I-LXXXIII Jaezes de vida e morte
Amanhã nos tomará tudo, já sabemos disto.
É como meus presságios que tomam meus sentidos:
Não sairemos do inverno,
o verão se foi com os que se cumpriram.
Não é intrigante como tudo
que será dito finalizará o que foi vivido?
Lembro desta angústia desde sempre,
me convencia de esquecer você,
de tentar por mim, mas fiz-me inconsequente.
Não tem sido a justiça que me condena,
não como afunda minha alma em incertezas,
com orações atando ambas as nossas crenças.
Não foi por respeito, não foi por admiração
foi por liberdade, talvez por diversão.
Não por você, também não por mim,
mas por todas as razões erradas que,
fatidicamente, levam ao fim.
I-XLVIII Jaezes de vida e morte
Finalmente, livre da maçante liberdade, tens-me,
mas não me tenho com tanta facilidade.
Lembro-me sendo algo como dezoito ou vinte e oito,
vendo-te surpreso por esta vida que não mudou
diante do mundo que muitos desolou.
Qualquer horizonte é euforia
desde que és tu que cobres minha vista.
Então o poupo das sortes desta noite,
não impedirei de sofrer o que o destino reservou-te.
Poupe-se de erguer-me a mão quando contento-me no chão.
Poupe-se de comparar-me ao mal,
pois não houve segundo que não fui igual.
E quando caído, enfraquecido e entorpecido,
preserva-me do romantismo, pois tendo ao transvio.
I-LXIII Jaezes de vida e morte
Se coragem teve, aposto esta alma sobre
o que contou aos teus pais: vida e vida.
Acredito, então, que ouviste o que ouvi,
que sucumbiste pelo que me leva aqui.
Descreva-me, Pai, a sensação de quem
guarda os mesmos segredos que eu,
e de quem emerge, tão lento, que
o derrotismo perde seu eixo, e se encontra,
neste dia, livre de falsos conceitos.
Queres levar-me a estorvar as rodovias novamente.
É mais uma da mesma oportunidade de vida que,
todas as vezes que digo não, soo em vão.
Me irrito por pressupor o que anseio fazer,
me ira acreditar me conhecer.
I-LII Jaezes de vida e morte
Suplico por ter quem guie-me ao reto,
quem livre-me das tentações à direita,
quem cega-me das à esquerda.
Quem permita-me desviar do certo
quando nele já não me considero.
Procuro civilização amante da liberdade de expressão
e escrava da ignorância que nos tornam vãos.
Procuro pelas capitais que, dos que abrigam, tempo tomam,
e crescem dando à vida razões que nada consolam.
Lá há quem a natureza desvalorize e a carne ridicularize,
e esculpa, ainda assim, presentes a mim.
Ouço do alto, então, maiores insultos,
fazendo-me proporcional ao palpável mundo que oriundo.
E em nada posso julga-los sem que me lembro de meus pecados.
Maior seja a insipiência dos que de mim se afastam,
e profundo o inferno dos que, deste mundo, tanto acham.
I-LXVIII Jaezes de vida e morte
Levarão vossas almas aos porcos se aos amigos voltarem,
pois o mundo que carrega é o mesmo que pisa,
não faça por mim o que mal faz por tua vida:
Ambos viemos por péssimos motivos,
e nos afogaríamos se ao precipício resistirmos.
O fim se alastra por portas abertas
sem que mude a realidade de uma vida eterna.
Me perdi sabendo que venci,
já não vivo sem o inverno que me solidou aqui.
Doo ambas as mãos ao fogo se livrar-me do arroubo,
já não forço o ceticismo ao bom gosto dos outros.
E se já mal fascina-me dizer o privilégio que vivi,
temo resistir ao delírio de dar-me a ti.
É a sensatez que me tira a paz, pois sei que
de mim nada se faz, nem na terra, nem no céu,
nem nesta paixão que ameaça meu enfado cruel.
