I-XXIX Jaezes de vida e morte
Quero tentar algo sutil:
Agindo como se o que sucede não acontece,
e o que parece não seja veste,
para viver uma incoerência feliz, perdendo apenas o que dirão me suprir.
Então oro por algo certo,
espero só quem volte de lugares péssimos.
Faço de mim da forma que vim,
como minha pele sendo o corpo, não sendo eu só alma sob o Todo.
Lembrei de ti toda vez que me vi,
pois sei que lembras de mim por viver o que não conheci.
E antes que morra ingênuo ao acaso,
tento fazer de mim menos coitado.
Feliz por besteiras que mal faz-me rir,
olho para quadros que nunca entendi.
Fascina-me saber que passam por aqui,
e me alegro do tempo que resta usufruir.
I-XXII Jaezes de vida e morte
Perdendo meu tempo transgredindo sete regras básicas,
quero perder o amanhã apreciando quem se diz bom,
apenas para lembrar-me que não melhoro.
Tenho motivos para não parecer convincente quando juro por esta vida,
pois anseio deixa-la enquanto a levo.
Aponte-me ao questiona-los, ouvirá o que eu disse com um pouco mais de besteira.
Já fui visto por aqui sem sequer ser ouvido.
Ao menos fui acusado sem antes ser agredido.
Com alguns delírios à noite, sobre um pai que cita estranhos em Dublin,
dizendo terem uns aos outros, vivendo bem certos ou não, termino mais um dia.
Resta-me sofrer o carma do que tenho dado atenção,
racionalizando ignorâncias de quem finge dar-me compreensão.
É um luto cômico, menos longo que o usual.
I-XXXII Jaezes de vida e morte
Ouvi sobre quem vive nesta ideia como quem vive no rancor.
Estive pressentindo o sentido do fim, e a isto corro como se corresse a mim.
Lembro-me de Árion cada vez que me sinto lento,
pois não sou Jó, nem ao Hades me arrependo.
Lembro-me das coisas vãs e das coisas más,
e disso nada serve-me de martírio ou pesar.
Aponto para os melhores, omito os piores,
faço que julguem quem tudo pode.
Assim sinto me vazio dos pés à cabeça,
oro apenas para sentir-me como Santa Catarina ou Teresa,
acreditando no que há de ruim com clareza.
E aos homens que ostentam gostos amargos,
às mulheres que casam de mau grado,
mostro-me como um refúgio do pecado.
Concebo em mentes cheias de mim,
o único lugar para um bom fim.
I-VII Jaezes de vida e morte
Querida mãe,
há anos quero dar-te algumas palavras e receber as suas.
Perdi-me neste péssimo tempo e não quero ser encontrado.
Ouço quem diga meu nome enquanto pensa em outro.
E cansado de tantas vidas aqui, vejo que se tornou um vício me iludir.
Não entendo o mundo, nem este tempo que nos envelhece sem que passa.
Lembro-me de sua antipatia por quem normal se faça,
e vi que talvez, assim, mais goste de mim.
Mas por tanto culpar-me por existir, depressa lembro-me do porquê larguei-te aqui.
Descansa-se, então, com a paz de mim tomada, pois já não creio que justiça haja.
I-IV Jaezes de vida e morte
Há nisto humor desde sempre, ainda que agora menos aparente. Poderia eu ter escrito ontem, quando sentia o que agora finjo sentir. Se tanto gabo por assaltar o tempo, o que me impede? Anseio de ti o que não preciso, e cogito o que o substitua a fim de menos sentir. Também, menos, sinto-me entregue a ti, e mais ao pior que carregas como alma. És dono das mãos que esculpiram as mágoas em mim inspiradas. Graças a nós, a vida tem sido, pelo menos, ridícula. Faço de ti, então, ninguém sendo alguém, vulto dos que têm foco, dia sim, dia não.
Sorte tens se para mim és algo, pois te garanto que és nada a tudo que seu nome fala. Não desejo que inexistas, pois manter-me-ia em versos bobos que lembrar-me-iam tão pouco. Que o destino venha, então, contar-me sobre mim e como repus seu fim. Se melhor ou pior, não importa, desde que preenchido não lembrarei do que, por tanto, fui vazio. E que finalmente a vida seja assim, sobre mim.
I-VIII Jaezes de vida e morte
Nesta terra que merca, generosamente, a inteligência dos homens que felizes desejam-se.
Com um golpe que dois coelhos mata, perde-se o que obriga a pensar e ganha o que faz-te querer comprar.
Quanto a vergonha, perde-se sem que saiba.
E diante do medo do que digo, acreditas eu roubar o que pouco foi te cedido.
Por ora, do que tens, pouco me instrui, e se em algo me fascina, basta-me lembrar do que fascinam me mais.
Nas dores vendidas, alguns felizes se tornam por deixarem de te-las, outros pelo ouro que tanto cortejam.
E aos que nem com olhos enxergam, que menos alegrias tenham então, pois a dor é oráculo para a real dimensão.
