I-LXVIII Jaezes de vida e morte
Levarão vossas almas aos porcos se aos amigos voltarem,
pois o mundo que carrega é o mesmo que pisa,
não faça por mim o que mal faz por tua vida:
Ambos viemos por péssimos motivos,
e nos afogaríamos se ao precipício resistirmos.
O fim se alastra por portas abertas
sem que mude a realidade de uma vida eterna.
Me perdi sabendo que venci,
já não vivo sem o inverno que me solidou aqui.
Doo ambas as mãos ao fogo se livrar-me do arroubo,
já não forço o ceticismo ao bom gosto dos outros.
E se já mal fascina-me dizer o privilégio que vivi,
temo resistir ao delírio de dar-me a ti.
É a sensatez que me tira a paz, pois sei que
de mim nada se faz, nem na terra, nem no céu,
nem nesta paixão que ameaça meu enfado cruel.
I-LXVI Jaezes de vida e morte
Nesta noite, ao ganhar o sono,
vi-me em sonhos que se guardam em cômodos.
Doo-me ao paraíso inabitado pelo prazer de nunca o alcançar
e me gabo ao falar: O prazer está no que encontro ao procurar.
Quebrar-me-ia em bilhões,
para ensinar a mim o prazer de sentir,
como vós sois do início ao fim.
Faria do mundo evidente e nunca compreendido,
dando ao povo do leste a chance do nada,
e ao norte, constantes dádivas.
Calaria quem fala, por ser eu quem explana mágicas,
por ser eu quem oriunda do nada e por alados se espalha,
afundando a alma de quem a evolução retarda.
Faria do meu gosto o bom gosto e do instinto um constante suplício,
tornando o fim, o único caminho a mim.
I-LXVII Jaezes de vida e morte
Outra vez chamado à vida,
diante de amigos que se tornam relíquias,
ajo feliz escrevendo aqui: Voltei para casa menos carente,
sorridente sobre caminhos que já me fizeram descontente.
Que a vida me dê mais dois ou três dias para ser esperto,
para que a noite explique melhor as verdades e o que é certo.
Não acreditaria se pudesse ver, não confiaria no que prometer,
pois já estou aqui a confessar receios inventados,
tenho o vício de fazer-me miserável.
Assim não menciono o que devia, não sinto o que vivia,
espero de coração que sejas minha última euforia.
E está tudo bem se o mundo está aquém,
pois é instintivo estar embaraçado, tudo está sempre ao acaso.
I-LXXIX Jaezes de vida e morte
Beatrice, à espera séria,
está presa à vontade de perder-se em tragédia.
E assim, vivendo os sextos dias como sétimos,
perambulamos por perdermos os critérios:
Os feitiços não funcionam desde o andamento,
é decepcionante a inevitabilidade de sumir-se no tempo.
Jamais diria grosserias a minha alma querida,
apenas por alegrar os contidos em vossas letargias.
Faria de Benedick um inconsequente,
à caminho do choque por Yorick, o benevolente.
Há de haver o dia que o humor me impressione,
que a preocupação suma, para que eu deixe meu nome.
Que a felicidade deixe de justificar o medo de tudo perder,
sem que minha maior fraqueza deixe de ser você.
Há o que relevar neste pranto, desde o soluço ao delírio insano,
há os vícios de se calar, e reescrever as verdades como mentiras,
apenas para fazer-me de quem não quero nesta vida.
I-LXV Jaezes de vida e morte
Tempo indomesticável sob céus superestimados,
que diz me ver sem que eu queira saber,
no que me esforço humilha-me por ter que crer.
Crente na igreja que se fecha por não ter o que presta,
vejo por vocês quando não há o que resta,
sob um futuro que nos leva sem trégua.
Apressados, disseram-me ir construir seus lares,
a noite está perfeita, mas temem presságios de maus olhares.
Os disse ser eu o último visto por Deus,
e que nenhum traço de desagrado ouvi sobre o que os envolveu.
Mas crianças são sempre espantadas temendo dias que se acabam,
me pergunto ser esta a razão dos cruéis castigos que as matam.
