Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo.
Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo. Além de escrever e ler gosto de cinema, de música e de praticar jardinagem. Sou mãe e essa é uma experiência de vida que me fascina e desafia permanentemente. https://www.facebook.com/faatimarodrigues [email protected]
Ao ganhar um ano novo que o tenhas por inteiro Reveja o vivido ponto a ponto Anote e repare, se for o caso, o que fez com intenção Anule os afetos que trazem a desesperança Apague o que passou do prazo ou renegocie-o com quem puder A vida pede passagem Se mágoas são apagadas o perdão é teu Não deixes que façam dele troféu Caminhar mirando horizontes nos traz belas paisagens e renova as utopias Se durante o dia veem-se pontos obscuros em simulacros ou em explosão de cores à noite tem-se constelações a brilharem Dentro de nós um mundo é dado torna-o grande como somente tu podes Mas se a invenção do tempo te perturba sê inteiro Inventa o teu próprio tempo no comando da tua vida Para cada ser há um horizonte a descortinar novidades em pedaços de festa, de júbilo ou de dor
Ano velho? Memórias de nós Terra fertilizada, arrasada ou replantada? seja o que for ! Na simplicidade podemos semear grãos e renunciar naturalmente a essa contagem do nada O tempo é pura invenção Ser é o que em si se reinventa.
Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 31/12/2020.
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O homem e a besta
O poeta estupefato indignado Tocado Ensimesmado Entristecido E Incrédulo frente à condição humana brada ao mundo - Vi um bicho na imundície revirando o lixo e esse bicho era um homem! Cena igual a que viu o Bandeira eu vi, hoje mesmo eu vi! Oh! Meu Deus! Ao revelar a minha dor alguém indiferente indagou: - e dai? De humano à besta em que esse ser se transformou?!
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Percurso
Caminho entre encontros e reencontros que me aprazem e me curam Do estar junto ao estar só fendas se abrem Ciência tenho é nesses pontos indecifráveis onde me humanizo Onde tudo é mistérioso e provisório me refaço e elaboro o viver Lá, sou Eu e o outro Ciente de mim me reencontro na mais pura introspeção Nesses interstícios a solidão vira solitude No diverso é que existo
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil. Em 14 de dezembro de 2020.
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Tic -tac do amor
Tic -tac do amor
são apenas dois sonzinhos que anunciam bem de leve - vai chegar um bebezinho! Tic-tac, tic-tac agora é o meu coração a imitar o relógio provocando confusões Tic-tac, tic-tac Não me atormente a cabeça pulsando tão lento assim pois o esperar das horas descompassa as emoções Tic-tac , tic-tac Pisa firme no andar pois sem a tua cadência como o tempo chegará ?! tic-tac, tic-tac bate calmo, bate lento não me provoque tensões atente ao acontecer pois um bebê já chegou e me faz imaginar que é tempo só de amor.
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Destino encantado
Borboleta! - Porque voas? Voar é o meu destino Já fui casulo encantado cantando só para dentro Me escondia de mim mesma em total alheamento foi lá que ao escutar-me inventei o meu destino Todo encanto tem seu preço por isso asas ganhei e vôo a todo instante para fora e para dentro Para fora expulso a dor e para dentro sorvo a vida Viver é nada fazer para além de em si acolher o ser, o desejar e o querer.
Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, ParaíbaBrasil, em 21 de novembro de 2020.
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Incêndio na biblioteca (Conto)
Incêndio na biblioteca
Adriana levantou os ombros num movimento ágil para sentar-se ou apoiar os seus cotovelos na areia. O sol refletia sobre si e sobre o que a circundava, palavra que a lembrava de circo, em sua forma, tanto quanto lembrava de um círculo; forma diferente da cobra de vidro que fazia uma volta atrás da casa do poeta Manoel de Barros; “cobra” que perdeu a graça para ele quando foi nomeada de enseada. Gostava, o poeta, das coisas simples descritas de modo a suscitar imaginação, imaginações, e não aprisionada.
Volteios à parte... Adriana suspendeu o ato e voltou a deitar-se na areia tomada por um redemoinho de lembranças que a levava de volta à sua cidade natal.
