Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo.
Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo. Além de escrever e ler gosto de cinema, de música e de praticar jardinagem. Sou mãe e essa é uma experiência de vida que me fascina e desafia permanentemente. https://www.facebook.com/faatimarodrigues [email protected]
Toma banho e veste-se Pega o álcool em gel Põe a máscara Guarda na bolsa um envelope Confere a lista de compras Entra no carro Faz o check-list Como tirar a máscara ? Como recolocá-la ? Como higienizar as mãos ? E se encontrar conhecidos? Como manter-se distante ? Como resolver tudo isso? Liga o rádio Escuta as notícias Mais de mil mortes em 24h? Caiu mais um ministro ? Em busca polícia mata criança! Acelera o carro em excesso Dar-se conta e para Vê ruas vazias Empoeiradas Portas fechadas Cai uma chuva fininha Sinais abertos De quem é a vez? Não se aproxime! E ao chegar de volta? O que fazer? Segura o cão Cão pega Covid ? Consulta o google Mais manchetes de mortes Morreu Moraes Moreira O Brasil chora Suicidou-se Migliaccio Lima Duarte revela Morreu Aldir Blanc Artistas se rebelam Cadê a Regina? Brasília a espera E o silêncio impera Retorna a si mesma Se arrepia e chora Se vê impotente Chega ao ponto Que sorte! Poucos estão nas ruas O medo é agora Caminha apressada Agiliza as compras Retorna ao carro Higieniza as sacolas Pensa de novo na volta Conhece o caminho Desconhece o Covid Se inquieta e se indaga E se os amigos morrerem? E se a filha não voltar? E se mãe não aguentar? E se o presidente não cair? E se a gente desanimar? E se a cidade não trabalhar? E se o campo se rebelar? E se o congresso não ceder? E se o Enem acontecer? E se a Marielle ressuscitar? E se o PT se reinventar? E se a "tubaína" matar ? E se a cloroquina resolver? E se o povo acreditar? Ainda a indagar (....) Começa a retornar! O sol está a brilhar!
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Fronteiras do Ser
Olhei-me inteira como se fizesse um inventário da vida Estava plena Nada me impedia As marcas são sinais de um percurso Por que acioná-las agora? Melhor é deixá-las com o sentido que têm Do tempo que se foi Acúmulo apenas Aprendizados há em demasia Dores sangradas e cicatrizes curadas Atos de fé Ternuras somadas às noites infindas Caminhadas por trilhas e estradas largas Sorvo essas lembranças fixadas em meu corpo Olho, vejo, miro Reparo Volto no tempo devagarinho Conto estrelas Da janela vejo o Cruzeiro do Sul Constelação de minha infância Sempre presente em mim Porque apagar essas marcas grisalhas que tantas memórias me trazem? As tintas já não conseguem ocultar a imagem que assoma ao espelho Estou plena A luz resplandesce e ilumina o meu rosto Há uma juventude passada Outra se apresenta a me cobrar coragem O ser pede licença, agora Sou.
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Estados amorosos da poesia
Poesia não se planeja como Artigo Acadêmico Pode vir de um nó no peito ou de uma grande alegria os discursos sobre ela desaguam em aporia
De onde vem a poesia? de um estado amoroso de uma saudade danada a sangrar dentro do peito Vem da leveza da pluma que toca a alma da gente
E se a alma nos conduz aos mistérios do universo quero um Estado de Poesia e a palavra como matéria para compor muitos versos usando todas as sílabas
E o que mais é a poesia? Um despertar que acontece! Comumente é a libido expressa numa paixão que brota pela humanidade em toda a sua expressão
O seu valor se revela nos interstícios do dito O motivo é o que nos toca e nem tudo é veredicto Tem vezes que se assemelha à vista de um precipício
Para alguns soa banal como paisagem já vista Mesmo que em si ela expresse para além do que é visto como só fazem os afetos nos amores interditos
E o que pode a poesia? Pode criar e recriar daqui até o infinito aquilo que não foi dito Pode tudo registrar do fim até o início
E para finalizar vou de pronto declarar Sobre a fome escrevo aflita Sobre a guerra inquieta Curiosa sobre a alma Taciturna sobre a dor
Sobre a ausência soberba que veio apertar-me o peito Vou de pronto lamentar e com ela até rimar pois com paixão é que escrevo todo dia sobre o amor
A palavra brota fácil seja qual for a missão não importa o lugar e nem a situação Só preciso dos objetos e de uma motivação.
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Afagos à natureza
O dia foi de jardinagem Por um longo tempo eu e as plantas nos olhamos e trocamos carinho Depois mirei outras espécies
Lembro dos bem-te-vis e dos sabiás expostos aos raios de sol Uns cantaram outros banharam-se de luz
Beija-flores, borboletas e formigas fizeram seus afagos e faina no ambiente Ao sabor do tempo ficaram as lagartixas Abelhas instalaram-se na trepadeira
De carinho impregnadas as plantas regozijaram-se Algumas perderam galhos e folhas Respiraram aliviadas
De alegria, folhas e flores transbordaram em cores Lindas rosas desabrocharam Outras ficaram prenhes
Os mandacarus pareciam descontentes Fiquei curiosa Desejariam os sertões? O seu habitat ?
Amo a aspereza dos cactos e insisto em tê-los comigo É por amor que os conservo em meu jardim Mas eles exigem condição !
