I-LIX Jaezes de vida e morte
Lastimo nervoso nas revanches que levantam meu nome,
estive sonhando com outro mundo em silêncio, e notei meu desespero.
Se eu perder uma única vez, não me restará vida para rogar,
e, de novo, a mentira é a saída para me safar.
Na última noite bebi, e exaltei os homens
que me forçaram o que fiz.
Um em particular, recordo de implorar para que
o verão não dure até nos secar.
Para que decida desconciliar,
se é o que nos prende ao altar.
Nada nos faz rico no escuro,
soamos tão lúcidos quanto incultos,
e a mente nós seguramos no mar,
não é que usaremos isto,
mas é o que nos resta amar.
I-XLIX Jaezes de vida e morte
Estou nervoso, mas não por estar mentindo,
temo coisas além de você e deste abrigo.
É a ansiedade por tanto desejar,
a incapacidade de esquecer o mundo que me faz viciar.
E culpa alguma sinto por vê-la chorar,
pois sei que não lhe resta tempo para durar.
Assombras um hipócrita que mata por futuros e julga prostíbulos.
Um fraco do tipo que chora por frustações que não vão embora.
Se julga-me não sei, mas sabes que para alguns o pior ansiei,
pois sou um ingênuo que nos zodíacos fiz-me e acreditei.
Há ainda quem aponte minha bondade santa, vendo-me como criança.
Calado e mutilado por quem permito e por quem insiste, sei que queres
mais uma vítima dessa tormenta, alguém que mostre, na arte, toda fraqueza.
Assim caminho longe e volto sempre, com coração frio e mente quente.
I-LXVI Jaezes de vida e morte
Nesta noite, ao ganhar o sono,
vi-me em sonhos que se guardam em cômodos.
Doo-me ao paraíso inabitado pelo prazer de nunca o alcançar
e me gabo ao falar: O prazer está no que encontro ao procurar.
Quebrar-me-ia em bilhões,
para ensinar a mim o prazer de sentir,
como vós sois do início ao fim.
Faria do mundo evidente e nunca compreendido,
dando ao povo do leste a chance do nada,
e ao norte, constantes dádivas.
Calaria quem fala, por ser eu quem explana mágicas,
por ser eu quem oriunda do nada e por alados se espalha,
afundando a alma de quem a evolução retarda.
Faria do meu gosto o bom gosto e do instinto um constante suplício,
tornando o fim, o único caminho a mim.
I-LI Jaezes de vida e morte
É um espetáculo
minha insistência de sentir o que não quero viver.
Quando prendem-me com tantas correntes,
sinto-me tão livre quanto fui aos treze.
Pelo menos rimos quando caímos,
definhamos enquanto nos amamos.
Sinto o mundo impressionado por sermos
cada vez menos quando mais nos gostamos.
Mal sei a origem do que me faz incontestável,
mas sinto-me seguro sobre tudo que me trouxe ao báratro.
Não é como quando vivemos para aprender, ou morremos para voltar a crer,
é como sentir-se enganado sobre o que é dito de você,
sem mar que se abra por aquilo que crê.
Não faço por diversão, por rebeldia ou por fé.
Não faço por mim, e não me atreveria a fazer por você.
Faço por um racional instinto que persevera.
Como lhe disse sobre as japonesas velas entregues ao mar,
sinto ser eu o único audaz a me guiar.
I-LXIX Jaezes de vida e morte
Tal azar que se apega aos homens que fazem de tudo ruim, sempre deu sorte a mim.
Temo ter que dizer o pouco que guardei, temo fracassar ao inventar o que não presenciei.
Cultuaria ter prazer no meu hábito de perder tantos negócios sujos que não sei manter.
Far-me-ia menos tolo, mais crente em gestos de outros.
Estive por baixo preparando algo profano,
devolvendo ao mundo o que me restou como humano.
Assim a realidade se esforça em levar-me embora,
tornando-me inabitável por tão quente estar lá fora.