Naquele longínquo e pequeno lugar o café da manhã era ocasião para todos atualizarem as conversas, as fofocas e para trazerem novos assuntos à pauta familiar. Enfim, eram encontros regados por iguarias caseiras: os pés-de-moleque da Dona Rosa, a canjica da Dona Zilda, os pães-de-queijo da Dona Filó, além das receitas da própria família que tanto a agradavam. Sentada em volta da mesa a família conversava sobre tudo: doenças, afazeres, vida social, planos, etc . Todavia, naquele dia o assunto da vez era o incêndio na biblioteca da maior escola da cidade. Dizia-se que ninguém foi pego em flagrante não obstante corria boatos, entre alguns, de que já havia uma pessoa em suspeição, e era sobre isso que segredavam entre si. O incêndio começou às 20h e só foi debelado as 23h com a ajuda da população que, aflita com o acidente, se indagava:
- Quem, e por que fez isso? !
A verdade é que o fogo se alastrou e queimou boa parte do acervo da Biblioteca Graciliano Ramos, que provinha de doações.
Conta o vigia que saiu em seu horário, às 17h, e deixou tudo em ordem, argumenta ainda que não houve nenhuma intercorrência que traduzisse atitudes suspeitas. Por ali só passaram até o final da tarde “crianças dóceis e educadas”, na faixa dos 7 aos 12 anos, e que tinham frequência regular na escola.
A história chegava às pessoas em sussurros. A gravidade do tema levava a que se baixasse o tom da voz até naquele dia, durante a conversa encetada no café da manhã, na casa dos pais de Adriana.
“Reza a lenda” que uma criança tocou fogo na biblioteca indignada com certos personagens do Sítio- do- pica-pau-amarelo. Isso a mãe da criança contou para uma amiga da vizinha da irmã da diretora da escola, pessoa que muito apreciava conversas jocosas, especialmente assuntos que movimentassem a cidade.
A razão da indignação da Rosiane, e o que a motivou a incendiar a biblioteca foi o fato dela não conseguir concentrar-se nas aulas, por conta das aventuras infantis narradas pelo autor do Sítio do pica-pau-amarelo. Já havia recebido duas reclamações da professora Ana, por falhas com as tarefas escolares, ainda que essa professora fosse famosa por seus métodos humanistas. Sem embargo, as constantes falhas em sala de aula também levaram a direção da escola a enviar comunicados aos seus pais, registrando o seu constante alheamento.
Contou a menina, posteriormente, que mesmo diante de muitos esforços não conseguia desligar-se dos enredos e dos episódios lidos durante os intervalos de aula. Registrou ainda que por ser feita a leitura na própria biblioteca, sendo proibido levar o livro para casa, por mais que se esforçasse não conseguia depois da leitura desligar-se das aventuras literárias.
Amava a todos os personagens do Sítio, mas tinha predileção especial pelo Visconde de Sabugosa. Era a sabedoria dele que a encantava e, por isso, ao voltar para a sala de aula ficava em conversa com o personagem, em pensamentos, é claro.
Começou a ser mais atentamente observada entre os colegas quando, por várias vezes, deu sinais de um desligamento do ambiente, pois não conseguia acompanhar sequer as leituras realizadas em sala de aula. Ao ser solicitada pela professora Ana para que desse continuidade à leitura, comumente, o seu enlevo revelava aos demais colegas não saber sequer a partir de que página e parágrafo deveria prosseguir a leitura.
Depois de repetirem-se vários desses episódios levou o primeiro bilhete da professora para os pais. E, a partir de então, as ocorrências desagradáveis foram se sucedendo, até que perdeu o status de liderança entre os colegas, o que a deixou muito chateada.
Os pais curiosos e preocupados com os acontecimentos indagaram sobre o que se passava com ela. Tudo em vão. A Rosiane nada contava sobre o quanto a sua mente andava ocupada com esses seres invisíveis que tanto amava. Temia que, em represália, a sua desatenção os pais a retirassem da escola onde tinha os melhores amigos. Isso foi contado também ao delegado.
O incêndio mexeu com a cidade, e o mais surpreendente de tudo foi o surgimento dos temas paralelos que passaram a circular nos bastidores. Havia propostas de toda natureza de corretivos à pequena leitora, desde a interdição na hora do intervalo da escola até às punições na família como a privação de viagens e de visitas aos amigos etc. Nessas ocasiões vieram, também, à tona às visões e correntes diversas da educação.
