Recorrente
As reticências ainda dormem
nas ruínas das destruições
do tempo estupido e visceral
Antenas anônimas captam
ruídos ruidosos da rua e as
câmaras indolentes
filmam a metrópole aflita
Respingos de caos e sombras
no muro baleado – imóvel -
grafitado de aflições efêmeras
ante os trilhos do destino
Só os egos não veem os fósseis
- Não só Judas, nem só Gení –
Empáfia máfia repugnante:
quem manda pode?
Animalejo
O homem mata
tempera,
prepara e
come
E quer matar o bicho
que quer se
alimentar do homem
Quem é o bicho?
Quem é o homem?
O homem-bicho ou
o bicho-homem?
Morada de versos
Para eu ser feliz
bastam-me bons amigos,
uma morada de versos
rodeada de inspirações...
Uma corda no violão,
canções de fé e otimismo,
uma vertente de benquerença
e apreços no coração...
O barulho da natureza,
o som da poesia em meus ouvidos
e a certeza de que as amizades
são abraços de gratidão.
Meu horizonte é poesia
Ainda tenho alma
- acredite –
é calma
Tem horizontes poéticos
como os tempos velhos de mim
Quanto vale a idade?
Minhas estrelas ainda
são doces pregados no céu.
Solão
A pele arde
ao meio dia
a vida puxada pela copada
arrebenta-se ao meio
estrada de pó
solão
piedade!
Passos suspensos irrespiráveis
olhar incrédulo e horrorizado
do gado
faminto no potreiro
- O verde definha-
A fé maternal
A minha mãe rezava,
malemal me lembro
O vento forte
Temporal
Frio
Chuva
Folhas perdidas...
A madeira da casa gemia
tremia em nós o anseio,
mamãe rezava;
Tenho certeza!
Raios luminosos
Insegurança escura
Mamãe tinha fé:
- Santidade,
no altar da minha saudade!
Férias
Ela mexia o café
Ele espiava o mar
Hialino olhar
Ela queria sol de bronze
Ele queria ondas
de mergulhar
Ao sol tornaram-se areia e mar.
A estação
O hímen poético
frágil,
rompido
Poesia fecunda
- Desabrochando –
Versos nascendo
Cores do mundo
Natureza atávica
Teimosias ascéticas
- Frágil caule –
brotado na rocha
Noites alongadas
de esperas,
rimando flores:
- É Primavera.
Filete
A paisagem veste-se de noiva
Os caminhos congelam
Pobre gado!
Desespera-se pelo estábulo
Da boca verte fumaça
Um sentimento
sentido,
O tremor
do minuano zunindo,
O milho,
doce alimento
Noite impiedosa
Um filete de lua
tremelica...
gelado.
Viajante
No lado do carona,
a térmica na mateira
Da erva úmida,
o cheiro do mate
No rádio alguma música
regional
A paisagem bela
A serra
Os morros
A terra
Diante dos olhos
nuvens se movem
sem rosto
Dirigindo,
penso em Deus
Sou parte do mundo;
Sou tão pequeno!
Ligo as luzes,
Já é noite.
A estrada é solitária
- Sempre foi -
Reflexos luminosos
indicam sereno da madrugada
Peço a um anjo
que me guie
A vida não tem parada
Já, já
surgirá um novo dia.