que parte do espetáculo se encontrava, pois adormeceu logo na terceira música. O maestro agradeceu aos presentes e fez o encerramento com a apresentação da música Asa Branca. E agora, seguindo de volta para casa, ela se ocupava em buscar explicações para o ocorrido. Firmou o seu olhar no movimento intenso dos passantes, e para a sua surpresa o homem de roupa preta seguia quase ao seu lado e vez por outra olhava para trás. Um arrepio percorreu-lhe a coluna e ela seguiu adiante em busca de uma viela para proteger-se do desconhecido.
Fátima Rodrigues Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 21/11/2020.
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Espelho d' água
A imagem refletida no riacho é transversa e as sombras nele projetadas fazem arte transmudam-se em bichos de toda natureza Bruxuleiam Quando calmo o riacho é regato Nunca é recatado e não se ata a nada Segue toda a vida Seu barulho arrulha e embora se contorça não se embaralha Ao desdobrar-se de si vira reta e segue plano Se o relevo se empertiga vira uma queda Atravessa com força o despenhadeiro e abraça a moça despenteia-lhe os cabelos Faz rodeios para brincar de nada como criança Sob a luz é reflexo espelho fora dos eixos Tremeluza ! Seus contornos são próprios e seu chão tem bichos de pedras gerações inteiras de seixos afogados sob musgos em formas surpreendentes Quando seca vira apoio certo pedra sobre pedra Se inverter a rota me entristece Sigo é em frente como diz um parente Amo o que o compõe e o indefine Me perco nessa Geografia E não há lupa que o mostre igual A sua grandeza é restrita e sobeja em ser. Fátima Rodrigues, expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil.
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Chão de Estrelas
Chão de Estrelas
Em dias de chuva sou toda oitiva imagens refletidas nas poças d'água conectam-se com o universo que me cativa
O olhar é para além
Me chega em sopro as orações da minha mãe Então, o chão vira espelho e o ceu projeção Do chão ao céu gaivotas plainam indiferentes à minha condição
Amo o céu, as gaivotas,e as sombras projetadas no chão Amo sem fronteiras os que ocupam esse fugidio território que é o meu coração
O amor é o meu lume e dele sou cativa.
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Solidão
Se a solidão te abraça nos dias mornos de outono na primavera florida e nas madrugadas de inverno acolhe-a como a um poema a uma flor ou a um manto nas voltas que a vida dá
Convide-a a ficar pertinho aconchegue-a nos teus braços com as dores e lembranças tesouros tão bem guardados que se escondem nos diários nos sonhos e pesadelos escutas a voz que a ti chega nas voltas que a vida dá
Se ela te deixar insone se te sentires contrito não a retenha em si divide-a como puder no campo em casa ou nas urbes nas voltas que a vida dá
Divide-a com os que virão contigo dialogar pois mesmo se a lua míngua ou se ela brilha inteira e até mesmo se os amantes vagueiem quase a ermo a solidão faz a curva nas voltas que a vida dá
nos prados e nas montanhas nos mares e continentes nos ares e nas cavernas no espaço cibernético também nas almas cativas onde se instala e penetra ela se apoia e prossegue nas voltas que a vida dá
Almas em desdita a atraem que lucidez ela tem ! atrapalhar os amores? seria mais que insano por isso escolhe o que é próprio Para poder indagar sobre a vida e o ser nas voltas que a vida dá
Mas se o teu coração sangra se a falta te acompanha se isso te interessa o teu ato em si confessa e a solidão vê a fundo de modo que só a entende quem com ela vaga incerto nas voltas que a vida dá.