I-LIII Jaezes de vida e morte
Diante de tanta enfermidade, por nada sofro que me adoeça.
Amarguro-me sob luxos que me separam dos apuros,
e falho estando bem, lembrando-me dos anseios que trouxe ao mundo.
Privilegiado por chorar e viver para lembrar,
duvido ser vício, duvido não haver sentido no que lastimo.
Se há alguém, não sou eu quem a vida, com regalo, atravessa.
Não serei eu quem peregrina aos refúgios de quem espera.
Nego dizer que arrisquei por não haver o que fiz.
Perante aos infelizes em busca de tempo,
creio eu ser mais feliz.
Culpam minha índole que abandona a caça,
que, por qualquer prazer, se desvia da estrada.
Índole que me leva ao longe, ao fundo, respirando e desvairando,
alcançando e pensando, e menos me culpando.
Meu ápice do prazer é à tona trazer algo meu que nem sei se sou eu.
É pouco caso fazer do que conheço, e aos outros dizer que tenho o que mereço.
Gozo pelo privilégio de não ser exposto,
por o luxo de amar alguém pelo prazer do desconforto.
I-LXV Jaezes de vida e morte
Tempo indomesticável sob céus superestimados,
que diz me ver sem que eu queira saber,
no que me esforço humilha-me por ter que crer.
Crente na igreja que se fecha por não ter o que presta,
vejo por vocês quando não há o que resta,
sob um futuro que nos leva sem trégua.
Apressados, disseram-me ir construir seus lares,
a noite está perfeita, mas temem presságios de maus olhares.
Os disse ser eu o último visto por Deus,
e que nenhum traço de desagrado ouvi sobre o que os envolveu.
Mas crianças são sempre espantadas temendo dias que se acabam,
me pergunto ser esta a razão dos cruéis castigos que as matam.
Partilharia minha mente com quem queira,
se, dado a mim, fosse um corpo que me deleita.
Não sei o que fazer, mas é instintivo querer,
é sofrer por tentar ser, e perder por simplesmente viver.
Fascinado, perco-me na época das poucas coisas que me agradam.
I-LXVII Jaezes de vida e morte
Outra vez chamado à vida,
diante de amigos que se tornam relíquias,
ajo feliz escrevendo aqui: Voltei para casa menos carente,
sorridente sobre caminhos que já me fizeram descontente.
Que a vida me dê mais dois ou três dias para ser esperto,
para que a noite explique melhor as verdades e o que é certo.
Não acreditaria se pudesse ver, não confiaria no que prometer,
pois já estou aqui a confessar receios inventados,
tenho o vício de fazer-me miserável.
Assim não menciono o que devia, não sinto o que vivia,
espero de coração que sejas minha última euforia.
E está tudo bem se o mundo está aquém,
pois é instintivo estar embaraçado, tudo está sempre ao acaso.
I-LXI Jaezes de vida e morte
Há tanto digo ao escuro:
Perdoe meus reflexos, meus péssimos hábitos,
cada noite sinto-me melhor sendo acuado.
Já levo o tempo para perder-se comigo,
atrasado, atado aos embaraços,
um presente como o passado.
Instinto infeliz que me pune por nada,
fez-se em minha casa, tomou-me a alma.
Temendo jogarem-me fora, vi-me perdendo a honra:
"Os erros não são meus, o mundo não se toca!
Chances nada adiantam se o dia sempre volta."
E tudo soa como piada para que alguns guardem mágoas.
Não que eu sinta o que escrevo ou de tudo me abstenho,
é só vício ludibriar-me por inteiro.
I-XLI Jaezes de vida e morte
Com única oportunidade,
acendendo o inferno sob o rio Miskatonic,
coberto por santa ingenuidade,
quero quem ouça minhas palavras treinadas.
Tenho ideias melhores para os homens,
escondidas frente aos olhos de Azathoth.
Vivo o anseio pelos dias seguros,
pela luz que leva ao início de tudo.
