I-LXI Jaezes de vida e morte
Há tanto digo ao escuro:
Perdoe meus reflexos, meus péssimos hábitos,
cada noite sinto-me melhor sendo acuado.
Já levo o tempo para perder-se comigo,
atrasado, atado aos embaraços,
um presente como o passado.
Instinto infeliz que me pune por nada,
fez-se em minha casa, tomou-me a alma.
Temendo jogarem-me fora, vi-me perdendo a honra:
"Os erros não são meus, o mundo não se toca!
Chances nada adiantam se o dia sempre volta."
E tudo soa como piada para que alguns guardem mágoas.
Não que eu sinta o que escrevo ou de tudo me abstenho,
é só vício ludibriar-me por inteiro.
I-LXIV Jaezes de vida e morte
Paixão infame que em círculo corre para me deixar,
procuro tal grego que venha a me presentear.
O levaria para sempre, temendo o amanhã que chega,
fazendo de mim a descoberta de quem salvação anseia.
Em um mundo que se expande e nunca cresce,
meus sonhos morrem e prevalecem.
São como as almas sem rancor, que nos
ensinam perder e viver por amor.
Assim sinto-me no fundo do discreto,
pensando em quem padece sob juízos incertos:
Se os anjos se extinguem quando a mente definha,
e se é azar a âncora à vida sofrida.
I-LXIX Jaezes de vida e morte
Tal azar que se apega aos homens que fazem de tudo ruim, sempre deu sorte a mim.
Temo ter que dizer o pouco que guardei, temo fracassar ao inventar o que não presenciei.
Cultuaria ter prazer no meu hábito de perder tantos negócios sujos que não sei manter.
Far-me-ia menos tolo, mais crente em gestos de outros.
Estive por baixo preparando algo profano,
devolvendo ao mundo o que me restou como humano.
Assim a realidade se esforça em levar-me embora,
tornando-me inabitável por tão quente estar lá fora.
Às besteiras que me fazem canalha,
pesando hoje sobre homens com esperanças frágeis como a alma,
dou-me sempre sem quaisquer lágrimas.
Sei que não sei, e jamais permitir-me-ei saber se nos tornamos algo além,
é esta a ideia que me faz temer o futuro com quem me tem.
I-LX Jaezes de vida e morte
Sós sendo um e perdidos quando par,
a esperança é pouca e não a vejo acabar.
É a ironia de quem existe e persiste,
ser leigo quando aprendo e fraco quando insisto,
é a pressa de estar diante de quem me tem repelido.
Ensino fogo aos homens para olharem sempre a quem,
pois o controle que me tem fere-me quando se mostra e intervem.
Rogo então ao Pai antes das construídas morais,
para que eu presencie e seja vítima das hipocrisias angelicais.
Liberto-me de quem me tem,
e afundo-me sem carregar o ar que tanto faz reféns.
Lastimo apenas os rastros que se perderam nos anos,
recuperar uma porção será como portar oceanos.
Pois quando me provoca, noto-me fervorosa,
como se a fonte da vida é ter-me exposta.
I-LXII Jaezes de vida e morte
Corro à frente, para que me sobre tempo para me explicar:
Temo ser vista como uma mulher apaixonada,
frustrada por um fantasma ser trocada.
Temo ser vista como tola e desajeitada,
que, sob as águas, carregava mais do que sustentava.
O dinheiro limita nossos destinos,
os sinais duplicam toda vez que nos repudiam.
Tenho alucinado, mas ainda as coisas separo.
Não é difícil quando sobreviver é a loucura que nos agarra,
nos puxa, nos afunda, nos fragmenta e nos alastra.
Se vejo as estrelas, se presencio o por do sol,
sempre há algo em qualquer lugar que nos faz parar.
É loucura pensar em nos encontrar.
Talvez com dias como agosto em anos embolísticos,
filha de Fanuel e Abraão, teria minha idade escrita
ao acaso por fingir-me morta sobre o chão.
Gozaria dias por dia, noites em uma revelação,
encargos por vida, e paixões por um homem sem coração.
I-LIII Jaezes de vida e morte
Diante de tanta enfermidade, por nada sofro que me adoeça.
