Lista de Poemas

Óculos

Tempestade dividida,
Oculta em um véu
Metade viu a chuva
A outra viu o céu.


665

Sua vida

Sua vida 
é seu belo poema,
é sua mais perfeita 
obra de arte.

É sua canção predileta
e sua melhor peça teatral.

Sua vida é seu presente:
­- Viva-a  intensamente! 

Sorria feliz!

Use figurinos coloridos,
experimente novos sabores
e abrace, com carinho, 
seus amores.

A vida
é sua incontestável vitória.

Agradeça.
- É sua glória!
(Do livro Abstratos poéticos)
82

Novos amanhãs

Nas ruas, a população
move-se mascarada,
atônita.

Uma pontinha de vida
chora ...

Lágrimas mundiais
unem nações.

Espalha-se a fome
e a dor tudo fecha.

Mas há o sol,
acompanhando o mar
e projetando novos amanhãs...

Há raios de fé
e ondas de esperança,
dizendo que ainda
devemos sonhar.
(Do livro Abstratos poéticos)
79

Bis

O sonho bom,
antigo e jovem,
antes planejado...

Despejado nos lábios:
- Desejo.

Sorrir
– não o riso que se apaga,
mas o longínquo,
contundente
como fruto e semente.

Feliz o que vai
e
volta,
pedindo bis. 
(Do livro Abstratos poéticos)
88

Prefácio do livro Abstratos poéticos

Prefácio

Em face dos Abstratos poéticos, quinto livro da bela safra de Moacir Luís Araldi, descortina-se um mergulho na alma, através de versos simples com temática profunda, tal como em Arco-Íris:
Preferi colorir meus olhos,
deixando a  natureza como estava.

 O poeta em questão igualmente projeta profundidades com imagens ricas e metáforas bem construídas, como em Camafeu:
Morder os olhos, /sentir o sabor/e degustar lentamente/semente por semente;
E no belíssimo  Pelo ar:
Dormem as borboletas. /Pedras endurecem o tom /e as areias desmaiam o chão.
Utilizando-se, notadamente, de elementos da natureza, Moacir aborda realidades e desencantos da vida de todos nós:
Á noitinha, a neblina virá/como sempre vem,/e mudará meus pensamentos./Lembrar-me-ei das nuvens brancas/ que abrirão o dia, amanhã,/e terei vontade de escrever/um verso nelas.
Mas o giz não alcança,/e, se alcançasse, seria da mesma cor:
 - Ninguém leria.
 - Do poema Delírio – 

Por suas estrelas, /a noite é linda,/e a escuridão que/não se vê/é pranto oculto,/latejante,/vulto/que dói profundo.
Às vezes escura,/às vezes bela./É como a vida /- Eterna espera.
- Do poema Pranto oculto – 
Há, por conseguinte, poemas que falam da humanidade (ou da desumanidade) dos seres humanos, como em Plurais:
O tempo nublou/ e a chuva virá/ ao anoitecer./ Falta humanidade /e botes Salva-vidas.
Discursos plurais,/razões singulares./ Pobre gente! /Em mãos que metem a mão/ o poder apodrece. /E o mal floresce.
Entretanto, há redenção e esperança para todos, como no sublime poema Eternidades:
Quase toda noite é escura, /mas há exceções./ Nem todo breu é sem brilho,/ são diferentes as visões. /Almas não ficam sozinhas./  Existe a leveza do voo /e, se não bastasse, /são tantas as eternidades!
Sabendo, inclusive, que sua matéria de beleza é a poesia, Moacir presta sua singela homenagem a essa arte, quase sempre esquecida, em Infusão:
O perfume exala, /inspirando o rimador. / Quente é a poesia. /Seu rosto é retrato / de vapor abstrato, /desenhado no espelho. / O verso cafeinado ascende os sonhos 
dá asas aos pensamentos
enobrece a criação 
e

ternura
poética
voa. 
O poeta também sabe celebrar a vida vivida, embora com certa nostalgia, em um dos mais belos poemas do livro, Olhar:
Olhei demoradamente 
para a foto da família.
Rostos lindos,
que meu coração vê.

