Lista de Poemas

Nada

Há promessas
de eternidade,
mas...

- Nada resiste -
(Há falácias em tudo),
nem o corpo,
nem a alma,
nem a mente resiste.

Ante o corpo nu,
o desejo aflora
e vai embora.

Tudo 
(À força da marreta)
sucumbe,
desanda,
desmonta.

Ao demolir-se,
ou se perde,
ou  renasce,
em cinzas,
sobre as águas salgadas. 

(Do livro Abstratos poéticos)
79

Imagens fugazes

Primeiro, a boca,
a fala, o encanto...

Depois, o beijo.

E depois,
bem depois:

 - Os olhos:
espelhos frios,
fixos e sombrios.

Imagens fugazes,
detalhes sutis,
um olhar...
feliz.

Como
réstia de sol
e cheiro de flor.

Longe e visível,
léguas de um girassol
e o sol a acariciá-lo,
 - suavemente!

Na memória, 
voltam versos,
que o vento levou.

Era intenso o brilho,
mas a vida apagou.

Da boca do beijo
veio o silêncio
que...

Para sempre se calou.
(Do livro Abstratos poéticos)
111

Delírio

O píer fica imóvel,
enquanto o navio se afasta. 
Vou ficando cada vez mais sozinho,
 - Eu e o livro -
que agora, há pouco,
lia, ouvindo o barulho das ondas.

À noitinha, a neblina virá,
como sempre vem,
e mudará meus pensamentos.

Lembrar-me-ei das nuvens brancas
que abrirão o dia, amanhã,
e terei vontade de escrever 
um verso nelas.

Mas o giz não alcança
e, se alcançasse, seria da mesma cor:
- ninguém leria.

Ideias são, por vezes, delirantes.
Eu morro, como morre a sombra ao anoitecer.
- É o destino –

Depois,
desapareço na imensidão das águas,
cavalgando ondas da imaginação.

(Do livro Abstratos poéticos)
88

Estranho meu

Sou ativista do inativo
porque vibro com meus sonhos não vividos.
Emociono-me com o que não tenho sentido.
Lembro-me do que sempre foi esquecido.

Sou o belo que não se viu.
Juventude que do nada envelheceu,
vida de quem nunca viveu,
morte de quem sequer nasceu.

Não me conheço.

Sou o estranho meu,
fé e crença de ateu.

Prazer em não me conhecer!

- É só o que posso dizer.
(Do livro Abstratos poéticos)
133

Fragrância

O poema fez brotar
lindas flores,  
em essências especiais.

cada verso, uma fragrância.
Cada estrofe, um acorde
com notas olfativas
e concentradas.

Um poema  meigo
e perfumado
para ser sentido, 
para ser abrigado.

E, pela alma,
acalentado.

(Do livro Abstratos poéticos)
72

Às vezes

Às vezes,
nada digo.

Aposso-me de alguma solidão
para acompanhar a minha.

Perco-me 
em labirintos.

Sinto.

Gosto de absinto.

E espalho versos,
pintados de ilusão.

(Do livro Abstratos poéticos)
95

Pranto oculto

Por suas estrelas,
a noite é linda,
e a escuridão que
não se vê
é pranto oculto,
latejante,
vulto
que dói profundo.

Escala o mundo
… em vão.

É a estrela mais distante,
entalada na memória
e no semblante.

É como verso acabado
de amor sem amantes.

E a que brilha
é como a velha música
em notas da trilha,
algo grande que antes havia
e não há mais.

Por todas elas 
a noite…
 
Às vezes escura,
às vezes bela.

É como a vida:
 - Eterna espera.

(Do livro Abstratos poéticos)
58

Química

A química é que faz
o vaga-lume brilhar
e a noite destaca a luz
no horizonte de trevas.

Vaga o luzente 
inocente  em seu voo,
num lume poético,
luzindo no infinito.

Iluminado, o mundo 
é bem mais bonito.

Luz é poesia.  


(Do livro Abstratos poéticos)
96

A música

Entra na alma
e deixa a mente em rebuliço.
Estressa e acalma,
decepciona e encanta.

Viver é tanto
e tão pouco!

É só uma canção,
mas arrasta o mar,
mareja os olhos
e provoca lembranças.

Saudosas danças
puxa lágrimas,
estende a mão
e já não alcança.

Há o horizonte
para ser refeito.

Tantas montanhas,
dunas,
montes...

Já nada preenche,
não refaz.
Eram tantas,
mas tornaram-se jamais.

É só uma canção
com falsetes,
versos líricos
e amores em vão,
que se vão
como dançar num pélago...

É solidão
e passa.
Escurece
e perde a graça.

É só uma canção
que já não se canta. 

(Do livro Abstratos poéticos)
67

Notas

Canções intensas sem notas,
versos sem métrica,
amor sem medida.

Nem todas as belezas 
as mãos alcançam.

- Há flores mortas –

E há também 
obstáculos imperceptíveis.

Quando o amor toca a alma
nem o silêncio 
(dos passarinhos)
cessa o voo.

Ele é música,
é poesia,
desconhece fronteiras,
alimenta o espírito
e aniquila barreiras.

(Do livro Abstratos poéticos)
74

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Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais.
Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais.
Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras.
Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)