I-XXI Jaezes de vida e morte
Esquecendo pesadelos à medida que tenho outros,
arrependo-me do último que, aos porcos, jogou-me.
Era dor, não medo. Era raiva sem ambição.
E diante da injustiça, pouco me importa ter vida,
importa-me mesmo ser visto como ingênuo sofrendo
por privilégios que não tenho.
E quem garante ser eu se os sinais do meu corpo removeu?
Quem de mim lembraria sem as marcas que louvam santos que sofriam?
Estava sem tempo em meu tempo, temendo medos que não temo.
Morrendo como ignorante após décadas sendo hierofante.
Mal mais culpo os males dos meus romances, nem invejo alheias aventuras triunfantes.
Carregado ao único mundo que posso ser seu,
fez de minha fé cristã coisa vã.
Vivi pesadelos que fingem matar-me e orei por deuses que fingem libertar-me.
Fizeram das coisas minhas besteiras humanas, coisas de vivo, coisas da Terra.
I-VIII Jaezes de vida e morte
Nesta terra que merca, generosamente, a inteligência dos homens que felizes desejam-se.
Com um golpe que dois coelhos mata, perde-se o que obriga a pensar e ganha o que faz-te querer comprar.
Quanto a vergonha, perde-se sem que saiba.
E diante do medo do que digo, acreditas eu roubar o que pouco foi te cedido.
Por ora, do que tens, pouco me instrui, e se em algo me fascina, basta-me lembrar do que fascinam me mais.
Nas dores vendidas, alguns felizes se tornam por deixarem de te-las, outros pelo ouro que tanto cortejam.
E aos que nem com olhos enxergam, que menos alegrias tenham então, pois a dor é oráculo para a real dimensão.
I-XIII Jaezes de vida e morte
Teu corpo é mapa de vossos capítulos, de uma infância mimada a uma carcaça atirada.
E por um instante, diante de tantas peças largadas,
vosso vestido pareceu-me a única vítima da lâmina afiada.
Fez-se, então, de palco vermelho sob um oceano seco,
dando cor à capa, à introdução, e à arte.
Assim perde seu preço enquanto ganha valor.
Não desprezemos quem tudo isso nos trouxe, pálida mulher que cor alguma pode mais perder.
Forço-me a observa-la com mais afinco, ansiando meus carmas deixar de ter.
Que valor há o cinza sobre esta cidade que nada nos impressiona?
Encontrando vácuo no vácuo, resta-me apreciar este fato.
Cabelos lindos, se imaginada de pé. Estonteantes olhos, se imaginados abertos.
Deleitantes lábios, se paciência nos resta para fantasiar.
Seria eu ainda mais insosso prostrado sobre este pavimento rachado.
Educação vã que nem sequer é lembrada. Um nada sábio, belo e apaixonado, ainda é nada.
Mulher, de tudo que fizestes, é nada para mim. E tão pouco sou eu para todos.
Sei que esteves assustada pela lâmina que pudera adentrar-te, e morreste sem que respirasse.
Ainda assim, não a ouviria se algo pudesse contar, pois sei que não ouviria a mim.
Sei disso com base alguma, sei porque quero saber.
Finjo que sei. Consequência por viver e tanto ser impedido de morrer.
Tenho feito assim, mas já antes disso não gostava de mim.
Há um homem, talvez amigo antes de assassino, talvez erudito antes de estúpido, talvez sem antes.
Talvez este homem aqui nunca estivesse se não por você.
Tanto alucinar não me faz deixar de ouvir o mar,
como o vazio não me fez deixar de as rosas notar.
O chão é pedra, esculpida uma a uma, e delas são os muros e as pilastras.
As lâmpadas são dispensáveis diante da luz da lua.
Há areia até aqui, trazida pelo vento e pelos pés dos que andam.
Para que presumir sobre a orla se cada grão tem sua história?
Já ouço cães, ouço alguém, ouço paços, e nada se mostra.
É a distância. São fatalidades.
É o bom gosto do destino sobre arte.
I-XVII Jaezes de vida e morte
Estava eu imerso há poucos instantes,
exausto por nadar, pressionado por tanto o ar segurar.
Fui salvo por uma colérica besta que, ao abocanhar-me, fez-me acordar.
E ao lembrar de minha vida, esqueci-me de outras.
Mas não me esqueço daquela que se mostra bela,
que me faz tantas noites perder tentando ela rever.
Lembro-me de dias e horas, dos países e das cidades.
Sorte minha ser entre todos o único em seu coração,
pois sou ingenuo como os bobos, e malícia alguma trago das vidas que sofro.
E antes que qualquer coisa eu pudesse a indagar, sumiu-se como mágica,
deixando-me como testemunha de tanta besteira inventada.
