E para formar o rio O sereno se consumiu Em suas margens fez brotam árvores poéticas Impregnando cheiro de poesia no ar Que acorda, desperta e aguça, em nós, o poeta.
E o sabor da poesia É saudável Palatável Colorido Incomparável.
Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais. Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais. Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras. Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)
Seguro as rédeas da vida na penumbra natural do anoitecer.
Amanheci faz tanto tempo…!
Léguas percorridas marcaram o caminho.
inúteis mares navegados, agora percebo: - Nem toda onda é mar.
(Do livro Abstratos poéticos)
66
Imagens fugazes
Primeiro, a boca, a fala, o encanto...
Depois, o beijo.
E depois, bem depois:
- Os olhos: espelhos frios, fixos e sombrios.
Imagens fugazes, detalhes sutis, um olhar... feliz.
Como réstia de sol e cheiro de flor.
Longe e visível, léguas de um girassol e o sol a acariciá-lo, - suavemente!
Na memória, voltam versos, que o vento levou.
Era intenso o brilho, mas a vida apagou.
Da boca do beijo veio o silêncio que...
Para sempre se calou. (Do livro Abstratos poéticos)
120
Passagem
Seja via só de passagem. Não plante futuros entre as pedras, nem abane adeuses em cais, em momentos sombrios.
Melhor ouvirmos o vento declamar redemoinho-de-poesias que enchem de alegrias, mesmo que fúteis e vazias.
Sem medo de decepções, mantendo o sonho bem vivo e a felicidade em nossas mãos.
(Do livro Abstratos poéticos)
89
Paz e poesia
Não dá para ver a poesia como estática, pacífica e calada. Ela tem que derramar, tem que escorrer, tem que ter versos que se entortem para passar entre pedras, em fendas minúsculas.
Tem que ter a rebeldia objetiva de quem luta, de quem protesta e sai à rua.
Poesia tem que ser expelida pela pele, em gotas suadas de inspiração, tem que causar reações calorosas na mente.
Tem que limpar o corpo e a alma e ,ainda assim, ser combativa. Tem que nascer tomada de insatisfação.
Não será pacificadora se vier em paz.
(Do livro Abstratos poéticos)
113
Dobradiças
A porta está fechada há muito tempo. As dobradiças rangem, longamente.
Chove não tão forte, mas os pés parecem afogados.
Um ventinho anuncia pausa. Pingo isolado faz a poça tremer.
Lá dentro está seco.
O tempo deve ter agido, mas criou mau cheiro no ambiente.
Marcas de total ausência.
O que foi sonho, foi-se.
Foice.
As marcas estão em tudo.
Era lindo!
Findou-se e a criação não encanta, não é mais arte.
Voltar ao trem é inevitável: - balança, balança, balança e segue seu caminho, seu fluxo.
As estações se sucedem. Sigamos. A vida assim pede.
Ainda chove, não há enganos. Tudo está vivo, só não se expressa.
Tempo impiedoso, indigesto, implacável. Nada desfaz, apenas afasta, lacra e esconde a chave.
O olhar em pântanos não brilha cintilante.
Nada voltará a ser como antes.
Cegará em instantes.
(Do livro Abstratos poéticos)
124
Sobre mim
Pingos de chuva, guarda-chuvas.
Réstias de sol, guarda-sóis.
Rosas dos ventos, pétalas se abrindo de um girassol.
(Do livro Abstratos poéticos)
91
Emudeci
A palavra bateu no rosto e desmanchou o branco.
Emudeci.
Corei no silêncio, ante o abismo.
O oxigênio distante ignorou o meu sufoco.
Inventei vidas minhas. Adivinhei pensamentos, em ares abstratos:
- Sobrevivi. (Do livro Abstratos poéticos)
111
Outra estação
É preciso começar pelo começo – dirão. - Mas, onde é o começo?
Pela mente é a razão.
Pelo coração é a emoção.
E, se tudo o que começa, tem fim, não há pressa em começar.
Não, não começaria ainda - talvez, um dia - em plena primavera, para começar pela flor.
Ou começaria em uma outra estação pela raiz.
Não gosto de finais.
Não começarei agora - não começarei - Jamais. (Do livro Abstratos poéticos)
47
E partem
A senhora consciência noturna se torna longa no horizonte reflexivo.
Monossílabos sussurrados de outra boca, instintivamente, convence as estrelas
A noite segue fria, lenta e muda. (Do livro Abstratos poéticos)
101
Infusão
O perfume exala, inspirando o rimador.
Quente é a poesia.
Seu rosto é retrato de vapor abstrato, desenhado no espelho.
O verso cafeinado ascende os sonhos dá asas aos pensamentos enobrece a criação e a ternura poética