E para formar o rio O sereno se consumiu Em suas margens fez brotam árvores poéticas Impregnando cheiro de poesia no ar Que acorda, desperta e aguça, em nós, o poeta.
E o sabor da poesia É saudável Palatável Colorido Incomparável.
Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais. Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais. Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras. Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)
Abrem-se flores e sucumbem rápido os dias setembrinos.
Mas ainda se pode dormir entre pétalas uma saudável sesta, no mar primaveril.
Borboletas se perfumam inocentes e incautas no sol florido.
Ao longe, um ruído: - Outubro se aproxima.
Lá no alto, uma folha balança - bem acima-
dóceis dias. (Do livro Abstratos poéticos)
109
Dobradiças
A porta está fechada há muito tempo. As dobradiças rangem, longamente.
Chove não tão forte, mas os pés parecem afogados.
Um ventinho anuncia pausa. Pingo isolado faz a poça tremer.
Lá dentro está seco.
O tempo deve ter agido, mas criou mau cheiro no ambiente.
Marcas de total ausência.
O que foi sonho, foi-se.
Foice.
As marcas estão em tudo.
Era lindo!
Findou-se e a criação não encanta, não é mais arte.
Voltar ao trem é inevitável: - balança, balança, balança e segue seu caminho, seu fluxo.
As estações se sucedem. Sigamos. A vida assim pede.
Ainda chove, não há enganos. Tudo está vivo, só não se expressa.
Tempo impiedoso, indigesto, implacável. Nada desfaz, apenas afasta, lacra e esconde a chave.
O olhar em pântanos não brilha cintilante.
Nada voltará a ser como antes.
Cegará em instantes.
(Do livro Abstratos poéticos)
130
E partem
A senhora consciência noturna se torna longa no horizonte reflexivo.
Monossílabos sussurrados de outra boca, instintivamente, convence as estrelas
A noite segue fria, lenta e muda. (Do livro Abstratos poéticos)
107
Pranto oculto
Por suas estrelas, a noite é linda, e a escuridão que não se vê é pranto oculto, latejante, vulto que dói profundo.
Escala o mundo … em vão.
É a estrela mais distante, entalada na memória e no semblante.
É como verso acabado de amor sem amantes.
E a que brilha é como a velha música em notas da trilha, algo grande que antes havia e não há mais.
Por todas elas a noite…
Às vezes escura, às vezes bela.
É como a vida: - Eterna espera.
(Do livro Abstratos poéticos)
72
Rédeas
Seguro as rédeas da vida na penumbra natural do anoitecer.
Amanheci faz tanto tempo…!
Léguas percorridas marcaram o caminho.
inúteis mares navegados, agora percebo: - Nem toda onda é mar.
(Do livro Abstratos poéticos)
70
Sentença
Sentenciei a noite, apaguei as estrelas, escureci a lua e proibi lembranças.
O mundo virou trevas.
Dizer é mais forte, sentir é menos, muito menos.
Dizer enfurece alheios, desperta dormidos e azeda.
Sentir é solitário.
Silêncio não dá eco e assim, calado, quase dormente, meu eu me invade, docemente adormeço
- Há tanta suavidade em não ser!
(Do livro Abstratos poéticos)
126
Liberdade
Só sonha liberdade quem preso está e brada por socorro na incerteza das caminhadas.
Os versos pulsam, sacodem, dançam e explodem de alegria.
Comemoram, aplaudem, elogiam, criticam.
Lamentam, afugentam angústias e se calam.
Falam, escutam, declamam, rimam.
Versos têm alma.
Verso é vida!
(Do livro Abstratos poéticos)
81
Sobre mim
Pingos de chuva, guarda-chuvas.
Réstias de sol, guarda-sóis.
Rosas dos ventos, pétalas se abrindo de um girassol.
(Do livro Abstratos poéticos)
93
Delírio
O píer fica imóvel, enquanto o navio se afasta. Vou ficando cada vez mais sozinho, - Eu e o livro - que agora, há pouco, lia, ouvindo o barulho das ondas.
À noitinha, a neblina virá, como sempre vem, e mudará meus pensamentos.
Lembrar-me-ei das nuvens brancas que abrirão o dia, amanhã, e terei vontade de escrever um verso nelas.
Mas o giz não alcança e, se alcançasse, seria da mesma cor: - ninguém leria.
Ideias são, por vezes, delirantes. Eu morro, como morre a sombra ao anoitecer. - É o destino –
Depois, desapareço na imensidão das águas, cavalgando ondas da imaginação.
(Do livro Abstratos poéticos)
103
Chuva
Chuva, dirão: - Coisa boa!
Pancadas de verão de um dia à toa.
Dia de não morrer.
Seria triste morrer num dia chuvoso? (Do livro Abstratos poéticos)