Os mandacarus são mágicos Guardam em si água e flor Resistem às intempéries e ao sol escaldante E somente florescem uma vez ao ano
Por um longo tempo hibernam Tento imitá-los e com a sua sabedoria aprendo Nem tudo são asperezas na vida
Se um dia é pesado o outro é pura leveza Sorvo as lições dos mandacarus mas também das xananas
Os dias pesados se vão sem amargura Guardo a leveza dos dias bons numa espécie de ensilagem Assim a vida prossegue
Inspirada ora no mandacaru ora na xanana Exposta ora ao sol ora ao vento absorvo lições da vida e da natureza
Como ocorre com o mandacaru nunca me faltam flores Elas se acomodam nas minhas entranhas até a maturação
Após a hibernação nascem plenas E fortalecidos andam mundo afora enquanto o ser prepara-se para novas concepções Em 22 de novembro de 2014.
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Lições de um cajueiro, lições de vida (crônica)
Olhei para ele demoradamente e lembrei-me de quantas vezes estive sob a sua sombra e do quanto saboreei os seus frutos, senti o seu aroma, aparei no ar as suas folhas secas e admirei os seus frutos. Sob o seu olhar atravessei desertos, transpus continentes, admirei mares e lugares. Por ali viajei, viajei, viajei. Agora, as lembranças do seu aconchego acionam meus sentidos. Ah! Que saudades daquele cheiro gostoso de fruta, misturado com o da terra molhada! Os dois juntos me aguçam por demais os sentidos! Mas não são só os cheiros e os sabores que fortalecem os nossos laços, a sua simples presença nos instiga, pois muitos lugares em nossas vidas ele ocupa. Em minha memória ainda ecoam gritos infantis que em períodos recentes, à sua sombra, me traziam de volta à realidade. - Mainha, Mainha, cadê tu? Saía da sombra do cajueiro para receber abraços suados, e acolher alegrias, brincadeiras e traquinagens das minhas crianças e, as vezes, de seus amiguinhos. Nesses momentos havia sempre alguém a "enredar" do outro, a contar uma descoberta, uma novidade, a querer ensinar um jogo, ou a cantar uma canção. Gostávamos muito de ouvir as músicas do álbum Os Saltimbancos, e quando me pediam música, e as minhas cordas vocais não ajudavam, recorríamos ao nosso acervo musical infantil. Os saltimbancos vinham à escuta em primeira mão:"Jumento não é. Jumento não é o grande malandro da praça. Trabalha, trabalha de graça..." . E se após tantos folguedos ainda sobrassem energias, nos lançávamos às brincadeiras de esconde-esconde. O cajueiro tudo testemunhava silencioso, e acolhedor e, quando chegava dezembro a sua safra de frutos era enorme, o que atraia a si os passantes da rua escritor José Vieira. Às vezes doávamos frutos, outras nem isso era necessário, pois eram retirados com ou sem a nossa permissão. E nos períodos de safra quando a vovó Terezinha chegava para passar uns dias conosco, era certo que teríamos os deliciosos doces de caju nas modalidades compota e geléia. Que delícia! Assim seguia a vida; a nossa e a do Cajueiro. O tempo transcorria a seu sabor e com ele se passaram as festas do ABC, a conclusão do Ensino Fundamental, as viagens pelo Brasil e pelo exterior, e o ingresso na universidade daqueles adolescentes em busca de seus sonhos. As crianças travessas cresceram, voaram: Fortaleza, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Salvador, Paris, etc. Os tempos são outros. Hoje ao observar o cajueiro vi as suas folhas amareladas, os seus galhos retorcidos e o seu tronco envelhecido, e isso me fez ficar atenta ao seu destino. Onde anda o seu vigor? E aquela alegria que o mantinha sempre a brincar ao vento ?! Com a nossa semi-ausência, vida de adultos, viagens, trabalho em demasia, idas e vindas ele deixou de produzir frutos. Faltam-lhe afagos? Sentirá falta dos ruídos infantis a sua volta? Em sua aparência revela-se adoecido, cansado. E aí veio o veredicto do jardineiro: - É melhor plantar outro cajueiro. Já expurguei seus galhos com defensivos naturais, já fiz podas e ele não melhora. Não vamos conseguir curar essas pragas. Fiquei triste e pasma com essa observação. De imediato descartei aquela ideia. Tirá-lo dali seria como se parte de nós fosse embora com ele. Pensava: - E as nossas histórias que outrora ele tão bem testemunhara? Precisaria de muitos dias e noites para registrar uma pequena fatia do que ele sabe. Lembrei dos meus medos quando, o portão da garagem não era ainda automatizado, ao chegar em casa a noite, do trabalho, e ter que descer do carro para abri-lo manualmente. Ele sempre estava lá corajoso e forte a amparar-me. Aquela conversa com o jardineiro caiu nos seus ouvidos. Ao olhar para o seu tronco avistei seus olhos a marejarem, assim como nadavam em lágrimas os meus. Abraçamo-nos e choramos esse nosso reencontro inusitado, que só o amor faz acontecer, e ali mesmo selamos um acordo em defesa da vida.
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Mares de mim
Singro os mares de mim além de ti Nesse andar sôfrego Ao infinito Sigo
Nada obtive em vão
Às madrugadas me recolho aos meus intintos Deixo que a tua alma me invada Abruptamente renovada sigo
Me fascinas !
Quando me envolves atravesso incólume a brisa gélida do Mar Egeu Cindida hesito Entre sussuros e silêncios sigo