Contou a pequena leitora, ao delegado, a sua intenção de apenas pregar um susto nos personagens, especialmente no Visconde de Sabugosa que, por ser de sabugo, seria mais facilmente atingido em sua fragilidade. Entendia que o susto serviria de corretivo à sua teimosia. O recado dela para esse personagem era claro: que Ele não confundisse horário de recreação com horário de estudos, recado reproduzido a partir da visão da professora, visto que por conta desse tipo de confusão a professora já havia pedido a ela que soubesse separar as atividades recreativas das atividades pedagógicas. Destacou, especialmente, os constantes pedidos de atenção postos pelo Visconde durante as aulas.
No dia do incêndio ficou escondida na biblioteca e quando, o fogo já se aproximava do livro e ouvia os gritos do Visconde, pressentiu os passos do vigia que estava conferindo as fechaduras das portas, antes da finalização do turno de trabalho; assustada teve que pular o muro da escola, deixando um ponto de fogo aceso, que na sua fuga alastrou-se e não apenas assustou o Visconde como imaginou fazer.
Assim circulou a história na versão de uma criança fantasiosa e de uma leitora principiante.
Ficou claro a pureza da leitora, assim como sua singular imaginação, e o caso foi abafado. O delegado, amante da literatura, especialmente da obra de Agatha Chistie e Edgar Alan Poe, convidado a resolver o imbróglio, chamou a família de Rosiane e a direção da escola, e sugeriu que o acervo queimado fosse recuperado através de campanhas solidárias junto à comunidade. Já o nome da menina deveria ser mantido em sigilo, ainda que todos soubessem nos bastidores das suas peraltices, o seu nome não deveria ser publicamente mencionado associando-o ao fato.
A palavra SI-GI-LO foi repetida várias vezes durante a reunião com o delegado, a diretora da escola e a família de Rosiane, passando a ser utilizada em muitas outras ocasiões em que não havia qualquer necessidade de proteção aos infratores. Em sigilo foram mantidas as traições do prefeito à primeira dama; os casos omissos de prestação de contas; as demissões e transferências dos opositores, dificultando-lhes a vida; o abastecimento de carros privados com dinheiro público e a compra de votos nos períodos eleitorais, etc.
A palavra sigilo foi incorporada à história da cidade, ganhou fama, e diante de tantos sigilos praticados os cidadãos do lugar chegaram até mesmo a cogitar em mudar o nome da sede do município para Sigilo, decisão que seria coroada com a instalação de uma placa luminosa onde se destacaria: “Bem-vindos à Sigilo”. Apesar dessas ideias debatidas, após as avaliações criteriosas, pela Câmara de Vereadores, ponderaram os legisladores que o nome adotado, do fundador do lugar, um coronel famoso por ter construído o Parque de Vaquejadas, é uma homenagem justa que representa bem os munícipes, e bastava! Melhor permanecer assim, até mesmo para que o sigilo permanecesse sigiloso e fortemente protegido, sem concorrências públicas.
O “sigilo” pactuado pelos moradores do lugar em torno desses temas provoca preocupações em Adriana que olha agora embevecida o pôr-do-sol, embora perturbada por lembranças tão recorrentes e desafiadoras.
Desde então, assim transcorrem os dias, as noites, as horas, os minutos e os segundos naquela cidade, como em tantas outras nesse país onde, ainda na Primeira República, o potente escritor Lima Barreto o denominou de República das Bruzundangas.
O curioso é que Rosiane cresceu e tornou-se jornalista, e sem distinguir realidade e ficção, quiçá por suas ideologias que nada têm a ver com Moteiro Lobato, vive a produzir matérias jornalísticas que favorecem o sigilo nesse país dos maniqueísmos grotescos e das omissões, onde os poderes constituídos estão próximos geograficamente, mas alheios à maioria dos seus concidadãos, assim como alheio fica o Rochedo de Gibraltar em relação à Península Ibérica; porque assim quis a natureza, ou por que quiseram os ingleses ?
Até quando assim será a construção social da “realidade”? Não é difícil supor: sê-lo-á até que se inaugure um novo modo de ver o mundo e, principalmente que se compreenda os efeitos danosos da banalidade do mal.
Ainda bem que, silenciosamente, lápis e papel conduzidos pela livre imaginação podem produzir bons argumentos e viagens, e além disso nos tira das prisões e nos fazem viajar em nossas próprias fantasias e criações.
Fátima Rodrigues
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba , Brasil 05/12/2020.
