Lembranças
Lembranças tantas...!
Qual é a melhor, eu nem sei...
Algumas, certamente vivi.
Outras, creio, sonhei.
O tempo andou distraído
e me alegro ao me lembrar
- nesta ausência de memória -
de tudo o que foi vivido.
A melhor delas
nem revelo.
Não por esquecimento,
mas pelo prazer
de a guardar...
(Do livro Abstratos poéticos)
Ímpeto
Desejo abraços apertados,
sorrisos sinceros e francos,
corações em paz, confortados,
e amizades sólidas, sem solavancos.
Que a corrida não seja só pela vitória,
nem somente para constar na história.
Que coisas ruins saiam da memória,
porque todos merecem um mínimo de glória.
Que a fé não precise remover montanhas;
que medalhas não sejam só para quem ganha.
Que todos tenham o poder da barganha
e que realizemos grandes façanhas.
(Do livro Abstratos poéticos)
Maçãs
Maçãs coradas,
olhar infindo,
dizendo nada,
sorriso lindo!
Marcas do tempo
entre duas datas.
História composta,
hiatos do vento,
em sílabas separadas.
Do dito tudo
sobrou o nada!
(Do livro Abstratos poéticos)
Quietude
Onde se abriga o silêncio
que tantos guardam?
Dizem até que o silêncio fala,
que talvez se expresse
na voz do rio que corre,
no canto matinal dos passarinhos
e no vento assobiando, de mansinho.
Talvez o silêncio esteja
na música distante
ou no poema lírico engavetado.
Talvez se abrigue
nos segredos prometidos
ou no amor e seu gemidos.
Talvez até grite,
mas não é ouvido.
- Existe o silêncio
ou o mundo
está muito distante
para ouvi-lo?
(Do livro Abstratos poéticos)
Tardezinha
Entardeceu,
o relógio soou.
A matriz emite o som
e contempla a praça.
- Para que servem as horas?
Gosto de ser feliz,
tanto, que sou!
Mas o tempo...
Se não passasse
haveria adeuses?
O presente,
eu sei,
é todo meu.
O tempo…
só pode ser Deus.
(Do livro Abstratos poéticos)
Desequilíbrio
O primeiro dia foi de miséria,
os demais também.
Não fosse a carne do porco,
a fome seria total.
E, depois, um tiro certeiro
quebrou a asa de uma ave.
(Uma das asas ainda batia)
Desiquilibrada, caiu.
Com apetite voraz,
segurou-a pelo bico,
enquanto abria o pescoço.
O ar encheu-se de sangue.
Barriga vazia.
(Abatida, consumida)
Por tempos, salvou seu corpo,
mas a alma,
miserável,
morria, dia após dia.
(Do livro Abstratos poéticos)
Lembrei-me de Pietá
Trago mãos vazias
e posso até mostrá-las.
Nos meus braços,
nada há.
A dor de Maria
me faz sentir
que sou total desalinho,
tropeçando nas pedras
do caminho.
Não há pontes unindo
meu sul ao meu norte.
E o vento melancólico
sopra, excessivamente forte.
- A alma balança.
Onde estará o ponto sagrado
da harmonia humana
para o mundo ser ancorado?
(Do livro Abstratos poéticos)
Folhas
Quando uma porta se fecha,
sinto a tristeza da alma vazia.
Imagino a dor na cravada da flecha,
que vem da solidão e dos amargurados dias.
É como um grito que ninguém ouve,
como um silêncio que nos torna insanos.
Sei que há lagartas cortando folhas
e raivosas tesouras abrindo o pano.
É como a tristeza, depois que o trem passa,
e a incerteza da dúvida se a angústia cessará.
É choro no embarque entre promessas
e a incerteza de quando a saudade gritará.
(Do livro Abstratos poéticos)
Em mim sou
Sou quando digo,
mas, quando dizes não,
sou mais.
Só minha voz me fala;
O que vem de outra boca
não me desperta.
Eu vivo em mim
e em mim sou.
Os que são por aí
nunca serão meus.
E quando eu sair,
sairei solitário,
sem nenhum aceno,
nenhuma despedida.
Silenciosamente invisível.
(Do livro Abstratos poéticos)
Plurais
O tempo nublou
e a chuva virá
ao anoitecer.
Falta humanidade
e botes Salva-vidas.
Discursos plurais,
razões singulares.
Pobre gente!
Em mãos que metem a mão
o poder apodrece.
E o mal floresce.
(Do livro Abstratos poéticos)