E sentindo mais do que lembro, sofro por saudade dessas vidas pintadas ao relento.
I-XI Jaezes de vida e morte
Intermináveis beijos vossos que minha juventude arruína,
não explico de melhor forma se não franzindo o que tenho de rosto.
Ferve-me o sangue.
Recorda-me das estradas que me lembram não estar em outras.
Ouço bobagens do que tenho sido e fatalidades que me aguardam.
E diante de ti, que rancor algum ouves, és mais feliz do que deveria.
Retornarei então, talvez, com uma carta ou duas, lembrando-nos desta cidade que, nascida de mim, tanto esquece-me das boas coisas. E o silêncio que aos outros significa, nos soa como desculpas de almas distraídas.
Odiando-o não me despeço, pois viveria por ti apenas para que eu não viva por mim.
Seus sonhos, faria-os meus dois ou três, esperando, da fé, algo bom.
E diferente do épico lírico baiano que, no português, tanto acreditam propositar seus erros, vivo crucificado,
às vezes por menos, muitas vezes por menos ainda.
Mas não temo a morte que só ameaça, lembro-me de ti, que aqui faz-se de graça.
Aos que, lendo-me, desacreditam na justiça, vejam destas ofensas justiça que faço por mim.
Santifico-me por guiar quem mal compreende, os dizendo: besteira essa de querer entender egos contundentes.
Aprendam o caminho de casa ao sair dela, orando para que os livrem do que, de volta, os levem a ela.
E livrem-me destes homens que, de todos os tempos, têm gastado apenas o meu.
I-V Jaezes de vida e morte
Entre estas quatro paredes, a presença da enfermidade, estes asseados lençóis frequentemente trocados, as respirações alheias que tanto incomodam-me, aquele vão sem porta que, de dia, nos dá vista do mosaico. Por lá, sem avisos, entram fogos em vidros, carregados por senhoras e senhoritas que me confundem por serem iguais.
Pergunto-me como é sê-las, como seria não morrer, lembrar de nós, perder o sono por nós, perder a noite pelo pouco que somos. O que passaríamos a ser com seus atos se não as mesmas pestes que nos trariam de volta ao coma? Ainda assim, recebo esperança de onde, aparentemente, elas estão. Esperança forçada, esperança que nunca tive, esperança que, sem questionar, engulo, pois peito algum tenho para seus corações rasgar ao ver-me finar. Ser recebido, durante a noite, por algo que não se mostra muito além de luz, e age como o mais iluminado dos anjos, é o que faz o fogo perder seu lugar.
Amigo meu, como pode contentar-se de satisfação por mulheres que, apesar de dedicarem a noite a ti, não são suas? Esquece-se da racionalidade, pois teu sonho está na posse dos homens que as têm, que podem espera-las, sem medo algum por agora estarem aqui, diante de ti.
Até poderia eu fazer deste um momento de minha história, tornar isto um teatro que me instiga memórias, contudo, sua companhia me incomoda. Oficializo o fogo como patrono desta vida e tende a repudiar-me, maldito moribundo. Se por algum amor alcançasse a irracionalidade, se poesias de ti transbordassem, se com tortuosos gestos alguma alma cativasse, se alguém por ti enfim se apaixonasse, não estaria tu nem um pouco perto de quem se apaixona. Lembre-se desta vida que o condena e ponha-se em tua cova.
Presença inestética que moteja minha história, e faz deste meu mundo o pior que se paga para ver. Quem dera poder eu levantar-me e sair por onde entrei. Nada mais coerente que minha ira diante do dinheiro com porcaria gasto, por um mentecapto que subiu ao palco. Penso que, no fim, apenas não quero ser eu estes quem saem. Nem sequer sei o que mereço para saber se mereço. As rédeas de meu destino foram tomadas, e punem-me sem que eu saiba por quais atos. Maldade esta que existe entre nós, vivos. Como encontrar misericórdia se não assim? Não espero cuidados quando morto, pois a essas mulheres desejo vida. Invejo os que aqui entregam-se a morte sem que um dia vão.
I-II Jaezes de vida e morte
Desejo instruir-me pelos erros, mas não pelos mesmos, exceto tantas vezes repetir amar, e por fim falhar para recomeçar. E quando eu socorro gritar, quando eu no fim do poço me mostrar, não me acuda. Deixe que eu vá, para que eu arrependa e volte, não tão breve como imaginas, mas ainda assim breve. Não tenho todo tempo do mundo aqui, o tenho lá, onde não quero estar. Então como não me desesperar? Há adrenalina no que passo, no que duvido, no que defendo, há prazer em esclarecer si mesmo. Sinto-me viver o que não tem preço.
