Desenlace
O arame farpado
fere o vento
e a ferida arde
O sangue dolorido
espalha-se
e morre
na terra
A vida treme
Geme o fim
Adeus, eterno!
A morte ainda
é para sempre.
Sem memória
Há um grito que não responde
Eco silencioso que soa longe
Solto no ar
A onda peleia com as pedras
-indestrutíveis -
Mar sem memória de marés
não é mar
Sal sem demasia,
apenas mar
sem sinônimos
nem significados
Arrojado,
céu azulado
A água passou:
é passado.
Outra vez
Manhã virgem de sol
Dor doída
que já não dói
A vida é um flash.
Ontem
ficou pra trás
Caminhos desbotam
as folhas faciais
Anoitece outono
para amanhecer inverno
E o frio aprisiona,
mas o colorido da primavera,
- Que dádiva! –
avança pelos dias de verão
E a liberdade de amar
o mesmo amor
- outra vez -
ilumina o coração.
Ciclo
A vida em espírito e corpo se formando
O vento embalando a luz
nas poesias lançadas ao ar
Canções intensas sem instrumentos
na ternura dos meus sentidos
Cresci admirando os caminhos,
colhendo belezas que as mãos alcançavam
- Lamentando as flores mortas –
e fazendo versos ofertados com carinho
Meus olhos anoiteceram
O silêncio me fez lembranças aos passarinhos
A vida é um voo constante.
Charnecas floridas
Charnecas floridas
após a chuva
- Vida líquida -
dançam alegres
Ventos de elásticos
Repuxe de ondas
repetem nos olhos
a fotografia
Exalam nos ares
- Aqui e além-mares -
legendas perfumadas
em cores que balançam
colorindo o inconsciente
- Das flores –
da gente.
Infrutíferas
Em silêncio a luz apagou,
A alma aquietou-se,
triste e aniquilada
Vaga-lumes de estrelas
distantes e calados,
iluminado a madrugada
Olhos sem brilho
vertem dormentes,
frutas inférteis,
infrutíferas sementes
Tudo é deserto
O verde morreu
O eco distante
diz o que viveu.
Admirável
A vista da vida
vinha dos olhos de vidro
das ventarolas das janelas
Descendo
a descida
Degrau
por
degrau
Lindo e límpido
como água do poço
Frescor da brisa
cheirando a flores
Zunido de abelhas
adoçando o sonho
Crescidos
os girassóis sorriam.
Póticos
Pórticos rústicos
Alma em fuga
- Solitária -
Reflexo de luzes
Ventos de ausências
Suave récita poética
Som da lira
e as folhas dançam
Um passo
Mais um
E mais outro...
A distância!
Flor com a haste quebrada
a vida dá pouco
- Nada -
A pétala amanhece sangrando
... Mistérios
des (humanizados)
Declínio
Adornos de risos e alegrias
Farras e fantasias
semeando a vida
no horto de hortênsias,
perfumando o sacrário
da frase morta
Esquecida
Nos degraus do campanário
não há luz
- Morrem as estrelas-.
Belezas de um dia triste
Do alto da rocha admiro o fiorde
longínquo, calmo, sereno
- Encantos -
Altos paredões rochosos
- Medo! –
Reflexos pálidos
brilham em minha calva tristeza.
Ao fundo a brisa leve
torna tudo inesquecível
Me nego a ceder
Parodiando a dureza
torno-me pedra
A pequena e distante cachoeira
alcança desanimada a água salgada
Deus nunca saberá que solucei
Na calma improvisada da alma,
o analgésico suaviza-me as linhas
Esboço breve sorriso,
ninguém vê, certamente
O caminho retorna
- É o que resta!
Do outro lado,
dúvidas da vida
e a aurora boreal
- Deixo para lá:
- Bastam-me os horizontes