E para formar o rio O sereno se consumiu Em suas margens fez brotam árvores poéticas Impregnando cheiro de poesia no ar Que acorda, desperta e aguça, em nós, o poeta.
E o sabor da poesia É saudável Palatável Colorido Incomparável.
Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais. Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais. Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras. Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)
Não sei amar como Jesus amou, Mas sei amá-lo. Não tenho a fé de São Francisco de Assis, Mas tenho uma vida Franciscana. Não sei escrever como Quintana, Mas sei ler Quintana. Não tenho a Julieta do Romeu, Mas tenho um amor que é meu. Se não consigo viver em Pasárgada, Vivo feliz em Passo Fundo. Se não posso ser William Shakespeare, Posso ser um homem de poucas palavras. Ou não. Se não tenho respostas, Pesquiso. Sem beleza, Esbanjo simpatia. Sem dinheiro, Capricho na economia. Evito lentes, Por não ter fotogenia. Tendo tristezas, Combato com a alegria. E se tem câmeras, Ria. Só ria. Sorria.
672
Prefácio do livro Abstratos poéticos
Prefácio
Em face dos Abstratos poéticos, quinto livro da bela safra de Moacir Luís Araldi, descortina-se um mergulho na alma, através de versos simples com temática profunda, tal como em Arco-Íris: Preferi colorir meus olhos, deixando a natureza como estava.
O poeta em questão igualmente projeta profundidades com imagens ricas e metáforas bem construídas, como em Camafeu: Morder os olhos, /sentir o sabor/e degustar lentamente/semente por semente; E no belíssimo Pelo ar: Dormem as borboletas. /Pedras endurecem o tom /e as areias desmaiam o chão. Utilizando-se, notadamente, de elementos da natureza, Moacir aborda realidades e desencantos da vida de todos nós: Á noitinha, a neblina virá/como sempre vem,/e mudará meus pensamentos./Lembrar-me-ei das nuvens brancas/ que abrirão o dia, amanhã,/e terei vontade de escrever/um verso nelas. Mas o giz não alcança,/e, se alcançasse, seria da mesma cor: - Ninguém leria. - Do poema Delírio –
Por suas estrelas, /a noite é linda,/e a escuridão que/não se vê/é pranto oculto,/latejante,/vulto/que dói profundo. Às vezes escura,/às vezes bela./É como a vida /- Eterna espera. - Do poema Pranto oculto – Há, por conseguinte, poemas que falam da humanidade (ou da desumanidade) dos seres humanos, como em Plurais: O tempo nublou/ e a chuva virá/ ao anoitecer./ Falta humanidade /e botes Salva-vidas. Discursos plurais,/razões singulares./ Pobre gente! /Em mãos que metem a mão/ o poder apodrece. /E o mal floresce. Entretanto, há redenção e esperança para todos, como no sublime poema Eternidades: Quase toda noite é escura, /mas há exceções./ Nem todo breu é sem brilho,/ são diferentes as visões. /Almas não ficam sozinhas./ Existe a leveza do voo /e, se não bastasse, /são tantas as eternidades! Sabendo, inclusive, que sua matéria de beleza é a poesia, Moacir presta sua singela homenagem a essa arte, quase sempre esquecida, em Infusão: O perfume exala, /inspirando o rimador. / Quente é a poesia. /Seu rosto é retrato / de vapor abstrato, /desenhado no espelho. / O verso cafeinado ascende os sonhos dá asas aos pensamentos enobrece a criação e a ternura poética voa. O poeta também sabe celebrar a vida vivida, embora com certa nostalgia, em um dos mais belos poemas do livro, Olhar: Olhei demoradamente para a foto da família. Rostos lindos, que meu coração vê.
Dedicatória de algum ano em que o sol se punha, rindo.
De lá para cá, eu a perdi, juventude! Agora, só a tenho retratada. Mas eu ainda a encontro na memória... Ficou longe a cor da infância! Silêncio é o que prende a garganta. Fecho os olhos. Saudade!
