Dias atormentados Braços combalidos Os pés agrilhoados Axiomas indecisos
De repente a porta Uno o sem ao nada Vazio que importa Como porta calada
A astúcia mundana Diz: “surda e muda” Porta de choupana Frágil, mas sisuda.
Algo tenho a dizer Ninguém pra ouvir Porta sem querer, Sangrar, ou sentir.
mauro
320
SONETO SEM RIMA
Viver é caminhar rumo ao desconhecido Às vezes com esperança e às vezes não Cada passo na firme intenção de chegar Saltar barreiras e alcançar seus sonhos
Alguns conseguem, pelo menos, apostar Atingem seus juízos, desejos e alcançam Mas e quando os sonhos são só nossos? O vazio faz eco e, de repente, é só ilusão
No máximo som de passos se afastando Alamedas distintas, remotas e diferentes Traços tão tristes como soneto sem rima
Logo virá a primavera ela trará o inverno O verão ficará só no passado dos passos Os nossos... E então caminharei sozinho mauro
250
MEU TEMPO
Tempo faz que o tempo fez o que sou Ora gostaria de mais tempo do tempo E deixar de sonhar com o que passou Tentando existir nesse novo momento
Nada há de novo somente a mesmice Eu mergulhei num rio de águas turvas Ao sair da estrada da minha meninice Pois no caminho reto fiz várias curvas
Longa a queda deu tempo pra pensar Ouvi o murmúrio d’água inda distante Senti medo. Ah se eu pudesse voltar!
O tempo podia dar tempo pra reparar A fração do tempo partida no instante Que o tempo não deu tempo pra colar
mauro
250
PERSONAGEM DE MIM MESMO
Estou triste e no alto de minha depressão Cubro-me com o manto negro longo e frio Meu sangue flui, mas não sinto o coração O que percebo é um misto de dor e vazio
Se puderes fixar meus olhos, neles verás O lado escuro, o pior, ou melhor, de mim Fugirás e, assim, possivelmente, viverás Ou te sugarei o calor; serei seu camucim
E, dentro de mim, verás minhas derrotas Porém terei sempre um sorriso paisagem Contarei, com sutileza, infames anedotas Não serei eu, mas só o meu personagem
mauro
250
EI VOCÊ!
Ei você, sim estou escrevendo pra você! Pensa que você fica incólume me lendo? Através do que lê, posso você conhecer Lendo, você também vai me entendendo
E no fundo você sente e até sofre comigo Por vezes minha história é a sua também Não? Quem nunca sofreu por um amigo? Iguais homem e mulher, somos o alguém
E você pode gostar se identificar, ou não Mas peço não me ignore, preciso de você Não precisa curtir apenas preste atenção
E, em momentos iguais, até alivie sua dor Na pauta de quem luta pra tudo esquecer Tentando viver sem desacreditar no amor
mauro
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ESTOU VIVO!
Oi! Tudo bem? Que bom! Eu? Estou vivo! E a vida? Melhor?! Eu já sabia! Você merece! A minha? Estou vivo! E o trabalho? Ah! Você cresceu e apareceu! Parabéns! Saber de mim? Estou vivo! E seus sonhos? Hum... Já realizando! Valeu! Os meus? Estou vivo! E quanto ao amor? Ah! Finalmente surgiu! Então está feliz! Comigo? Estou vivo! Foi bom ver você! Até mais e se cuida! Como? Eu também? Imagina! Estou vivo! mauro
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MAIS UMA VEZ
Que não me mate a terra Nem a vida me consuma Antes de alcançar a serra Para ver-te, linda, na luna
Que o pranto qu’eu deitar Não me estorve as vistas Não seja longo quão mar, Mas ainda impressionista
Pois não basta estar triste Tem que revelar essa dor Saudade é dor sem limite
Ah um dia ou dois talvez! Um tempo pro meu amor Te sonhar mais uma vez.
mauro
294
“VIAGEM”
Vida, liberdade e sabor dos ventos Um “torpedo” pra ajudar a “viagem” Não certo, mas vale os momentos Sinto ar e terra e sinto a paisagem
Sentir é bem maior que ser e estar Observar a natureza e vê-la em si Sentir a chuva doce e o sal do mar Isso posso levar; o tudo qu’eu vivi
Pois deixo de ser e deixo de estar Se o tudo é real quando se sente Viver é ver, sonhar, sentir e amar Vivências conservadas na mente
mauro
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MAIS QUE DEMAIS
Deixe-me beijar teu sarcástico sorriso Abraçar preciso teu corpo de maldade Tua sinceridade dói, mas é a realidade
Teu perfume é malícia; o doce veneno Então me percebo pequeno e perdido Retido em teu olhar, temeroso e ferido
Em tuas mãos eu sou brinquedo do mal Tal bumerangue ao teu anseio me solto Vou, firo alguém, e logo depois eu volto
Entendo até que muito e muito te odeio Porém descubro entre teus seios e sais Que te amo muito e é mais que demais
mauro
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UTOPIA
Depois de tanto tempo e muito tempo Senti estranho desejo de falar contigo E, do nada, eu senti que ainda te amo É a distância, o tempo e seus ventos? Descobri um novo sentimento antigo? Meu coração bate: “te amo; te amo...”
Estamos em nova era de nossas vidas Segues linda em seus ares de senhora As nossas crianças, agora, já crescidas Caminham rumo ao futuro, tudo normal O que fazer com o que me resta agora? O tempo, lesado da solidão, me fez mal Os anos já são dezenas em disparadas Então, logo serão uma cruel eternidade Passou o nosso tempo, não a saudade
Um dia eu pensei que, tudo, era perfeito E toda manhã, eu acordaria do teu lado Porém a perfeição é uma simples utopia E a pesar de toda emoção que me ardia Nem o maior amor do universo é direito Pois não foi direito fugir surdo e calado
A vida segue, mas estou bem diferente Ou indiferente, já nem sei bem explicar Passo meus dias no passado; ausente Eu viajo e, logo, estou a sorrir e brincar
Ora sinto a falta de minha outra metade Mas o dia é feliz se me faço desdenhar Alcancei que a metade do dia é à tarde Então metade do meu dia é a saudade Parte do dia é razão outra é pra sonhar