Amarguro-me sob luxos que me separam dos apuros,
e falho estando bem, lembrando-me dos anseios que trouxe ao mundo.
Privilegiado por chorar e viver para lembrar,
duvido ser vício, duvido não haver sentido no que lastimo.
Se há alguém, não sou eu quem a vida, com regalo, atravessa.
Não serei eu quem peregrina aos refúgios de quem espera.
Nego dizer que arrisquei por não haver o que fiz.
Perante aos infelizes em busca de tempo,
creio eu ser mais feliz.
Culpam minha índole que abandona a caça,
que, por qualquer prazer, se desvia da estrada.
Índole que me leva ao longe, ao fundo, respirando e desvairando,
alcançando e pensando, e menos me culpando.
Meu ápice do prazer é à tona trazer algo meu que nem sei se sou eu.
É pouco caso fazer do que conheço, e aos outros dizer que tenho o que mereço.
Gozo pelo privilégio de não ser exposto,
por o luxo de amar alguém pelo prazer do desconforto.
I-XLVIII Jaezes de vida e morte
Finalmente, livre da maçante liberdade, tens-me,
mas não me tenho com tanta facilidade.
Lembro-me sendo algo como dezoito ou vinte e oito,
vendo-te surpreso por esta vida que não mudou
diante do mundo que muitos desolou.
Qualquer horizonte é euforia
desde que és tu que cobres minha vista.
Então o poupo das sortes desta noite,
não impedirei de sofrer o que o destino reservou-te.
Poupe-se de erguer-me a mão quando contento-me no chão.
Poupe-se de comparar-me ao mal,
pois não houve segundo que não fui igual.
E quando caído, enfraquecido e entorpecido,
preserva-me do romantismo, pois tendo ao transvio.
I-LV Jaezes de vida e morte
Pus-te como promessa de vida,
e vi-te ausentar para que me pusesse a pensar:
O quão longe tenho ido que precise ser omitido,
o quão distante perduraria se fosse eu quem o seguiria.
E sobrevivi daquela morte de fantasia.
Nunca o vi chegar, exceto agora que,
diante da passionalidade, o vi brotar.
Há quanto esteve lá? Pois o trouxe em meio
ao júbilo, como por culpa por ver-me queixar.
O passado justifiquei pela ignorância,
pedi perdão pelas ameaças de criança.
E pelo medo deste acaso, perco a noite
acordado: Será um presente por agrado,
ou és um grego desalmado?
I-LXVIII Jaezes de vida e morte
Levarão vossas almas aos porcos se aos amigos voltarem,
pois o mundo que carrega é o mesmo que pisa,
não faça por mim o que mal faz por tua vida:
Ambos viemos por péssimos motivos,
e nos afogaríamos se ao precipício resistirmos.
O fim se alastra por portas abertas
sem que mude a realidade de uma vida eterna.
Me perdi sabendo que venci,
já não vivo sem o inverno que me solidou aqui.
Doo ambas as mãos ao fogo se livrar-me do arroubo,
já não forço o ceticismo ao bom gosto dos outros.
E se já mal fascina-me dizer o privilégio que vivi,
temo resistir ao delírio de dar-me a ti.
É a sensatez que me tira a paz, pois sei que
de mim nada se faz, nem na terra, nem no céu,
nem nesta paixão que ameaça meu enfado cruel.
I-LII Jaezes de vida e morte
Suplico por ter quem guie-me ao reto,
quem livre-me das tentações à direita,
quem cega-me das à esquerda.
Quem permita-me desviar do certo
quando nele já não me considero.
Procuro civilização amante da liberdade de expressão
e escrava da ignorância que nos tornam vãos.
Procuro pelas capitais que, dos que abrigam, tempo tomam,
e crescem dando à vida razões que nada consolam.
Lá há quem a natureza desvalorize e a carne ridicularize,
e esculpa, ainda assim, presentes a mim.
Ouço do alto, então, maiores insultos,
fazendo-me proporcional ao palpável mundo que oriundo.
E em nada posso julga-los sem que me lembro de meus pecados.
Maior seja a insipiência dos que de mim se afastam,
e profundo o inferno dos que, deste mundo, tanto acham.