Às besteiras que me fazem canalha,
pesando hoje sobre homens com esperanças frágeis como a alma,
dou-me sempre sem quaisquer lágrimas.
Sei que não sei, e jamais permitir-me-ei saber se nos tornamos algo além,
é esta a ideia que me faz temer o futuro com quem me tem.
I-LVI Jaezes de vida e morte
Como é bom estar vivo em prantos sob as asas de Piasa,
que, há muito, tem devorado minha raça.
Se meu Pai sonhar por me fora,
matar-me-ei antes desta hora.
É o testemunho de muitos que me faz verídico,
pois pelo pouco que ando já mal me sinto.
A crença de mim vem do inimigo,
a vida que fiz não me serve de abrigo,
e o passado que tracei foi tomado por vitimismo.
Me envergonho das loucuras passageiras e temo as que se permeiam.
É aflição que toma meu coração, pois me perdi nas lutas por paixão.
Queria eu residir aqui, como se, pelo mal, fosse meu teto resistir.
E não me acabaria em mil olhares, seria visto por mim e por Ele,
quem sabe.
I-LVIII Jaezes de vida e morte
Os dias que têm vindo
não me levam tão longe quanto cobiço.
Derramando virtudes à medida que preciso,
anseio voltar por este caminho.
Curando, adoecendo, fingindo ver o que não vejo:
As vestes caras não combinam com minhas marcas imaginadas,
e minhas palavras falsas fazem-me um oportunista camarada.
Leve-me ou não a mal, eu irei de qualquer forma ao caos.
Todos meus discípulos se perderão,
tento a presunção antes de estar sob o chão.
I-LV Jaezes de vida e morte
Pus-te como promessa de vida,
e vi-te ausentar para que me pusesse a pensar:
O quão longe tenho ido que precise ser omitido,
o quão distante perduraria se fosse eu quem o seguiria.
E sobrevivi daquela morte de fantasia.
Nunca o vi chegar, exceto agora que,
diante da passionalidade, o vi brotar.
Há quanto esteve lá? Pois o trouxe em meio
ao júbilo, como por culpa por ver-me queixar.
O passado justifiquei pela ignorância,
pedi perdão pelas ameaças de criança.
E pelo medo deste acaso, perco a noite
acordado: Será um presente por agrado,
ou és um grego desalmado?
I-L Jaezes de vida e morte
Vistes-me descer os céus, por que perguntas de onde vim?
Usas a liberdade mas esqueces da percepção,
exatamente como fui, carregando os homens com ambas as mãos.
Se dificilmente vê-se jovem, perdoe-nos enquanto ainda somos pobres.
Crio o que tens feito, a insegurança alimento,
e me empreguiço para evitar o que tanto tento.
Me apaixono por como ages sob o único sol que vejo,
mas a noite vem, lembrando-me ser ambos criados pelo Mesmo.
Prometa-me então, Charn, que à Londres nunca me levará,
pois me vicio em tu que me mata devagar.
Ouso enraizar-me ao chão,
abafo o mundo, guardo o perigo,
e mal sei sobre a loucura de quem cogita além do instinto.
I-LIV Jaezes de vida e morte
Sinto que a vida vale a pena
quando um mortal me tens em mãos
e me corteja, disse ao Pai muitas vezes.
Fui agraciado pelos céus de sábado,
e agora sofro temoroso por um domingo ao acaso.
Um de meus vícios é apostar o que recuperei,
penso o quão péssimo é isso, e concluo ser pior que imagino.
Costumo perder-me na conta de quantos sacrifico
para fazer deste mundo um lugar para mim e meus filhos.
Assim ponho-me louco, para a que a conclusão
de um fim venha, e me arranque a vaidade do corpo.
Real ou não, ainda assim é por você,
vícios não seriam hábitos se não voltassem a acontecer.
Temo um mundo pior por domá-lo,
sofro um pouco menos por ser um amparo.
Oro ser este o último dos que me inspiram a estimar,
pois mal atingi o meio e tantos de ti vi passar.