I-XXXVII Jaezes de vida e morte
Por aí, ando sem haver luz, como se coisa alguma temesse mais.
Pernas faziam-se bambas e as mãos nunca abertas,
a pele suava, o coração sentia minhas obras inacabadas.
Sinto-me nem mais, nem menos fraca, apenas cansada.
É a exaustão por temer algo que há tanto se atrasa.
O que se mostra adiante já nem mais basta,
e para ti tantas coisas adiantam.
À direita, insanidade, à esquerda, melancolia.
E ainda me puxa ao alto para que eu viva pior agonia.
Que castigo!
Mal chega a criatividade botando-te em palavras e já queres as últimas.
Que doença é esta que me faz pensar só haver você?
Escrevo por cima do que já havia dito, por vergonha,
e por ainda querer ser lida, mesmo que incompreendida.
Que eu me torne morta, se é a vida que me faz perdida.
I-XXVIII Jaezes de vida e morte
Este fato infundado que afirma ter-me como teu, está sob loucura!
Hoje apego-me à desonra de meu cargo, e não mais me rebaixo.
E quem por carência faça, por paixões insensatas, são donos de mentes devastadas.
Ouvir-te-ia até o fim se permitir-me mudar o que falas de mim.
Daria ao chão o que faz de mim foragido neste mundo perdido.
Aproxime-se de mim, diga fazer isto por si,
surpreenda-me nesta história nossa, dividida entre minha e vossa.
Se ambos tivéssemos direito às partes.
Se permitisse-me ter, além da minha, também a vossa.
Se ainda se encaixassem.
Seriam só partes de um fim sem vantagens.
Recebo-lhe, então, com a maior das alegrias e a menor das gratidões.
Viver o que não me tem pertencido,
sofrer pelo que já havia aprendido,
são exemplos de irônicas misericórdias que tanto dispus-me a receber sem que eu lembre de querer.
I-XXXI Jaezes de vida e morte
Perdi-me no bom gosto, mal consigo vê-la do pé ao pescoço.
Pedi para que não me encarasse, mas que Deus me amparasse.
Sua face foi-me um escopo, onde lapidei um futuro tomado por outro.
E há quem diga que não a perdi, talvez seja porque nunca a consegui.
Assim, querendo ou não, acabo sendo o limite do que chamo razão.
E por misericórdia ou por culpa, oro por quem jamais saberá sobre esta angústia,
pois mal existem se não sei que vivem.
Mas bem sei que afundando ou se elevando,
há saudade de sobra nas noites que me lembram passados anos.
I-XXVII Jaezes de vida e morte
Soas como um trovão, partindo minha realidade.
Minha mente não tem sido a mesma desde que substituíste meus amigos.
Tens sido um clarão, mostrando-me o lado bom desta cidade ter um fim.
O verão passou por aqui, e desta vez não encontrei seus sinais.
Tenho saído com o Sr. Paul Sartre enquanto penso nos prêmios do mestre Pamuk.
Espero ter o que quero no fim de tantas palavras.
Espero não encontrar o que equivocado me faça.
Assim perambulo pelas obras, sem hesitação, apenas por não suportar um não.
Caímos como relâmpagos, cansados de tudo já inventado.
Ambos restaremos, e apontarei a você a culpa de nos conhecermos.
Voltarei aos céus por asas alheias, preservando um pequeno rancor,
para lembrar-me das vidas que acabaram antes dos dias curarem a dor.
I-XXXV Jaezes de vida e morte
Crânio sem esqueleto, previna-me, ó beldade exilada, do tropeço.
Por nosso parentesco revogado, por nosso acordo impugnado.
Esculpida alma em tenesso, tão pesada quanto meu anseio.
Abra-me qualquer brecha para além deste meio.
Previna-me do que quero, pois cuspo o que tateio.
Encontre-me desolado, para que de mim não queira cuidado.
E eu padeça, sem ti, sem mim, sem quem queira, por décadas e centenas.
Talvez eu mude, mas as coisas não irão.
Não tens ideia do quão grave foi o que vi.
Canso-me de ouvir-te fingir, de temer me extinguir.
É triste por ser o último inverno,
é uma benção por ser o último verão.
Quão poético Senhor, quão profundo o sermão.
Se mais cego estivesse, confundir-me-ia com Seol,
ou com qualquer vácuo em vão.
De onde virias se não do fim,
se dizes saber o que será de mim.
I-XXVI Jaezes de vida e morte
Mais um ano que nada ensina.
Preciso de ti, não preciso?
Consertou si mesmo. Foi por mim, não foi?
