I-XCII Jaezes de vida e morte
Os perigos da ambição vêm sem que a arte cale,
como se o valor deste mundo fosse a realização das vontades.
Minha casa vazia ecoa mais histórias que Lemúria afundou,
fazendo-me eterno fantasma sem trégua no amor.
Vivo amado, cuidado, como filho e como marido,
por meu Pai, pela família e amigos,
por desconhecidos, vivos ou escondidos.
Digo todos os dias sobre meu amor,
escondendo o anseio, sequela da dor.
Privilegiado recebo em dobro, e mais durmo
com um olho. E sem que eu perca alguma coisa,
já sinto-me sozinho sobre os ombros de meu Pai,
sob o destino resguardado e garantido,
e enlouqueço sem que algo faça sentido.
E diante de centenas de palavras, finjo não ouvir respostas,
forçando um instinto de prever o que não conta.
Assim vivo exausto na ciência,
rodeado de quem, prega a mim, carência.
São sacrifícios que eu quis, mas finjo ser indícios de um fim.
São consequências das vontades que, de longe, mais
me causam alacridade.
Que Deus tire de mim, até esta última palavra,
o anseio de criar conclusões precipitadas.
I-XCVII Jaezes de vida e morte
Quando acordei, notei perder os dias nesta noite única.
Sinto ter passado meus anos de juventude e, agora exausto,
o sono chega ainda tardio e impotente,
largando-me nos sonhos do que foi meu presente.
Roderico sonha ver-me nas nuvens suspensas,
imagine tua expressão ao ver-me nas trevas imensas.
Embora a noite nos para, podemos ainda tentar,
encontrar a vida nas palavras, a única forma de nos alcançar.
E se um dia vir eu a amadurecer, libertarei minha alma de Veneza.
Por enquanto, sou tolo, preso às artimanhas de Iago,
gasto a vida pelo fado de Cassio, um triste afago.
I-LXXXI Jaezes de vida e morte
Resta-me uma janela para assistir toda a rua.
Ouvi rumores dos sicários que estão livres sem tortura,
mas não os vi, não senti, acredito que esqueci;
não que deixei o medo das coisas mundanas,
é só o cansaço, que me põe à espera do destino de pijama.
É a primeira vez que, o que digo,
soa como algo que tenho vivido.
Alguns vão da água ao vinho,
mas carregam a dificuldade
de reconhecer um passado maligno.
Os céus perdoam seus filhos,
mas os pequenos ainda choram pelos monstros que,
há muito, os têm perseguido.
É por isso que me contradigo, culpo-me pela falta de senso,
mas vejo-me encosto dos livres arrependimentos.
I-LXXXV Jaezes de vida e morte
Carregado independente do desejo,
mais aprendo sem nenhum apreço.
Temos vivido diferente,
sem que nada deixe de terminar fatidicamente.
Nossos pais perderam a cabeça ao longo dos anos,
nos tratam como exceções de rivais assombrando o cotidiano,
que rebatem o mundo independente de tudo,
fazendo do intelecto ainda mais oculto.
Nada acontece desde que me parei no tempo,
salvo as ordens que me gritam a todo momento:
Reviva a vida sem agonia,
perceba-se no caos em harmonia.
I-LXXXVI Jaezes de vida e morte
À direita, em um sonho, avistei-me como um conto.
Convenciam-me da mentira, dando-me a chance da reconquista.
Vi-me buscar as paixões levadas, fiz uso de feitiços e sensatas palavras.
A busca do fim nunca foi assim, foi sempre o oposto do sonho:
Emergindo das fraquezas, sequelas dos traumas,
lembrando-me das ideias que perdi nesta alma.
Cumprindo vidas, largando sonhos,
fascinado pela inquisição dos assombros,
quase vi-me junto aos mortos.
Era cinza e era vida, eram almas corrompidas
que se deveras em mim pensassem,
eu serviria de inspiração à arte:
Felizardo os irmãos que, com os deveres
postos em mãos, mal lembram do coração,
dando à verdade uma cova, ao Deus serve de prova.
