Novos amanhãs
Nas ruas, a população move-se mascarada, atônita. Uma pontinha de vida chora ... Lágrimas mundiais unem nações. Espalha-se a fome e a dor tudo fecha. Mas há o sol, acompanhando o mar e projetando novos amanhãs... Há raios de fé e ondas de esperança, dizendo que ainda devemos sonhar. (Do livro Abstratos poéticos)
Desequilíbrio
O primeiro dia foi de miséria, os demais também. Não fosse a carne do porco, a fome seria total. E, depois, um tiro certeiro quebrou a asa de uma ave. (Uma das asas ainda batia) Desiquilibrada, caiu. Com apetite voraz, segurou-a pelo bico, enquanto abria o pescoço. O ar encheu-se de sangue. Barriga vazia. (Abatida, consumida) Por tempos, salvou seu corpo, mas a alma, miserável, morria, dia após dia. (Do livro Abstratos poéticos)
Bis
O sonho bom, antigo e jovem, antes planejado... Despejado nos lábios: - Desejo. Sorrir – não o riso que se apaga, mas o longínquo, contundente como fruto e semente. Feliz o que vai e volta, pedindo bis. (Do livro Abstratos poéticos)
A rua
A rua ainda me acolhe em algumas caminhadas. Tantas vezes, esperançoso, a percorri! (Espiando em portas nas quais não bati). Rua da minha mocidade, das folgadas tardes de domingo, do cinema lotado e do bar-café ao lado. Há tantas outras vielas antigas, Jovens, revitalizadas, mas só tu, rua minha, estás em mim eternizada! Por ti é que aqui volto e professo minha fé na Catedral. Teu nome não digo, este segredo levo comigo, nesses passos na área central. (Do livro Abstratos poéticos)
A música
Entra na alma e deixa a mente em rebuliço. Estressa e acalma, decepciona e encanta. Viver é tanto e tão pouco! É só uma canção, mas arrasta o mar, mareja os olhos e provoca lembranças. Saudosas danças puxa lágrimas, estende a mão e já não alcança. Há o horizonte para ser refeito. Tantas montanhas, dunas, montes... Já nada preenche, não refaz. Eram tantas, mas tornaram-se jamais. É só uma canção com falsetes, versos líricos e amores em vão, que se vão como dançar num pélago... É solidão e passa. Escurece e perde a graça. É só uma canção que já não se canta. (Do livro Abstratos poéticos)
Relógios
Os relógios são severos e, as sombras, escassas. Diálogos sumiram, amordaçados pela tecnologia. Vivendo em si, angustiado, o homem se tornou isolado. Distraído, distante. com lobos na alma. (Do livro Abstratos poéticos)
Passagem
Seja via só de passagem. Não plante futuros entre as pedras, nem abane adeuses em cais, em momentos sombrios. Melhor ouvirmos o vento declamar redemoinho-de-poesias que enchem de alegrias, mesmo que fúteis e vazias. Sem medo de decepções, mantendo o sonho bem vivo e a felicidade em nossas mãos. (Do livro Abstratos poéticos)
Nada
Há promessas de eternidade, mas... - Nada resiste - (Há falácias em tudo), nem o corpo, nem a alma, nem a mente resiste. Ante o corpo nu, o desejo aflora e vai embora. Tudo (À força da marreta) sucumbe, desanda, desmonta. Ao demolir-se, ou se perde, ou renasce, em cinzas, sobre as águas salgadas. (Do livro Abstratos poéticos)
De manhã
Ondas escondem as cordas musicais da sinfonia submarina Na superfície, o silêncio é melódico, amanhecido, só à beira mar. E o verão acena em despedida. (Do livro Abstratos poéticos)
Estranho meu
Sou ativista do inativo porque vibro com meus sonhos não vividos. Emociono-me com o que não tenho sentido. Lembro-me do que sempre foi esquecido. Sou o belo que não se viu. Juventude que do nada envelheceu, vida de quem nunca viveu, morte de quem sequer nasceu. Não me conheço. Sou o estranho meu, fé e crença de ateu. Prazer em não me conhecer! - É só o que posso dizer. (Do livro Abstratos poéticos)