Percebi pela forma que dizes fazer por você.
Contido no abraço, como quem não atravessou o mundo para ver-me.
É. Eu não preciso de ti, preciso?
Questiono-me enquanto ouço sobre as diferenças das nações.
Estamos falando de nós?
Dizes ter abandonado as praias pelo dinheiro que lhe falta, sem quem lhe prometa, aqui, uma vida adequada.
Se há quem prometa, pergunto-me a razão desta conversa desenfreada.
Sugiro lugares para que, como Romeu, possas aguardar-me seguro enquanto concebo o amor como o fim do mundo.
Para a maioria, bati com a cabeça. Para mim, perdi-me na carência.
Matei-me por ti em centenas de suposições. Metade, agora, não faria.
Nego-te o mundo enquanto lhe desejo o melhor.
A indiferença faz disto uma lenda. A platonicidade é o que nos sustenta.
O preço para escrever sobre amor é o mesmo do dinheiro.
Queria eu, então, ter ainda mais tempo.
Assim divirto-me como um plebeu,
tendo como única diversão as doenças de quem este reino ergueu.
I-XXIX Jaezes de vida e morte
Quero tentar algo sutil:
Agindo como se o que sucede não acontece,
e o que parece não seja veste,
para viver uma incoerência feliz, perdendo apenas o que dirão me suprir.
Então oro por algo certo,
espero só quem volte de lugares péssimos.
Faço de mim da forma que vim,
como minha pele sendo o corpo, não sendo eu só alma sob o Todo.
Lembrei de ti toda vez que me vi,
pois sei que lembras de mim por viver o que não conheci.
E antes que morra ingênuo ao acaso,
tento fazer de mim menos coitado.
Feliz por besteiras que mal faz-me rir,
olho para quadros que nunca entendi.
Fascina-me saber que passam por aqui,
e me alegro do tempo que resta usufruir.
I-XXXIII Jaezes de vida e morte
As vezes que evoquei seu nome,
confesso, não tive fé.
Temi estender tempos que nada servem.
Oro por cautela, por alguns dias, não muitos.
E se, com o pouco, ter eu alguma certeza,
livre-me então das marcas que me remetem à demência.
Que eu toneladas pese,
suficiente para ter de Sansão ambas as suas mãos.
Que eu ocupe seu tempo e lhe atrase os sonhos.
Que seus fios testemunhem as besteiras que me consomem.
Quero gabar-me dos meus medos e rir de seus animais.
Quero dizer que o que diz é mentira, justificada por coisas banais.
E terei sempre razão, pois o que tens para dizer de ti, tens guardado para si.
Em vão.
I-XXX Jaezes de vida e morte
Caminhando por delírios,
presencio mais do que deva ser isto.
Qual fato rege a vida de quem mal fato é?
Sobra quem eu repudie, imensamente maiores que eu,
afundam meu ego com besteiras de plebeus.
Mas o plebeu sou eu.
Já nem sei se mereço o que tenho
ou se merecem o que concebo.
Apenas escrevo como o passado sem carregar pretextos.
Anseio ser visto por quem seja adequado, não por quem repete boatos.
E talvez lugares são os que não sejam aqui.
Lugares que permitam quem queira existir.
Mas o ego fala grande,
fazendo-me afundar nesta vida como amante.
Ouvindo Dele o que fieis não entendem, questionando
o que demais os fazem carentes.
E a tarde logo chega, fazendo do breve a oportunidade de sentir-se sóbrio.
E os instantes a prevalência de meu ódio.
I-XXIII Jaezes de vida e morte
Intrigaram quem, um dia, questionou-me sobre minhas armas.
Disseram ter sido eu, um voluntário de devassas jornadas.
Se colocarem-me a prova, inventarei um problema.
Se tirarem meu tempo, direi-lhes ofensas.
Assim, as coisas vão sendo o que são, dando-lhes
o que rir ao caminho do lar, onde ser mais um fez-me enfermar.
Não me dê nomes piores então, se não os meus que já os são.
Diga-me menos dessas bestices malditas.
Mostre o feito, não o que faço,
livre-me de estar nas causas de quem não mato.
E cruzando o limite da alheia liberdade, há quem leve coisas aos outros
apenas para ter quem o indague.
Se questionados, dirão trovas romanas e algumas de gálatas.
Se violentados, seremos nós os donos da famosa marca.
Assim vai esta vida, quase tão cara quanto os sapatos
de quem a banaliza.
E orando por quem nos ampare,
sobra-a nós esperarmos que tais dias acabem.