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Neuroses (conto)
Irene parou no portão e olhou para trás. Quis voltar para conferir se havia fechado bem a porta dos fundos. Achava que sim, todavia a sua intuição indicava ser necessário confirmar essa desconfiança. Esse era um gesto usual em sua rotina. Voltou e conferiu portas e janelas, foi ao banheiro, lavou as mãos e seguiu. Sempre que ia sair uma perturbação vinha a sua mente e não a deixava prosseguir sem que esses atos se concretizassem. E mais! Ao voltar para conferir, qualquer que fosse o esquecimento, também ia ao banheiro e depois lavava as mãos... Agora conseguiu sair! Ah! Que alívio ! Ficou pensativa sobre esses gestos costumeiros, mas prosseguiu. Já estava quase atrasada para o seu compromisso: iria assistir a um concerto do Coral Todos Nós. Dirigiu-se ao centro da cidade, entrou no teatro devagarinho, sentou-se e olhou para os lados em busca de conhecidos. Posicionou-se numa fileira em que tinha uma boa visão. Gostava muito daquele teatro: sua forma, sua acústica, suas cores. Escolheu essa programação em busca de algo diferente, algo que a acalmasse, pois a noite anterior foi de insônia entremeada por pesadelos. Atribuía essa perturbação a um filme de terror que assistiu antes de dormir. Por conta daquelas cenas de execuções ficou a madrugada inteira em desassossego e amanheceu o dia exausta. Na noite seguinte decidiu viver uma experiência diferente e ver algo bonito que a acalmasse, por isso é que estava ali. No ponto extremo esquerdo do palco um senhor vestido de preto cruzou o olhar com o dela. Aquele jeito de olhar a constrangeu, manteve-se em alerta e a indagar-se: - Por que ele me olha tão incisivamente? Enquanto pensava sobre isso dava-se início a apresentação cultural do coral Todos Nós, que é reconhecido pela qualidade da sua formação e repertório. O maestro regia com firmeza e atenção e as vozes do coral se alternavam entre os tons graves e agudos, entoando belas melodias. O repertório escolhido era impecável. O homem vestido de preto entrava e saía da coxia e dirigia-lhe um olhar penetrante. Ela sustentava o olhar, mas um arrepio a atravessava inteira. A peça do coral prosseguia, enquanto sentava ao seu lado uma senhora elegantemente vestida e bem maquiada, que a olhou de forma breve, cumprimentou-a e voltou-se para o palco. Conheciam-se de vista e a Irene supunha ser tal conhecimento vinculado às suas presenças nesse tipo de ambiente. Estando agora acompanhada pensou: ficarei livre do olhar invasor daquele assistente de palco. Ficou quieta observando-o, mas ao vê-lo com a atenção voltada para a coxia levantou-se e saiu. Atravessou todo o teatro pela lateral e adentrou a um outro vão bastante iluminado que dava acesso à rua. Sentiu o ar banhar-lhe o rosto, o que a deixou bastante relaxada. Olhou para o céu em busca da sua constelação preferida, mas nada viu: a poluição obscureceu o céu. Lembrou-se de quando deitava-se na calçada em sua casa, em Capim Dourado, e ficava contando as estrelas, coisa que se a sua mãe visse logo reprovava; segundo ela contar as estrelas no céu fazia nascer verrugas no corpo. Prosseguiu a caminhada, mas ao dar uns dez passos na calçada sentiu uma presença próxima e olhou para trás. O que a levou a constatar que o homem de preto, e de olhar penetrante caminhava olhando para o infinito. Era fim-de-ano e uma feirinha de natal composta de objetos artesanais ocupava os passantes. Ele parou numa barraca de enfeites natalinos e ela parou na barraca vizinha, queria demonstrar que não percebia o assédio dele; cruzaram os olhares e ela sentiu-se mais uma vez invadida. Aquele não era um olhar usual e ele continuava a segui-la. Manteve-se calma. Viu que ele comprava algo e aproveitou para tentar escapar da sua presença. Saiu atravessando a multidão, entrou na Rua Direita, conhecida por seu intenso movimento, e desaguou numa rápida caminhada na praça São Bento. Já descia uma escadinha para dirigir-se ao Vale do Anhangabaú e prosseguir numa rua lateral que daria acesso à Travessa em que morava quando deu de frente com ele. Estava exausta de caminhar e sentou-se num banquinho que estava disponível ao lado de uma banca de jornal. Do outro lado da rua o homem vestido