I-VI Jaezes de vida e morte
No instante em que aqui piso sinto fome,
é como tanto impedem-me de prosseguir.
Acredito em infinitos contextos de vida, mas nesta página já não há o que eu não tenha dito ou vivido.
Tenho debruçado-me sobre diferentes mesas, ainda vindo de romances sem quem me queira.
É que a ambição pela vida é grande, sermos um do outro é só o mínimo para sermos amantes.
Repulsa-me a forma que me ouço, e não me quero calado.
Escuto-me para não ser você quem escuta.
Inconsistência é um presente dado-me de graça para que a esperança nada faça.
Sou, mais uma vez, subestimado por quem superestimo.
O amanhã dos positivos vem fazendo deles apaixonados, e, como piada, mortos pelo acaso.
Sua loucura combina com minha escrita, sua agonia com minha vida.
E que sentimentos são estes que escrevo sem existir? Há, aqui, muito por ti.
Estou certo que esperando por mim estás, pois é sempre minha vez de falar.
E como qualquer outro erro, durmo, sem que eu algo diga, pois para mim és mais uma besteira da vida.
Vida que de nada adianta tirar-me, pois me enlouqueço como quem vive de arte.
I-XVI Jaezes de vida e morte
Por aqui, matando o tempo, penso em crimes que, sem coragem, não cometo.
E julgando, tenho lembrado-me o que agora traz-me espanto: vivos são evidências que fazem de mim morto, e mortos fazem de mim coisa alguma. Dediquemos então a vida à gente assim, pondo-os a rir ou a se irar, livrando-os de se matar.
Digamos que voar é besteira para um mundo que voa por si só,
que nos leva parados ou não, ansiosos pelo passado, alheios ao futuro.
Encontremos um dia as costas de quem deixamos,
pois tanto ando que sinto-me voltando.
E mesmo quem paciência tem, não a tem quando a perde.
Que confessem então, desta vez, o que fizeram e o que merecem.
Esses homens que, rodeados por fumaça, acham sempre ar para zombar de nossas desgraças.
I-XVIII Jaezes de vida e morte
Contemplando a vida,
inspirado na saúde e na doença alheia, perdi a melhor parte.
Um estrondo, desta vez trazendo alguém, que ao ver percebi ser mais de três,
fez-me faltar a disposição à civilidade.
Fingindo não ser daqui, me desmenti por tanto instruir.
Mas nada soa fatídico quando se instiga o irrealismo,
fazendo-nos crer andar sob um destino por nós escrito.
E de tantas ali, todas escolhi,
e de todas, uma ouvi o que, para mim, seria brecha para outros fins.
Bastei mentir para tornar-me convicto e uma noite ter-me contigo.
E aos tropeços ímpios diante de si, veio a ingenuidade que aos homens serve de auxílio:
Via-me tímido e pouco precavido, logo eu, quem tanto sorriu e esta noite constituiu.
Nos sabotamos, criando no erro o que nos faz sentirmos certos.
Não é mais prazeroso que o contrário, porém é mais que quando nada se faz.
E desta vez, tudo soa fatídico quando questiono meu destino:
Este que o início com incerteza esperei e o final com convicção aguardei.
Que tenhas mais criatividade que meu fim, e faça de ti alguém sem mim.
I-II Jaezes de vida e morte
Desejo instruir-me pelos erros, mas não pelos mesmos, exceto tantas vezes repetir amar, e por fim falhar para recomeçar. E quando eu socorro gritar, quando eu no fim do poço me mostrar, não me acuda. Deixe que eu vá, para que eu arrependa e volte, não tão breve como imaginas, mas ainda assim breve. Não tenho todo tempo do mundo aqui, o tenho lá, onde não quero estar. Então como não me desesperar? Há adrenalina no que passo, no que duvido, no que defendo, há prazer em esclarecer si mesmo. Sinto-me viver o que não tem preço.
É atormentador, é físico, é você que sente. O melhor prostíbulo para o pior dos narcisos. Um mundo feito para fazer-te herói, vítima, do início ao fim, sem que haja fim. Acordo, não por mim, mas por promessas, ética e, algumas vezes, curiosidade. A esperança que tanto move montanhas, coisa alguma tem movido. Forçadamente, tenho isto feito sozinho.
Não importa o sentimento, se está no palco dará ao público o que mostra-se ser, que tu te doas se há o que doer. Se neste mundo adaptado ainda duvide: deixe de sentir e o aniquile, pois não há realidade sem quem a sinta. Tão rápido quanto critica, haverá quem o atiça, garanto. Sob disfarces, está em ti, o todo imbuído, fazendo de ti aposta, se irá e se crerá. Retornar seria deixar de entender, e como poderia eu deixar de saber se não sabendo mais? Por conhecimento já fui entorpecido, já demais comprometi-me ao pressuposto de quem são e o que são. Não há vitória contra quem vê além do que vê. Encurvo-me pelo peso do que sei e, com o peso do que piso, sinto-me premido. Amado sei de ser pelos que daqui são, pois se há quem ouça, deve haver quem entenda.