Cara e coragem
Cara e coragem,
eternas bagagens
desta viagem
rumo ao fim.
Viver é partir
sem apetrechos
nem preconceitos,
levando a vontade
de ir, passo a passo,
construindo a história
preenchendo lacunas,
de lembranças na memória.
(Do livro Abstratos poéticos)
Temporal
O horizonte escureceu,
o vento rapidamente se levantou,
o sol partiu fugitivo.
A abelha abandou a flor.
Quase em desespero,
o pássaro iniciou
um voo longínquo.
E o vento
parece começar a despir tudo.
O tempo…
O temporal
tem força
e nunca é igual.
Tão bruto,
descomunal,
arranca placas,
espalha latas,
arremessa papéis.
Galopa medos,
anseios,
olhos cheios.
E, quando passa,
ainda fica para trás.
(Do livro Abstratos poéticos)
Paz e poesia
Não dá para ver a poesia como estática,
pacífica e calada.
Ela tem que derramar, tem que escorrer,
tem que ter versos que se entortem
para passar entre pedras, em fendas minúsculas.
Tem que ter a rebeldia objetiva de quem luta,
de quem protesta e sai à rua.
Poesia tem que ser expelida pela pele, em gotas suadas de inspiração,
tem que causar reações calorosas na mente.
Tem que limpar o corpo e a alma
e ,ainda assim, ser combativa.
Tem que nascer tomada de insatisfação.
Não será pacificadora se vier em paz.
(Do livro Abstratos poéticos)
Camafeu
Nozes se abrem
(prensadas),
como olhos sonâmbulos
em altas madrugadas.
Morder os olhos,
sentir o sabor,
e degustar lentamente
semente por semente.
Depois o vento
volta e
sacode a Nogueira.
Outros olhos
brancos:
inefável Camafeu.
(Do livro Abstratos poéticos)
Vontades
De onde virão essas vontades,
que, vez ou outra, nos invadem,
misteriosamente?
- Nesses instantes, o mundo muda.
Esses milagres,
(Meu Deus!)
nos fazem sensíveis
e frágeis.
Até o egoísmo voltar,
a insensibilidade voltar
e tudo virar realidade.
Voltamos a ser tudo,
menos gente.
(Do livro Abstratos poéticos)
Lua
A lua se deita
na minha cama feita
e some, antes que amanheça.
Procuro-a na pureza dos bosques,
em réstias de luzes
e em folhas e selvas.
Avisto alguns bichos,
beirando as águas correntes,
em sonhos que a mata esconde.
Fixo o olhar sobre o rio
e a vejo ao fundo
toda nua,
toda lua.
(Do livro Abstratos poéticos)
Asas
As palavras vinham com asas.
Eu as ouvia, mas passavam.
Meu tempo de sorrir diminuiu
e elas começaram a retornar
sábias, precisas e experientes.
Nas pedras da caminhada
as ouço tão atuais,
definitivas e confortantes!
É de ti que me lembro,
quando os contos de terror
tornam-se reais:
- Pai.
Deus dos meus anseios,
meu anjo eterno!
(Do livro Abstratos poéticos)
Olhar
Olhei demoradamente
para a foto da família.
Rostos lindos,
que meu coração vê.
Dedicatória
de algum ano
em que o sol se punha, rindo.
De lá para cá, eu a perdi,
juventude!
Agora, só a tenho retratada.
Mas eu ainda a encontro na memória...
Ficou longe
a cor da infância!
Silêncio é o que prende
a garganta.
Fecho os olhos.
Saudade!
(Do livro Abstratos poéticos)
Ficou
Restou um rastro de poesia
em folhas rabiscadas.
Um rascunho de poema,
uma caneta trincada
e um caderno envelhecido
com marcas de café.
Tocos abundantes
num cinzeiro enferrujado.
Ficou a vida sem óculos:
- O poeta foi cegado.
(Do livro Abstratos poéticos)
Metades
O poeta e o poema
são confidentes.
Cada um sabe
o que o outro sente.
Estando próximos
ou ausentes.
São discretos.
Comunicam-se,
sabiamente.
Elo poético lindo de ver:
- Os dois sabem como ser
e se entenderem.
(Do livro Abstratos poéticos)