E se, antes desta chance, der-me um trato,
que eu suba ao Thánatos, e jogue ao Hades,
Voltaire, que tanto fez-me insultado.
I-XXXIX Jaezes de vida e morte
Brisa que entra pelas janelas fechadas,
que estrala as escadas que ninguém passa.
Assim ouço sem ter quem fale,
e fecho portas abertas por almas passadas.
Por que as abre se não as precisa?
Por que preserva as mãos se segurar é em vão?
Preserva o ódio faltando-te expressão,
e me atinge sem ser eu quem te reprime.
Muito choras pois, além de ódio, mágoa te aflora.
E o espero voltar quando dizer que zarpará,
pois sempre esquece-se de que jaz.
I-XXXVIII Jaezes de vida e morte
De pé, diante do crime,
vejo que sorte a minha estar em seu time.
Estavam desoladas em dias romanos,
esmolando o corpo a Giacomo,
por noites longe do chão de Marco,
que sobre Teodoro fez-se espaço.
Minha vida e meu destino foram algo até me descuidar dizendo isto alto:
Ao meu lado, amigas e vestidas, pedi para que fugissem da intriga daquele quem as queria despidas.
Estamos fora do mundo que criamos - disseram as vítimas em prantos.
Apontem então as vistas à Florença, para que, se abatidas, percebam
que quiseram conceber famílias.
Mas o castigo de quem fala é bala,
e vi, orgulhoso, minha noite ser acabada para tê-las salvas.
I-XXXVII Jaezes de vida e morte
Por aí, ando sem haver luz, como se coisa alguma temesse mais.
Pernas faziam-se bambas e as mãos nunca abertas,
a pele suava, o coração sentia minhas obras inacabadas.
Sinto-me nem mais, nem menos fraca, apenas cansada.
É a exaustão por temer algo que há tanto se atrasa.
O que se mostra adiante já nem mais basta,
e para ti tantas coisas adiantam.
À direita, insanidade, à esquerda, melancolia.
E ainda me puxa ao alto para que eu viva pior agonia.
Que castigo!
Mal chega a criatividade botando-te em palavras e já queres as últimas.
Que doença é esta que me faz pensar só haver você?
Escrevo por cima do que já havia dito, por vergonha,
e por ainda querer ser lida, mesmo que incompreendida.
Que eu me torne morta, se é a vida que me faz perdida.
I-XXXVI Jaezes de vida e morte
Pessoas relutam a se tornarem outras,
ainda assim, se eu fosse tu, de novo, aqui não me porias.
É assim tão gratificante ser este herói que se lembra de mim?
O inverno mal apazígua este calor,
que das curtas férias volta irritado.
Tento apressar-me, e me exalto nos passos.
Minhas orações secam as folhas,
e me iludo nesta vitória que não me traz vantagem ou outra.
Desprezo cada segundo que o ego torna-me virtuoso.
Já sofro por ser certo e por desgosto,
e por ver vivo quem quero morto.
I-XXXV Jaezes de vida e morte
Crânio sem esqueleto, previna-me, ó beldade exilada, do tropeço.
Por nosso parentesco revogado, por nosso acordo impugnado.
Esculpida alma em tenesso, tão pesada quanto meu anseio.
Abra-me qualquer brecha para além deste meio.
Previna-me do que quero, pois cuspo o que tateio.
Encontre-me desolado, para que de mim não queira cuidado.
E eu padeça, sem ti, sem mim, sem quem queira, por décadas e centenas.
Talvez eu mude, mas as coisas não irão.
Não tens ideia do quão grave foi o que vi.
Canso-me de ouvir-te fingir, de temer me extinguir.
É triste por ser o último inverno,
é uma benção por ser o último verão.
Quão poético Senhor, quão profundo o sermão.
Se mais cego estivesse, confundir-me-ia com Seol,
ou com qualquer vácuo em vão.
De onde virias se não do fim,
se dizes saber o que será de mim.