Dedicatória
de algum ano
em que o sol se punha, rindo.

De lá para cá, eu a perdi,
juventude!
 Agora, só a tenho retratada.
Mas eu ainda a encontro na memória...
Ficou longe 
a cor da infância!
Silêncio é o que prende
a garganta.
Fecho os olhos.
Saudade!

Saudade é também o que nos fica, após a leitura de Abstratos Poéticos, um livro que discorre acerca de silêncios, tal qual em Quietude  (Onde se abriga o silêncio/que tantos guardam?), e em muitos outros poemas. Todavia, é com o ruído das palavras que Moacir Luís Araldi se destaca como sendo um dos grandes poetas de sua geração, seja por seu lirismo que encanta, seja pelo manejo majestoso das palavras.

Maria Elizabeth Candio
Professora de letras, com mestrado em Literatura Comparada, revisora, poeta e membro da Academia Contemporânea de Letras.
64

Fugaz

Ausências que habitam
distantes épocas
das minhas memórias,
sem nomes,
sem rostos,
sem corpos.

Endereços nem constam.
falta a glória,
faltam folhas,
sobram histórias,
esquecidas.

Nem meu nome aparece.

Ergo as mãos,
saúdo o finito.

Lembro-me de que tudo era bonito,
quase uma prece.

Ajoelho-me
e sinto que algumas raízes
resistem em heroísmo.

Há uma luz
esperançosa,
mas não há recomeços.

Dou mais alguns passos
para recordar o vivido,

e depois…
o último tropeço.
(Do livro Abstratos poéticos)
95

Último sol

Foi o último sol.
depois,
o inverno chegou.

A brisa 
cobriu a vida.

Nada mais era visível
e o que se via
não nos via.

O branco foi cobrindo
os olhos fechados.

Silenciados.

E os sonhos dormiram
eternamente.
(Do livro Abstratos poéticos)
86

Atemporal

Tempo prático é aquele
em que se cultiva roseira, 
e, num momento romântico, 
presenteia-se a rosa. 

Devaneios  são
perda de tempo.

Atemporais são
as horas vazias,
que tornam a alma fria.

Tempos melancólicos
são divagações e lembranças,
que pararam no próprio tempo.

O tempo para
O perdão 
é infindo. 

O tempo presente
é para ver a vida florescer
e o amor dizer: – Bem-vindo! 

Esse é o tempo de viver...

Ah, que tempo lindo!
(Do livro Abstratos poéticos)
123

A rua

A rua ainda me acolhe
em algumas caminhadas.

Tantas vezes, esperançoso, a percorri!

(Espiando em portas nas quais não bati).

Rua da minha mocidade,
das folgadas tardes de domingo,
do cinema lotado
e do bar-café ao lado.

Há tantas outras vielas antigas,
Jovens, revitalizadas,
mas só tu, rua minha,
estás em mim eternizada!

Por ti é que aqui volto 
e professo minha fé na Catedral.

Teu nome não digo,
este segredo levo comigo,
nesses passos na área central.

(Do livro Abstratos poéticos)
72

A ave

Sacudiu as asas na poeira.
Depois...

Vi, ao longe,
sacudi-las na poça d'água,
antes de subir e pousar,
como sempre faz,
na laranjeira, aqui em frente.

Outro dia, lá estava,
valsando de asa alçada
para a fêmea.

Agora montam ninho.

As penas brilham
de felicidade.

Ao amanhecer,
entoa um canto vencedor
e a companheira freia o voo,
vindo empoleirar-se ao seu lado

O cheiro da flor de laranjeira
me distrai.

O amor  está em tudo.

curiosamente, 
em tudo.

(Do livro Abstratos poéticos)
85

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais.
Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais.
Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras.
Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)