Saudade é também o que nos fica, após a leitura de Abstratos Poéticos, um livro que discorre acerca de silêncios, tal qual em Quietude (Onde se abriga o silêncio/que tantos guardam?), e em muitos outros poemas. Todavia, é com o ruído das palavras que Moacir Luís Araldi se destaca como sendo um dos grandes poetas de sua geração, seja por seu lirismo que encanta, seja pelo manejo majestoso das palavras.
Maria Elizabeth Candio Professora de letras, com mestrado em Literatura Comparada, revisora, poeta e membro da Academia Contemporânea de Letras.
77
Bis
O sonho bom, antigo e jovem, antes planejado...
Despejado nos lábios: - Desejo.
Sorrir – não o riso que se apaga, mas o longínquo, contundente como fruto e semente.
Feliz o que vai e volta, pedindo bis. (Do livro Abstratos poéticos)
108
A rua
A rua ainda me acolhe em algumas caminhadas.
Tantas vezes, esperançoso, a percorri!
(Espiando em portas nas quais não bati).
Rua da minha mocidade, das folgadas tardes de domingo, do cinema lotado e do bar-café ao lado.
Há tantas outras vielas antigas, Jovens, revitalizadas, mas só tu, rua minha, estás em mim eternizada!
Por ti é que aqui volto e professo minha fé na Catedral.
Teu nome não digo, este segredo levo comigo, nesses passos na área central.
(Do livro Abstratos poéticos)
84
Desequilíbrio
O primeiro dia foi de miséria, os demais também.
Não fosse a carne do porco, a fome seria total.
E, depois, um tiro certeiro quebrou a asa de uma ave.
(Uma das asas ainda batia)
Desiquilibrada, caiu.
Com apetite voraz, segurou-a pelo bico, enquanto abria o pescoço.
O ar encheu-se de sangue.
Barriga vazia.
(Abatida, consumida)
Por tempos, salvou seu corpo, mas a alma, miserável, morria, dia após dia. (Do livro Abstratos poéticos)
79
Ímpeto
Desejo abraços apertados, sorrisos sinceros e francos, corações em paz, confortados, e amizades sólidas, sem solavancos.
Que a corrida não seja só pela vitória, nem somente para constar na história. Que coisas ruins saiam da memória, porque todos merecem um mínimo de glória.
Que a fé não precise remover montanhas; que medalhas não sejam só para quem ganha. Que todos tenham o poder da barganha e que realizemos grandes façanhas.
(Do livro Abstratos poéticos)
127
Tardezinha
Entardeceu, o relógio soou.
A matriz emite o som e contempla a praça.
- Para que servem as horas?
Gosto de ser feliz, tanto, que sou!
Mas o tempo...
Se não passasse haveria adeuses?
O presente, eu sei, é todo meu.
O tempo… só pode ser Deus. (Do livro Abstratos poéticos)
119
Folhas
Quando uma porta se fecha, sinto a tristeza da alma vazia. Imagino a dor na cravada da flecha, que vem da solidão e dos amargurados dias.
É como um grito que ninguém ouve, como um silêncio que nos torna insanos. Sei que há lagartas cortando folhas e raivosas tesouras abrindo o pano.
É como a tristeza, depois que o trem passa, e a incerteza da dúvida se a angústia cessará. É choro no embarque entre promessas e a incerteza de quando a saudade gritará.
(Do livro Abstratos poéticos)
116
Olhar
Olhei demoradamente para a foto da família.
Rostos lindos, que meu coração vê.
Dedicatória de algum ano em que o sol se punha, rindo.
De lá para cá, eu a perdi, juventude!
Agora, só a tenho retratada.
Mas eu ainda a encontro na memória...
Ficou longe a cor da infância!
Silêncio é o que prende a garganta.
Fecho os olhos.
Saudade!
(Do livro Abstratos poéticos)
122
Cara e coragem
Cara e coragem, eternas bagagens desta viagem rumo ao fim.
Viver é partir sem apetrechos nem preconceitos, levando a vontade de ir, passo a passo, construindo a história preenchendo lacunas, de lembranças na memória.