Lista de Poemas

Emudeci

A palavra bateu no rosto
e desmanchou o branco.

Emudeci.

Corei no silêncio, 
ante o abismo.

O oxigênio distante
ignorou o meu sufoco.

Inventei vidas 
minhas.
Adivinhei pensamentos,
em ares abstratos:

- Sobrevivi. 
(Do livro Abstratos poéticos)
104

Liberdade

Só sonha liberdade
quem preso está
e brada por socorro
na incerteza das caminhadas.

Os versos pulsam,
sacodem, dançam
e explodem de alegria.

Comemoram, aplaudem,
elogiam, criticam.

Lamentam,
afugentam angústias
 e se calam. 

Falam, escutam,
declamam, rimam.

Versos têm alma.

Verso é vida!

(Do livro Abstratos poéticos)
68

E partem

A senhora consciência noturna
se torna longa
no horizonte reflexivo.

Monossílabos sussurrados
de outra boca,
instintivamente,
convence as estrelas

A noite segue fria,
lenta 
e muda.
(Do livro Abstratos poéticos)
91

Verdade

Somos tão grandes quanto a verdade,
na mesma proporção, 
em que somos tão pequenos.

A verdade é a chata da razão.

Viver é emoção.

sonhos é que fazem acontecer.

O resto é brutalidade.

O emotivo vive, sente e sonha.
O racional calcula o que não vive.

Velhos conflitos humanos:
- Eu sonho
e a verdade sonha comigo.

(Do livro Abstratos poéticos)
104

É assim

Pouco adianta a mim
conhecer teus anseios.

Afinal, o mundo é cheio de perigos
e ameaças.

Por isso, sonhe o possível.

Há presunção de culpa deliberada
contra a liberdade.
E somos só mais um,
diante do fuzil municiado.

Basta um disparo, 
nem tão raro,
nem tão caro.
(Do livro Abstratos poéticos)
71

Dobradiças

A porta está fechada
há muito tempo.
As dobradiças rangem,
longamente.

Chove não tão forte, 
mas os pés parecem afogados.

Um ventinho anuncia pausa.
Pingo isolado faz a poça tremer.

Lá dentro está seco.

O tempo deve ter agido,
mas criou mau cheiro no ambiente.

Marcas de total ausência.

O que foi sonho, 
foi-se.

Foice.

As marcas estão em tudo.

Era lindo!

Findou-se
e a criação não encanta, 
não é mais arte.

Voltar ao trem é inevitável:
- balança, balança, balança
e segue seu caminho, seu fluxo.

As estações se sucedem.
Sigamos.
A vida assim pede.

Ainda chove,
não há enganos.
Tudo está vivo,
só não se expressa.

Tempo
impiedoso, indigesto, implacável.
Nada desfaz, apenas afasta,
lacra e esconde a chave.

O olhar em pântanos 
não brilha cintilante.

Nada voltará a ser como antes.

Cegará em instantes.

(Do livro Abstratos poéticos)
116

Infusão

O perfume exala,
inspirando o rimador.

Quente é a poesia.

Seu rosto é retrato
de vapor abstrato,
desenhado no espelho.

O verso cafeinado
ascende os sonhos 
dá asas aos pensamentos
enobrece a criação 
e

ternura
poética

voa. 

(Do livro Abstratos poéticos)
110

Aparente

Aos olhos, as cores desbotam
sem brilho, viver não é sorrir
Se não está no olhar, onde estará?
Se a alma não voa
Viver é solidão
Se os olhos reprovam
- Pouco importa –
Quem avalia é o coração.
90

Casa da infância

Do que vivi na casa antiga
restou distância
e o tempo escondido 
em momentos infantis

Daqueles amigos
dormem no peito
saudades e peraltices

Outros sonhos,
embarques sem fronteiras
tomados de esperanças
e desejos a realizar

A vida é um caminho
Alguns decolam fácil,
criando futuros novos,
oportunidades a mais

Foi ontem que nos despedimos
Em cada rosto vi saudade,
angústias de afastamentos,
certezas de esquecimentos

Cada um levou uma alma minha
A vida vai me dando outras
Mas as almas daquela época
foram-se todas (as que eu tinha).
81

Fímbria

Há um nada que me segue
insistente, 
mesmo indolente
me flagela

Nada feito de vazios,
de carências ansiosas
- Vida morrendo de sede –
na enchente da modernidade

Vazio que nocauteia
Fímbria de maldições
Velas brancas acendem
para iluminarem-me o chão.
67

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Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais.
Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais.
Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras.
Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)