I-LXX Jaezes de vida e morte
Privilegiado por um amor genuíno,
me entoleço para perder-me na noite seguinte.
A insegurança é o amante que leva meu tempo,
é o que faz de mim um infiel ingênuo.
Como é bom estar sentido no meio desta noite vazia,
onde a hora aponta as mentiras que virão com o próximo dia.
Se o destino permitir-me ir, eu me prenderia aqui.
Sofro por angustia por mais de uma vida,
já mal sinto-me com qualquer energia.
Lembro-me de meu primeiro dia no porão de Fritz,
estava reluzente de perseverança, tendo fé com besteiras mundanas.
Ansioso para o dia seguinte, mantive as paixões presas ao senso,
recordando ter menos que seis dias, pois perdi-me na luz do primeiro momento.
I-LXII Jaezes de vida e morte
Corro à frente, para que me sobre tempo para me explicar:
Temo ser vista como uma mulher apaixonada,
frustrada por um fantasma ser trocada.
Temo ser vista como tola e desajeitada,
que, sob as águas, carregava mais do que sustentava.
O dinheiro limita nossos destinos,
os sinais duplicam toda vez que nos repudiam.
Tenho alucinado, mas ainda as coisas separo.
Não é difícil quando sobreviver é a loucura que nos agarra,
nos puxa, nos afunda, nos fragmenta e nos alastra.
Se vejo as estrelas, se presencio o por do sol,
sempre há algo em qualquer lugar que nos faz parar.
É loucura pensar em nos encontrar.
Talvez com dias como agosto em anos embolísticos,
filha de Fanuel e Abraão, teria minha idade escrita
ao acaso por fingir-me morta sobre o chão.
Gozaria dias por dia, noites em uma revelação,
encargos por vida, e paixões por um homem sem coração.
I-LXIV Jaezes de vida e morte
Paixão infame que em círculo corre para me deixar,
procuro tal grego que venha a me presentear.
O levaria para sempre, temendo o amanhã que chega,
fazendo de mim a descoberta de quem salvação anseia.
Em um mundo que se expande e nunca cresce,
meus sonhos morrem e prevalecem.
São como as almas sem rancor, que nos
ensinam perder e viver por amor.
Assim sinto-me no fundo do discreto,
pensando em quem padece sob juízos incertos:
Se os anjos se extinguem quando a mente definha,
e se é azar a âncora à vida sofrida.
I-LVII Jaezes de vida e morte
Nas minhas piores ideias,
atrevi dar-me mais que sete dias.
Montei o que me tire a culpa,
mas palavras têm se enferrujado na covardia.
Sobra quem peça perdão pela bagunça que
fazemos dos dias.
Lembro-me do ar escasso de Sodoma,
havia ainda tanto a ser discutido antes daquela escolha.
Mãe estava certa ao dar-me menos de uma semana,
pois já não havia onde por esperança.
O mundo sabia que eu jamais seria como ela,
eu carregava um futuro que seria enterrado depressa.
Por Deus, como foi bom viver,
um dia se desculpará por o que me fez perder.
I-LX Jaezes de vida e morte
Sós sendo um e perdidos quando par,
a esperança é pouca e não a vejo acabar.
É a ironia de quem existe e persiste,
ser leigo quando aprendo e fraco quando insisto,
é a pressa de estar diante de quem me tem repelido.
Ensino fogo aos homens para olharem sempre a quem,
pois o controle que me tem fere-me quando se mostra e intervem.
Rogo então ao Pai antes das construídas morais,
para que eu presencie e seja vítima das hipocrisias angelicais.
Liberto-me de quem me tem,
e afundo-me sem carregar o ar que tanto faz reféns.
Lastimo apenas os rastros que se perderam nos anos,
recuperar uma porção será como portar oceanos.
Pois quando me provoca, noto-me fervorosa,
como se a fonte da vida é ter-me exposta.