Liberdade
Só sonha liberdade quem preso está e brada por socorro na incerteza das caminhadas. Os versos pulsam, sacodem, dançam e explodem de alegria. Comemoram, aplaudem, elogiam, criticam. Lamentam, afugentam angústias e se calam. Falam, escutam, declamam, rimam. Versos têm alma. Verso é vida! (Do livro Abstratos poéticos)
Plurais
O tempo nublou e a chuva virá ao anoitecer. Falta humanidade e botes Salva-vidas. Discursos plurais, razões singulares. Pobre gente! Em mãos que metem a mão o poder apodrece. E o mal floresce. (Do livro Abstratos poéticos)
Às vezes
Às vezes, nada digo. Aposso-me de alguma solidão para acompanhar a minha. Perco-me em labirintos. Sinto. Gosto de absinto. E espalho versos, pintados de ilusão. (Do livro Abstratos poéticos)
Ficou
Restou um rastro de poesia em folhas rabiscadas. Um rascunho de poema, uma caneta trincada e um caderno envelhecido com marcas de café. Tocos abundantes num cinzeiro enferrujado. Ficou a vida sem óculos: - O poeta foi cegado. (Do livro Abstratos poéticos)
Asas
As palavras vinham com asas. Eu as ouvia, mas passavam. Meu tempo de sorrir diminuiu e elas começaram a retornar sábias, precisas e experientes. Nas pedras da caminhada as ouço tão atuais, definitivas e confortantes! É de ti que me lembro, quando os contos de terror tornam-se reais: - Pai. Deus dos meus anseios, meu anjo eterno! (Do livro Abstratos poéticos)
Fragrância
O poema fez brotar lindas flores, em essências especiais. cada verso, uma fragrância. Cada estrofe, um acorde com notas olfativas e concentradas. Um poema meigo e perfumado para ser sentido, para ser abrigado. E, pela alma, acalentado. (Do livro Abstratos poéticos)
Notas
Canções intensas sem notas, versos sem métrica, amor sem medida. Nem todas as belezas as mãos alcançam. - Há flores mortas – E há também obstáculos imperceptíveis. Quando o amor toca a alma nem o silêncio (dos passarinhos) cessa o voo. Ele é música, é poesia, desconhece fronteiras, alimenta o espírito e aniquila barreiras. (Do livro Abstratos poéticos)
Pranto oculto
Por suas estrelas, a noite é linda, e a escuridão que não se vê é pranto oculto, latejante, vulto que dói profundo. Escala o mundo … em vão. É a estrela mais distante, entalada na memória e no semblante. É como verso acabado de amor sem amantes. E a que brilha é como a velha música em notas da trilha, algo grande que antes havia e não há mais. Por todas elas a noite… Às vezes escura, às vezes bela. É como a vida: - Eterna espera. (Do livro Abstratos poéticos)
Camafeu
Nozes se abrem (prensadas), como olhos sonâmbulos em altas madrugadas. Morder os olhos, sentir o sabor, e degustar lentamente semente por semente. Depois o vento volta e sacode a Nogueira. Outros olhos brancos: inefável Camafeu. (Do livro Abstratos poéticos)
Flores
Abrem-se flores e sucumbem rápido os dias setembrinos. Mas ainda se pode dormir entre pétalas uma saudável sesta, no mar primaveril. Borboletas se perfumam inocentes e incautas no sol florido. Ao longe, um ruído: - Outubro se aproxima. Lá no alto, uma folha balança - bem acima- dóceis dias. (Do livro Abstratos poéticos)