de preto comprava cigarros e olhava-a de esguelha. Resolveu caminhar rápido. Embrenhou-se na multidão e dirigiu-se a passos rápidos para o Viaduto do Chá. O céu estava escuro anunciando chuvas. Pensou consigo mesma: - Era só o que faltava! Não andava com guarda-chuva. Começou a correr e o homem do teatro, que portava agora uma capa preta, ria-se e corria também. A Irene estava prestes a cair de cansaço. Foi então que uma música suave chegou aos seus ouvidos; abriu os olhos e ao sentir um incômodo na coluna aprumou-se na cadeira enquanto a dama sentada ao seu lado, no teatro, dirigiu-lhe um olhar de reprovação. O homem de preto continuava seus afazeres deslocando-se do palco à coxia, enquanto ela bocejava sem entender ao certo em que parte do espetáculo se encontrava, pois adormeceu logo na terceira música. O maestro agradeceu aos presentes e fez o encerramento com a apresentação da música Asa Branca. E agora, seguindo de volta para casa, ela se ocupava em buscar explicações para o ocorrido. Firmou o seu olhar no movimento intenso dos passantes, e para a sua surpresa o homem de roupa preta seguia quase ao seu lado e vez por outra olhava para trás. Um arrepio percorreu-lhe a coluna e ela seguiu adiante em busca de uma viela para proteger-se do desconhecido.
Fátima Rodrigues Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 21/11/2020.
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Espelho d' água
A imagem refletida no riacho é transversa e as sombras nele projetadas fazem arte transmudam-se em bichos de toda natureza Bruxuleiam Quando calmo o riacho é regato Nunca é recatado e não se ata a nada Segue toda a vida Seu barulho arrulha e embora se contorça não se embaralha Ao desdobrar-se de si vira reta e segue plano Se o relevo se empertiga vira uma queda Atravessa com força o despenhadeiro e abraça a moça despenteia-lhe os cabelos Faz rodeios para brincar de nada como criança Sob a luz é reflexo espelho fora dos eixos Tremeluza ! Seus contornos são próprios e seu chão tem bichos de pedras gerações inteiras de seixos afogados sob musgos em formas surpreendentes Quando seca vira apoio certo pedra sobre pedra Se inverter a rota me entristece Sigo é em frente como diz um parente Amo o que o compõe e o indefine Me perco nessa Geografia E não há lupa que o mostre igual A sua grandeza é restrita e sobeja em ser. Fátima Rodrigues, expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil.
385
Chão de Estrelas
Chão de Estrelas
Em dias de chuva sou toda oitiva imagens refletidas nas poças d'água conectam-se com o universo que me cativa
O olhar é para além
Me chega em sopro as orações da minha mãe Então, o chão vira espelho e o ceu projeção Do chão ao céu gaivotas plainam indiferentes à minha condição
Amo o céu, as gaivotas,e as sombras projetadas no chão Amo sem fronteiras os que ocupam esse fugidio território que é o meu coração
O amor é o meu lume e dele sou cativa.
339
Solidão
Se a solidão te abraça nos dias mornos de outono na primavera florida e nas madrugadas de inverno acolhe-a como a um poema a uma flor ou a um manto nas voltas que a vida dá
Convide-a a ficar pertinho aconchegue-a nos teus braços com as dores e lembranças tesouros tão bem guardados que se escondem nos diários nos sonhos e pesadelos escutas a voz que a ti chega nas voltas que a vida dá
Se ela te deixar insone se te sentires contrito não a retenha em si divide-a como puder no campo em casa ou nas urbes nas voltas que a vida dá
Divide-a com os que virão contigo dialogar pois mesmo se a lua míngua ou se ela brilha inteira e até mesmo se os amantes vagueiem quase a ermo a solidão faz a curva nas voltas que a vida dá
nos prados e nas montanhas nos mares e continentes nos ares e nas cavernas no espaço cibernético também nas almas cativas onde se instala e penetra ela se apoia e prossegue nas voltas que a vida dá
Almas em desdita a atraem que lucidez ela tem ! atrapalhar os amores? seria mais que insano por isso escolhe o que é próprio Para poder indagar sobre a vida e o ser nas voltas que a vida dá
Mas se o teu coração sangra se a falta te acompanha se isso te interessa o teu ato em si confessa e a solidão vê a fundo de modo que só a entende quem com ela vaga incerto nas voltas que a vida dá.