I-XXXV Jaezes de vida e morte
Crânio sem esqueleto, previna-me, ó beldade exilada, do tropeço.
Por nosso parentesco revogado, por nosso acordo impugnado.
Esculpida alma em tenesso, tão pesada quanto meu anseio.
Abra-me qualquer brecha para além deste meio.
Previna-me do que quero, pois cuspo o que tateio.
Encontre-me desolado, para que de mim não queira cuidado.
E eu padeça, sem ti, sem mim, sem quem queira, por décadas e centenas.
Talvez eu mude, mas as coisas não irão.
Não tens ideia do quão grave foi o que vi.
Canso-me de ouvir-te fingir, de temer me extinguir.
É triste por ser o último inverno,
é uma benção por ser o último verão.
Quão poético Senhor, quão profundo o sermão.
Se mais cego estivesse, confundir-me-ia com Seol,
ou com qualquer vácuo em vão.
De onde virias se não do fim,
se dizes saber o que será de mim.
I-XXXIV Jaezes de vida e morte
Cruzando a fronteira,
desta vez com papeladas, como uma boa moça.
Com motivos melhores, contei-te piores.
E com justificativas tolas, fiz-me de boba.
Homens não ouvem tanto.
Sonhei com tu arruinando meu lar,
cobrava-me milhões pelo prazer de cobrar.
Apontavas tudo como a razão de minha solidão,
vítima de amigos que não me erguem do chão.
Sonhei-te com olhos azuis,
asas douradas, adornado com coisas caras.
Acordei irritada com o calor, e sei que me sentirei melhor
quando o pintar sem qualquer cor.
I-XLI Jaezes de vida e morte
Com única oportunidade,
acendendo o inferno sob o rio Miskatonic,
coberto por santa ingenuidade,
quero quem ouça minhas palavras treinadas.
Tenho ideias melhores para os homens,
escondidas frente aos olhos de Azathoth.
Vivo o anseio pelos dias seguros,
pela luz que leva ao início de tudo.
E se, antes desta chance, der-me um trato,
que eu suba ao Thánatos, e jogue ao Hades,
Voltaire, que tanto fez-me insultado.
I-XLII Jaezes de vida e morte
Tarde, mas antes da noite,
invocaram-me, tanto repetiram,
dezenas suficientes para sentir-me contigo.
Acreditei vagar, mas tratam-me como vivendo aqui.
Dizem sentir como eu, mas não os vejo como vivi:
Sobre pegadas de Flammarion,
martelando um sólido céu que nos separa do passado,
por amor e por coisas que jurei nunca dar ao acaso.
E por rancor dos jeitosos rostos que, outros,
fizeram-me deixar de ver,
espero Artur compensar-me,
com tal rígida espada,
os frouxos homens desta távola
que nada me puderam fazer.
I-XLIV Jaezes de vida e morte
Nascido e domesticado,
enquanto o céu é superestimado,
tenho sido ludibriado.
Sinto que me vê como não vejo você.
E tudo que eu pensei saber,
o que penso apender,
faz-me temer teu perecer.
O futuro abre-se como refúgio do presente.
Mas, Deus, estou apaixonado pelas vítimas
de anos precedentes.
E sei que pensam ver como os veria.
Sei que falharam por não serem quem deveriam.
Mas, como um tolo humano,
vi-me aqueus assombrando.
Ameaçaram cortar-me a garganta,
e riram juntos quando jantando.
Como voz apaixonada,
fingindo um inferno que vem do nada,
foi o que pude fazer por Acates,
que, ao menos, Protesilau mataste.
I-XXXIX Jaezes de vida e morte
Brisa que entra pelas janelas fechadas,
que estrala as escadas que ninguém passa.
Assim ouço sem ter quem fale,
e fecho portas abertas por almas passadas.
Por que as abre se não as precisa?
Por que preserva as mãos se segurar é em vão?
Preserva o ódio faltando-te expressão,
e me atinge sem ser eu quem te reprime.
Muito choras pois, além de ódio, mágoa te aflora.
E o espero voltar quando dizer que zarpará,
pois sempre esquece-se de que jaz.
I-XXXVI Jaezes de vida e morte
Pessoas relutam a se tornarem outras,
ainda assim, se eu fosse tu, de novo, aqui não me porias.
É assim tão gratificante ser este herói que se lembra de mim?
O inverno mal apazígua este calor,
que das curtas férias volta irritado.
Tento apressar-me, e me exalto nos passos.
Minhas orações secam as folhas,
e me iludo nesta vitória que não me traz vantagem ou outra.
Desprezo cada segundo que o ego torna-me virtuoso.
Já sofro por ser certo e por desgosto,
e por ver vivo quem quero morto.
I-XLIII Jaezes de vida e morte
Não há data que eu suporte
o Sol sobre esta cidade.
Orei para pisar nesta terra e, agora,
queimo como se meus pecados
adiantassem-me ao inferno.
Já não estou perdido suficiente?
Rodeado por almas fascinadas por lugares que não estou.
Vejo o dia que levarão meu corpo ao espaço.
Nem sequer sou livre
e ameaçam prender-me fora da realidade.
Sou âncora de qualquer coisa que os tirem daqui.
E não ligo, eu não vivo,
sou comida para almas cansadas do paraíso.
I-XLVI Jaezes de vida e morte
Estou nervoso pela fome,
e pelas decisões sobre mim.
Não há conto curto que me faça
sorrir pela distância de onde vim.
O que de pior aconteceria a quem,
pelo tempo, é tratado como segundo?
Atado e feriado, ouço meus pais dizendo que
que demais me apeguei a este mundo.
Há tanto a ser escrito, mas a pensar me limito.
Quero dar vida às besteiras, e atar-me na tristeza.
E se puxas me sabendo que não me arrancaria,
seria o primeiro que faria.
I-XXVI Jaezes de vida e morte
Mais um ano que nada ensina.
Preciso de ti, não preciso?
Consertou si mesmo. Foi por mim, não foi?
Percebi pela forma que dizes fazer por você.
Contido no abraço, como quem não atravessou o mundo para ver-me.
É. Eu não preciso de ti, preciso?
Questiono-me enquanto ouço sobre as diferenças das nações.
Estamos falando de nós?
Dizes ter abandonado as praias pelo dinheiro que lhe falta, sem quem lhe prometa, aqui, uma vida adequada.
Se há quem prometa, pergunto-me a razão desta conversa desenfreada.
Sugiro lugares para que, como Romeu, possas aguardar-me seguro enquanto concebo o amor como o fim do mundo.
Para a maioria, bati com a cabeça. Para mim, perdi-me na carência.
Matei-me por ti em centenas de suposições. Metade, agora, não faria.
Nego-te o mundo enquanto lhe desejo o melhor.
A indiferença faz disto uma lenda. A platonicidade é o que nos sustenta.
O preço para escrever sobre amor é o mesmo do dinheiro.
Queria eu, então, ter ainda mais tempo.
Assim divirto-me como um plebeu,
tendo como única diversão as doenças de quem este reino ergueu.