É atormentador, é físico, é você que sente. O melhor prostíbulo para o pior dos narcisos. Um mundo feito para fazer-te herói, vítima, do início ao fim, sem que haja fim. Acordo, não por mim, mas por promessas, ética e, algumas vezes, curiosidade. A esperança que tanto move montanhas, coisa alguma tem movido. Forçadamente, tenho isto feito sozinho.
Não importa o sentimento, se está no palco dará ao público o que mostra-se ser, que tu te doas se há o que doer. Se neste mundo adaptado ainda duvide: deixe de sentir e o aniquile, pois não há realidade sem quem a sinta. Tão rápido quanto critica, haverá quem o atiça, garanto. Sob disfarces, está em ti, o todo imbuído, fazendo de ti aposta, se irá e se crerá. Retornar seria deixar de entender, e como poderia eu deixar de saber se não sabendo mais? Por conhecimento já fui entorpecido, já demais comprometi-me ao pressuposto de quem são e o que são. Não há vitória contra quem vê além do que vê. Encurvo-me pelo peso do que sei e, com o peso do que piso, sinto-me premido. Amado sei de ser pelos que daqui são, pois se há quem ouça, deve haver quem entenda.
I-VI Jaezes de vida e morte
No instante em que aqui piso sinto fome,
é como tanto impedem-me de prosseguir.
Acredito em infinitos contextos de vida, mas nesta página já não há o que eu não tenha dito ou vivido.
Tenho debruçado-me sobre diferentes mesas, ainda vindo de romances sem quem me queira.
É que a ambição pela vida é grande, sermos um do outro é só o mínimo para sermos amantes.
Repulsa-me a forma que me ouço, e não me quero calado.
Escuto-me para não ser você quem escuta.
Inconsistência é um presente dado-me de graça para que a esperança nada faça.
Sou, mais uma vez, subestimado por quem superestimo.
O amanhã dos positivos vem fazendo deles apaixonados, e, como piada, mortos pelo acaso.
Sua loucura combina com minha escrita, sua agonia com minha vida.
E que sentimentos são estes que escrevo sem existir? Há, aqui, muito por ti.
Estou certo que esperando por mim estás, pois é sempre minha vez de falar.
E como qualquer outro erro, durmo, sem que eu algo diga, pois para mim és mais uma besteira da vida.
Vida que de nada adianta tirar-me, pois me enlouqueço como quem vive de arte.
I-I Jaezes de vida e morte
Falho por ingrato ser, certo por orgulho ter,
e se honra alguma resta, que eu não a perca por você.
Todavia, por amor, à prova me poria,
pois são as contradições e as questões que sustentam meus gritos
que faz-me soar convicto.
Honra mantida para ser perdida.
A minha salta, do peito e da alma,
querendo largar-me nesta vida abalada.
É cobiça por calor mundano.
E se és tu quem queimas, morro eu então congelado, eternamente apaziguado.
Pobre carcaça que, por paixão, foi traída neste fim, e até ao fim foi leal a mim.
Matar-me-ia se algo assim a fizesse passar, pois sei que de fato faço.
Contradigo-me querendo viver por você, e querendo pela arte morrer.
E são estas as besteiras que estendem meu tempo,
fazendo de mim um maribundo sem vencimento.
Assim vivo inapto ao que apta tanto vives, amando presentes sem futuros e, Deus, como podes ser feliz?
Quero escrevendo estar como se aqui algo pudesses notar.
Faria de mim todas as vítimas de teus futuros.
Que haja então, um dia, misericórdia que me livra de, nisto, tanto ver coisas,
coisas que servem de pólvora à honra que me fora outrora.
I-III Jaezes de vida e morte
Procurando por você, encontrei o que tem feito-me esquecer. Vi-me amaldiçoando os dias e as escolhas, dando-me em partes a quem dá-me por inteiro. E onde guardo o que tenho de bruto, nada me serviu de joia. Envergonho-me deste homem que, há tanto, escreve anseios que já não mais têm. Quis ver-me feliz aqui, e noto que, feliz, tudo esqueci. E és tu que denotas o que, por desrespeito, tenho feito. Perdoa-me amor por tanto inspirar-me em dor, e que sejas tu a exceção desta vida, rotineira e reprimida.
Faria de ti a pretensão dos anos que me fui casto, e ter-me-ia louco, pois serias um garoto. Então basta-me louco aqui, no confim entre mim e ti. E se fujo do que poderia ter sido, lembro-me que mais disso temos tido. Faço, então, do que quero o que tenho, a fim de livrar-me dos anseios. E espero, tímido e covarde, que me tenhas sempre por sua vontade. Assim encerro dizendo amar-te, temendo descredibilizar esta arte que, no fim, bastaria ser lida por mim.