I-XLIV Jaezes de vida e morte
Nascido e domesticado,
enquanto o céu é superestimado,
tenho sido ludibriado.
Sinto que me vê como não vejo você.
E tudo que eu pensei saber,
o que penso apender,
faz-me temer teu perecer.
O futuro abre-se como refúgio do presente.
Mas, Deus, estou apaixonado pelas vítimas
de anos precedentes.
E sei que pensam ver como os veria.
Sei que falharam por não serem quem deveriam.
Mas, como um tolo humano,
vi-me aqueus assombrando.
Ameaçaram cortar-me a garganta,
e riram juntos quando jantando.
Como voz apaixonada,
fingindo um inferno que vem do nada,
foi o que pude fazer por Acates,
que, ao menos, Protesilau mataste.
I-LX Jaezes de vida e morte
Sós sendo um e perdidos quando par,
a esperança é pouca e não a vejo acabar.
É a ironia de quem existe e persiste,
ser leigo quando aprendo e fraco quando insisto,
é a pressa de estar diante de quem me tem repelido.
Ensino fogo aos homens para olharem sempre a quem,
pois o controle que me tem fere-me quando se mostra e intervem.
Rogo então ao Pai antes das construídas morais,
para que eu presencie e seja vítima das hipocrisias angelicais.
Liberto-me de quem me tem,
e afundo-me sem carregar o ar que tanto faz reféns.
Lastimo apenas os rastros que se perderam nos anos,
recuperar uma porção será como portar oceanos.
Pois quando me provoca, noto-me fervorosa,
como se a fonte da vida é ter-me exposta.
I-LVIII Jaezes de vida e morte
Os dias que têm vindo
não me levam tão longe quanto cobiço.
Derramando virtudes à medida que preciso,
anseio voltar por este caminho.
Curando, adoecendo, fingindo ver o que não vejo:
As vestes caras não combinam com minhas marcas imaginadas,
e minhas palavras falsas fazem-me um oportunista camarada.
Leve-me ou não a mal, eu irei de qualquer forma ao caos.
Todos meus discípulos se perderão,
tento a presunção antes de estar sob o chão.
I-LI Jaezes de vida e morte
É um espetáculo
minha insistência de sentir o que não quero viver.
Quando prendem-me com tantas correntes,
sinto-me tão livre quanto fui aos treze.
Pelo menos rimos quando caímos,
definhamos enquanto nos amamos.
Sinto o mundo impressionado por sermos
cada vez menos quando mais nos gostamos.
Mal sei a origem do que me faz incontestável,
mas sinto-me seguro sobre tudo que me trouxe ao báratro.
Não é como quando vivemos para aprender, ou morremos para voltar a crer,
é como sentir-se enganado sobre o que é dito de você,
sem mar que se abra por aquilo que crê.
Não faço por diversão, por rebeldia ou por fé.
Não faço por mim, e não me atreveria a fazer por você.
Faço por um racional instinto que persevera.
Como lhe disse sobre as japonesas velas entregues ao mar,
sinto ser eu o único audaz a me guiar.
I-XLIX Jaezes de vida e morte
Estou nervoso, mas não por estar mentindo,
temo coisas além de você e deste abrigo.
É a ansiedade por tanto desejar,
a incapacidade de esquecer o mundo que me faz viciar.
E culpa alguma sinto por vê-la chorar,
pois sei que não lhe resta tempo para durar.
Assombras um hipócrita que mata por futuros e julga prostíbulos.
Um fraco do tipo que chora por frustações que não vão embora.
Se julga-me não sei, mas sabes que para alguns o pior ansiei,
pois sou um ingênuo que nos zodíacos fiz-me e acreditei.
Há ainda quem aponte minha bondade santa, vendo-me como criança.
Calado e mutilado por quem permito e por quem insiste, sei que queres
mais uma vítima dessa tormenta, alguém que mostre, na arte, toda fraqueza.
Assim caminho longe e volto sempre, com coração frio e mente quente.
I-XLVIII Jaezes de vida e morte
Finalmente, livre da maçante liberdade, tens-me,
mas não me tenho com tanta facilidade.
Lembro-me sendo algo como dezoito ou vinte e oito,
vendo-te surpreso por esta vida que não mudou
diante do mundo que muitos desolou.
Qualquer horizonte é euforia
desde que és tu que cobres minha vista.
Então o poupo das sortes desta noite,
não impedirei de sofrer o que o destino reservou-te.
Poupe-se de erguer-me a mão quando contento-me no chão.
Poupe-se de comparar-me ao mal,
pois não houve segundo que não fui igual.
E quando caído, enfraquecido e entorpecido,
preserva-me do romantismo, pois tendo ao transvio.
I-XLIII Jaezes de vida e morte
Não há data que eu suporte
o Sol sobre esta cidade.
Orei para pisar nesta terra e, agora,
queimo como se meus pecados
adiantassem-me ao inferno.
Já não estou perdido suficiente?
Rodeado por almas fascinadas por lugares que não estou.
Vejo o dia que levarão meu corpo ao espaço.
Nem sequer sou livre
e ameaçam prender-me fora da realidade.
Sou âncora de qualquer coisa que os tirem daqui.
E não ligo, eu não vivo,
sou comida para almas cansadas do paraíso.
I-LVII Jaezes de vida e morte
Nas minhas piores ideias,
atrevi dar-me mais que sete dias.
Montei o que me tire a culpa,
mas palavras têm se enferrujado na covardia.
Sobra quem peça perdão pela bagunça que
fazemos dos dias.
Lembro-me do ar escasso de Sodoma,
havia ainda tanto a ser discutido antes daquela escolha.
Mãe estava certa ao dar-me menos de uma semana,
pois já não havia onde por esperança.
O mundo sabia que eu jamais seria como ela,
eu carregava um futuro que seria enterrado depressa.
Por Deus, como foi bom viver,
um dia se desculpará por o que me fez perder.
I-LV Jaezes de vida e morte
Pus-te como promessa de vida,
e vi-te ausentar para que me pusesse a pensar:
O quão longe tenho ido que precise ser omitido,
o quão distante perduraria se fosse eu quem o seguiria.
E sobrevivi daquela morte de fantasia.
Nunca o vi chegar, exceto agora que,
diante da passionalidade, o vi brotar.
Há quanto esteve lá? Pois o trouxe em meio
ao júbilo, como por culpa por ver-me queixar.
O passado justifiquei pela ignorância,
pedi perdão pelas ameaças de criança.
E pelo medo deste acaso, perco a noite
acordado: Será um presente por agrado,
ou és um grego desalmado?
I-LII Jaezes de vida e morte
Suplico por ter quem guie-me ao reto,
quem livre-me das tentações à direita,
quem cega-me das à esquerda.
Quem permita-me desviar do certo
quando nele já não me considero.
Procuro civilização amante da liberdade de expressão
e escrava da ignorância que nos tornam vãos.
Procuro pelas capitais que, dos que abrigam, tempo tomam,
e crescem dando à vida razões que nada consolam.
Lá há quem a natureza desvalorize e a carne ridicularize,
e esculpa, ainda assim, presentes a mim.
Ouço do alto, então, maiores insultos,
fazendo-me proporcional ao palpável mundo que oriundo.
E em nada posso julga-los sem que me lembro de meus pecados.
Maior seja a insipiência dos que de mim se afastam,
e profundo o inferno dos que, deste mundo, tanto acham.