Partilharia minha mente com quem queira,
se, dado a mim, fosse um corpo que me deleita.
Não sei o que fazer, mas é instintivo querer,
é sofrer por tentar ser, e perder por simplesmente viver.
Fascinado, perco-me na época das poucas coisas que me agradam.
I-LXXIII Jaezes de vida e morte
Motivação que me faz criar-te de novo,
para que me faça sempre de princípio do todo:
Esqueci-me dos que oram por minhas escolhas,
confundo-me com os rancores que me atoam.
Parte da alma esse lado que queima em brasa,
e parte de mim o instinto de ir ao fim.
Que haja quem faça o que o desespero para,
que vida surja pelos ódios que me franzem a cara.
E a todos os fins que aguardam algo de mim,
que eu os possa sentir como feitos de honra,
uma vida para criar-me e um dia para que me vá embora.
I-LXIV Jaezes de vida e morte
Paixão infame que em círculo corre para me deixar,
procuro tal grego que venha a me presentear.
O levaria para sempre, temendo o amanhã que chega,
fazendo de mim a descoberta de quem salvação anseia.
Em um mundo que se expande e nunca cresce,
meus sonhos morrem e prevalecem.
São como as almas sem rancor, que nos
ensinam perder e viver por amor.
Assim sinto-me no fundo do discreto,
pensando em quem padece sob juízos incertos:
Se os anjos se extinguem quando a mente definha,
e se é azar a âncora à vida sofrida.
I-LXXVIII Jaezes de vida e morte
Ao mundo calado por ameaça, fiz-me revoltante e trouxe a graça:
É incerto o que perdi em meio ao caos, estou em débito com quem mantém o mal.
Lembro-me quando criança da falta de esperança de quem me erguia,
vivia por euforias e sorria diante da morte que viria.
Tamanha maturidade ou falta de senso,
a incoerência do adultério com a fé do que é certo.
Por isso e mais fiz-me inclinado ao declínio,
sucumbido à vontade de ser menos vívido,
realizando as poucas vontades que permitem o destino.
E como as marés que refazem o mar,
seria fatídico minha vontade de alguém encontrar,
apenas para ver-me sem revolta, sentir-me um homem
como outros de outrora.
Assim preso ao fado de amar, o livre arbítrio soa
como conto pueril; cheio da intriga de quem fez-me aqui,
herdado da bondade pelo simples fato de existir.
I-LXXV Jaezes de vida e morte
O abuso emocional de se expandir
frisam-me em teus olhos para o que quero sentir;
Leve-me aos lugares que abrigam minha alma amada,
à décima nona ilha onde minha mente é retalhada.
Privilegiado por ter o que perder,
anseio a vingança que trará o prazer de viver.
Que nosso Pai traga amizades fundamentadas,
para que não haja desprezo nem Mondego que me desfaça.
E à fortuna conquistada, peço que, de mim, gênio faça,
para que resgate as paixões dos pressurosos aristocratas,
e que faleçam por sua benevolência amarga.
Pastor de ovelhas e um patrício, um velho na puberdade,
e tão alto quanto as damas da cidade, sobre del Popolo
sucederá o decesso de vossas crueldades.
I-LXXI Jaezes de vida e morte
Tantas cruzes decorrem esta mente, mas nada a protege de julgar,
ainda assim se entristece, se faz por calar.
Se importa com o que querem, mas há dinheiro a se considerar,
que o natal dê-me oportunidade de me ausentar.
Há muito cobram-me provas,
estar entre o carinho que recebo e o anseio por adeus,
faz de mim incoerente com as razões que recebi de Deus.
Nada nos protege de julgar, vir por amizade ou por rancor voltar,
vivo um presente conciso atrás do futuro que irá me privilegiar.
Então faz de ti embora, pois se com outros terei que lidar,
ao menos sei que meu mal perdeu-se em seu lugar.
Que venham os próximos direto ao peito,
sem que cogitem ao meu amor causar algum sofrimento.
Amo-te vida que me trouxe cura após a ferida,
amo-te razão que faz minha vida ser vivida.