I-XLVII Jaezes de vida e morte
O vi e é verdade, como vulto sob arbustos,
cochichava sobre promessas de um futuro longe de influências.
Poderia eu ter o parado ali, mas era mau por si só,
e acreditei que ali mesmo se acabaria.
Ainda estava encantado pelas palavras dos criados,
desejando que, ao menos, meia duzia dita se realizasse.
Quando, sob controle do gim, estou a caminho de casa, os ouço aproximando.
Perguntam se meus temores são consequências dos rancores e,
o tempo dado-me para explicar que não os possuo,
prefiro fingir-me de mudo.
Não diga que é por acaso,
conheço o bem por minha tendência
de fazer da verdade sempre miserável.
Pois é tu que levado foi pelos amigos,
e não estou arrependido. Estou a caminho de casa
e já sinto o que fizeste comigo.
I-XXXI Jaezes de vida e morte
Perdi-me no bom gosto, mal consigo vê-la do pé ao pescoço.
Pedi para que não me encarasse, mas que Deus me amparasse.
Sua face foi-me um escopo, onde lapidei um futuro tomado por outro.
E há quem diga que não a perdi, talvez seja porque nunca a consegui.
Assim, querendo ou não, acabo sendo o limite do que chamo razão.
E por misericórdia ou por culpa, oro por quem jamais saberá sobre esta angústia,
pois mal existem se não sei que vivem.
Mas bem sei que afundando ou se elevando,
há saudade de sobra nas noites que me lembram passados anos.
I-XXXIII Jaezes de vida e morte
As vezes que evoquei seu nome,
confesso, não tive fé.
Temi estender tempos que nada servem.
Oro por cautela, por alguns dias, não muitos.
E se, com o pouco, ter eu alguma certeza,
livre-me então das marcas que me remetem à demência.
Que eu toneladas pese,
suficiente para ter de Sansão ambas as suas mãos.
Que eu ocupe seu tempo e lhe atrase os sonhos.
Que seus fios testemunhem as besteiras que me consomem.
Quero gabar-me dos meus medos e rir de seus animais.
Quero dizer que o que diz é mentira, justificada por coisas banais.
E terei sempre razão, pois o que tens para dizer de ti, tens guardado para si.
Em vão.
I-XL Jaezes de vida e morte
Como odeio aquele velho erudito que bufa seu cachimbo.
Está mais claro a medida que afundamos nesta fossa, Mariana.
Não se esclareça para me acomodar, já sou por nunca mudar.
Me fere gostar do que os incomoda,
e mais me machuca fingir que nada importa.
Vale a pena esquecer dos anseios que se fazem vãos,
mas me sinto miúdo por não ter o que fixa-me no chão.
Que eu enlouqueça, então, mantendo-me sensato,
"mais assustado que machucado".
Coragem ou necessidade falta às almas que não encarnam.
Vivem dos vislumbres de nossas vontades básicas,
curiosos sobre quem deles falam.
Existo, então, fazendo do nada menos ainda,
zombando dos que, de lá, trazem-me pistas.
I-XLIII Jaezes de vida e morte
Não há data que eu suporte
o Sol sobre esta cidade.
Orei para pisar nesta terra e, agora,
queimo como se meus pecados
adiantassem-me ao inferno.
Já não estou perdido suficiente?
Rodeado por almas fascinadas por lugares que não estou.
Vejo o dia que levarão meu corpo ao espaço.
Nem sequer sou livre
e ameaçam prender-me fora da realidade.
Sou âncora de qualquer coisa que os tirem daqui.
E não ligo, eu não vivo,
sou comida para almas cansadas do paraíso.
I-XLVI Jaezes de vida e morte
Estou nervoso pela fome,
e pelas decisões sobre mim.
Não há conto curto que me faça
sorrir pela distância de onde vim.
O que de pior aconteceria a quem,
pelo tempo, é tratado como segundo?
Atado e feriado, ouço meus pais dizendo que
que demais me apeguei a este mundo.
Há tanto a ser escrito, mas a pensar me limito.
Quero dar vida às besteiras, e atar-me na tristeza.
E se puxas me sabendo que não me arrancaria,
seria o primeiro que faria.
I-XXXII Jaezes de vida e morte
Ouvi sobre quem vive nesta ideia como quem vive no rancor.
Estive pressentindo o sentido do fim, e a isto corro como se corresse a mim.
Lembro-me de Árion cada vez que me sinto lento,
pois não sou Jó, nem ao Hades me arrependo.
Lembro-me das coisas vãs e das coisas más,
e disso nada serve-me de martírio ou pesar.
Aponto para os melhores, omito os piores,
faço que julguem quem tudo pode.
Assim sinto me vazio dos pés à cabeça,
oro apenas para sentir-me como Santa Catarina ou Teresa,
acreditando no que há de ruim com clareza.
E aos homens que ostentam gostos amargos,
às mulheres que casam de mau grado,
mostro-me como um refúgio do pecado.
Concebo em mentes cheias de mim,
o único lugar para um bom fim.
I-XXXVI Jaezes de vida e morte
Pessoas relutam a se tornarem outras,
ainda assim, se eu fosse tu, de novo, aqui não me porias.
É assim tão gratificante ser este herói que se lembra de mim?
O inverno mal apazígua este calor,
que das curtas férias volta irritado.
Tento apressar-me, e me exalto nos passos.
Minhas orações secam as folhas,
e me iludo nesta vitória que não me traz vantagem ou outra.
Desprezo cada segundo que o ego torna-me virtuoso.
Já sofro por ser certo e por desgosto,
e por ver vivo quem quero morto.
I-XXXIV Jaezes de vida e morte
Cruzando a fronteira,
desta vez com papeladas, como uma boa moça.
Com motivos melhores, contei-te piores.
E com justificativas tolas, fiz-me de boba.
Homens não ouvem tanto.
Sonhei com tu arruinando meu lar,
cobrava-me milhões pelo prazer de cobrar.
Apontavas tudo como a razão de minha solidão,
vítima de amigos que não me erguem do chão.
Sonhei-te com olhos azuis,
asas douradas, adornado com coisas caras.
Acordei irritada com o calor, e sei que me sentirei melhor
quando o pintar sem qualquer cor.
I-XXXV Jaezes de vida e morte
Crânio sem esqueleto, previna-me, ó beldade exilada, do tropeço.
Por nosso parentesco revogado, por nosso acordo impugnado.
Esculpida alma em tenesso, tão pesada quanto meu anseio.
Abra-me qualquer brecha para além deste meio.
Previna-me do que quero, pois cuspo o que tateio.
Encontre-me desolado, para que de mim não queira cuidado.
E eu padeça, sem ti, sem mim, sem quem queira, por décadas e centenas.
Talvez eu mude, mas as coisas não irão.
Não tens ideia do quão grave foi o que vi.
Canso-me de ouvir-te fingir, de temer me extinguir.
É triste por ser o último inverno,
é uma benção por ser o último verão.
Quão poético Senhor, quão profundo o sermão.
Se mais cego estivesse, confundir-me-ia com Seol,
ou com qualquer vácuo em vão.
De onde virias se não do fim,
se dizes saber o que será de mim.