Lista de Poemas

Flores

Abrem-se flores
e sucumbem rápido
os dias setembrinos.

Mas ainda se pode
dormir entre pétalas
uma saudável sesta,
no mar primaveril.

Borboletas se perfumam
inocentes e incautas
no sol florido.

Ao longe, um ruído:
 - Outubro se aproxima.

Lá no alto, uma folha
balança
- bem acima-

dóceis dias.
(Do livro Abstratos poéticos)
94

Rédeas

Seguro
as rédeas da vida
na penumbra
natural do anoitecer.

Amanheci faz tanto tempo…!

Léguas percorridas
marcaram o caminho.

inúteis mares navegados,
agora percebo:
- Nem toda onda é mar.

(Do livro Abstratos poéticos)
55

Palavras

Se apontas em palavras,
já é má língua.
Se boa fosse, 
silenciaria.

Se buscas a transparência,
coloca o coração na mão
e fita-o com olhos céticos.

Verás absurdos ecléticos
em sujeitos na primeira pessoa.

Abras-te.
Há outros.
Inclua-as
nas orações que entoas.
(Do livro Abstratos poéticos)
82

A vida passou

A  infância passou.
Ficaram, no tempo, as vivências 
de palavras suaves,
que preenchiam carências.

Há a dor latente 
(morte natural),
último toque dos ‘eus’.

O tempo que traz
também leva.
 
A despedida não foge.

Numa estação qualquer,
alguém parte.

É o inevitável
adeus.
(Do livro Abstratos poéticos)
94

De manhã

Ondas escondem
as cordas musicais
da sinfonia submarina

Na superfície,
o silêncio é melódico,
amanhecido,
só à beira mar.

E o verão acena 
em despedida.
(Do livro Abstratos poéticos)
85

Fim do dia

O sol se pôs,
neste dia interminável,
de ruas infindáveis
e pessoas apressadas...

Escureceu.

Estrelas, lua e a
calmaria...

Me verei
no sono cansado
após
mais um dia superado.

(Do livro Abstratos poéticos)
82

Epílogo

A noite despertará monstros adormecidos.
O implacável ruído das carpideiras velará sonhos,
acordará morcegos para o banquete de sangue.
O escuro azul do véu que cobrirá a alma
esconderá as marcas do sofrimento.

O dia ameaçará adentrar as janelas,
cálido em amarelos claros,
com a força que desbota as aquarelas,
fazendo sombras e, refletindo nelas,
o tormento do sino sem badalos.

Abrir-se-ão moradas sepulcrais
em meio a furdunço desautorizado e silvestre,
da forma que fizeram os plantonistas de janela,
na vigência ilibada de vida tida como discreta:
- Licença concedida pelos céus ao dito salafrário.

Não. Sem bajulações de arautos,
nem piedade de falastrões.

Bastará que conste nos autos
que, pela vida, abominou as falações.

(Do livro Abstratos poéticos)
100

Outra estação

É preciso começar
pelo começo – dirão.
 - Mas, onde é o começo?

Pela mente 
é a razão.

Pelo coração
é a emoção.

E, se tudo o que começa,
tem fim,
não há pressa em começar.

Não, não começaria ainda
- talvez, um dia -
em plena primavera,
para começar pela flor.

Ou  começaria em uma outra estação
pela raiz.

Não gosto de finais.

Não começarei agora
- não começarei -
Jamais.
(Do livro Abstratos poéticos)
35

Relógios

Os relógios são severos
e, as sombras, escassas.

Diálogos sumiram,
amordaçados pela tecnologia.

Vivendo em si,
angustiado,
o homem se tornou isolado.

Distraído, distante.
com lobos
na alma.
(Do livro Abstratos poéticos)
80

No chão

A lua, até que enfim,
(- Quem diria!)
vai pousar no meu jardim,
deslizando 
em meu rosto
e abraçando meu
corpo.

Tão docemente
e amável!

Nenhuma outra intenção,
(lua que venero
e que me enche de paixão),
deitada comigo,
aqui no chão.

(Do livro Abstratos poéticos)
35

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Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais.
Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais.
Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras.
Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)