I-LXXXVIII Jaezes de vida e morte
Não é a alma ou o corpo que me traz,
o instinto me empurra
para onde não me encontro mais.
Nunca ouvi sobre o que falavam,
temo ser quem os ânimos os tiraram.
Não tive mais problemas desde a vida que tirou de mim.
Estar ou não, não me importa mais, ainda assim,
recomendo a todos uma vida como quem por baixo vê o céu,
sem paz e sem fim.
Já fiz de Cartago meu lar,
Insatisfeito, mas encantado:
já me perdi nisto uma vez,
e de novo acredito no acaso.
I-LXXXIII Jaezes de vida e morte
Amanhã nos tomará tudo, já sabemos disto.
É como meus presságios que tomam meus sentidos:
Não sairemos do inverno,
o verão se foi com os que se cumpriram.
Não é intrigante como tudo
que será dito finalizará o que foi vivido?
Lembro desta angústia desde sempre,
me convencia de esquecer você,
de tentar por mim, mas fiz-me inconsequente.
Não tem sido a justiça que me condena,
não como afunda minha alma em incertezas,
com orações atando ambas as nossas crenças.
Não foi por respeito, não foi por admiração
foi por liberdade, talvez por diversão.
Não por você, também não por mim,
mas por todas as razões erradas que,
fatidicamente, levam ao fim.
I-LXXXIX Jaezes de vida e morte
Que coisa sofrer pelo que não existe, o sinto nas palmas, vejo-me diante de suas garras,
e mal respiro pela dor que faz comigo, fingindo ser coisa do destino.
Os afagos que levei a ti, foram inúmeros, até um único que fez refletir:
Me ansiei pelo desgosto de ter que o criar com outro, apenas por mau gosto,
e agora mal sobra-me peito para o tempo que passa sem trazer cortejos.
Que mania tola de fazer da vida uma eterna caidela,
onde os bons momentos servem de peso para a dor da queda.
Aos nórdicos que criam arte apunhalando lagartos com asas,
às vidas que, por tesouros, foram colapsadas, às tristes coisas passadas:
Nunca nos sobra nada. Nem por mérito, nem por pena,
logo será a vez das memórias que perduram intensas.
Imploro por chances que estendam o fim deste romance,
por sorte durante a invasão das ruínas do norte,
que farei por paixão, pondo fim ao dragão que defende seu coração.
E às almas que me seguem caladas, que testemunhem
a tristeza que se disfarça do pouco homem que me escapa.
I-LXXXVII Jaezes de vida e morte
Dentre incontáveis dias, vivo mais um sob melancolia.
Lembrando dos privilégios que me envergonho,
meu peito rasga por medo de um sonho.
Vivo com o que tenho, sofrendo como se o perdi,
e cogito perdê-lo agora mesmo,
e finjo uma raiva que não tenho por ti.
Que inferno vivo no céu, queimo sob o que me abriga,
me desolo por mania.
Os fantasmas que me pertencem
são só fatídicas vítimas impotentes,
perdidas em caminhos rentes,
que por mim perderam a mente.
Assim vivo acompanhado por quem
me perturba por bom grado:
Na alegria me convence da tristeza,
até que na amargura me convence da loucura,
e assim por diante, até que o assuma.
Como eu poderia deixar de chorar por ti,
se desde sempre es tu que me viu dormir?
I-LXXXIV Jaezes de vida e morte
Perdi tudo que me deu o mundo,
corri para o fim a fim de dizer-lhes muito:
Pouco respeito, muito castigo,
por que fazer de mim perda
de um tempo infinito?
Se só perdoo para que me perdoe,
por fazer de mim mais do que pretendi quando nasci,
por sofrer estando na média, por chorar na morada,
e mal engolir a comida que é dada.
Falando assim, até soa ter sentido o que fazem por mim.
Até mostro perceber, sem querer, que meu maltrato é mais
por dizer do que por viver.
Queria ir-me sem ter que escrever, mas é ingratidão
que me puxa o chão. Pelo menos, por honestidade,
digo como as coisas são, temendo não ser digno
de um fim ainda com paixão.