I-LXVII Jaezes de vida e morte
Outra vez chamado à vida,
diante de amigos que se tornam relíquias,
ajo feliz escrevendo aqui: Voltei para casa menos carente,
sorridente sobre caminhos que já me fizeram descontente.
Que a vida me dê mais dois ou três dias para ser esperto,
para que a noite explique melhor as verdades e o que é certo.
Não acreditaria se pudesse ver, não confiaria no que prometer,
pois já estou aqui a confessar receios inventados,
tenho o vício de fazer-me miserável.
Assim não menciono o que devia, não sinto o que vivia,
espero de coração que sejas minha última euforia.
E está tudo bem se o mundo está aquém,
pois é instintivo estar embaraçado, tudo está sempre ao acaso.
I-LI Jaezes de vida e morte
É um espetáculo
minha insistência de sentir o que não quero viver.
Quando prendem-me com tantas correntes,
sinto-me tão livre quanto fui aos treze.
Pelo menos rimos quando caímos,
definhamos enquanto nos amamos.
Sinto o mundo impressionado por sermos
cada vez menos quando mais nos gostamos.
Mal sei a origem do que me faz incontestável,
mas sinto-me seguro sobre tudo que me trouxe ao báratro.
Não é como quando vivemos para aprender, ou morremos para voltar a crer,
é como sentir-se enganado sobre o que é dito de você,
sem mar que se abra por aquilo que crê.
Não faço por diversão, por rebeldia ou por fé.
Não faço por mim, e não me atreveria a fazer por você.
Faço por um racional instinto que persevera.
Como lhe disse sobre as japonesas velas entregues ao mar,
sinto ser eu o único audaz a me guiar.
I-L Jaezes de vida e morte
Vistes-me descer os céus, por que perguntas de onde vim?
Usas a liberdade mas esqueces da percepção,
exatamente como fui, carregando os homens com ambas as mãos.
Se dificilmente vê-se jovem, perdoe-nos enquanto ainda somos pobres.
Crio o que tens feito, a insegurança alimento,
e me empreguiço para evitar o que tanto tento.
Me apaixono por como ages sob o único sol que vejo,
mas a noite vem, lembrando-me ser ambos criados pelo Mesmo.
Prometa-me então, Charn, que à Londres nunca me levará,
pois me vicio em tu que me mata devagar.
Ouso enraizar-me ao chão,
abafo o mundo, guardo o perigo,
e mal sei sobre a loucura de quem cogita além do instinto.
I-LVIII Jaezes de vida e morte
Os dias que têm vindo
não me levam tão longe quanto cobiço.
Derramando virtudes à medida que preciso,
anseio voltar por este caminho.
Curando, adoecendo, fingindo ver o que não vejo:
As vestes caras não combinam com minhas marcas imaginadas,
e minhas palavras falsas fazem-me um oportunista camarada.
Leve-me ou não a mal, eu irei de qualquer forma ao caos.
Todos meus discípulos se perderão,
tento a presunção antes de estar sob o chão.
I-XXXVII Jaezes de vida e morte
Por aí, ando sem haver luz, como se coisa alguma temesse mais.
Pernas faziam-se bambas e as mãos nunca abertas,
a pele suava, o coração sentia minhas obras inacabadas.
Sinto-me nem mais, nem menos fraca, apenas cansada.
É a exaustão por temer algo que há tanto se atrasa.
O que se mostra adiante já nem mais basta,
e para ti tantas coisas adiantam.
À direita, insanidade, à esquerda, melancolia.
E ainda me puxa ao alto para que eu viva pior agonia.
Que castigo!
Mal chega a criatividade botando-te em palavras e já queres as últimas.
Que doença é esta que me faz pensar só haver você?
Escrevo por cima do que já havia dito, por vergonha,
e por ainda querer ser lida, mesmo que incompreendida.
Que eu me torne morta, se é a vida que me faz perdida.
I-XLII Jaezes de vida e morte
Tarde, mas antes da noite,
invocaram-me, tanto repetiram,
dezenas suficientes para sentir-me contigo.
Acreditei vagar, mas tratam-me como vivendo aqui.
Dizem sentir como eu, mas não os vejo como vivi:
Sobre pegadas de Flammarion,
martelando um sólido céu que nos separa do passado,
por amor e por coisas que jurei nunca dar ao acaso.
E por rancor dos jeitosos rostos que, outros,
fizeram-me deixar de ver,
espero Artur compensar-me,
com tal rígida espada,
os frouxos homens desta távola
que nada me puderam fazer.
I-XXXIX Jaezes de vida e morte
Brisa que entra pelas janelas fechadas,
que estrala as escadas que ninguém passa.
Assim ouço sem ter quem fale,
e fecho portas abertas por almas passadas.
Por que as abre se não as precisa?
Por que preserva as mãos se segurar é em vão?
Preserva o ódio faltando-te expressão,
e me atinge sem ser eu quem te reprime.
Muito choras pois, além de ódio, mágoa te aflora.
E o espero voltar quando dizer que zarpará,
pois sempre esquece-se de que jaz.
I-XLI Jaezes de vida e morte
Com única oportunidade,
acendendo o inferno sob o rio Miskatonic,
coberto por santa ingenuidade,
quero quem ouça minhas palavras treinadas.
Tenho ideias melhores para os homens,
escondidas frente aos olhos de Azathoth.
Vivo o anseio pelos dias seguros,
pela luz que leva ao início de tudo.
E se, antes desta chance, der-me um trato,
que eu suba ao Thánatos, e jogue ao Hades,
Voltaire, que tanto fez-me insultado.
I-XLV Jaezes de vida e morte
Quando acabar o prazer, e seu sonho frustrado voltar,
pegue o que tens e dê-me um tempo.
Sei que agirá como se superou,
quando há minutos chorou por tolices menores que o marcou.
Quanto aos meus, não os perdi,
os escrevi para quando eu precise rir.
Mas o cansaço que os feriados me traz,
faz-me dormir antes de me lembrar.
E acordo suando, sob o mal desta cidade que,
há anos, vi-me aqui sonhando.
Não me digo arrependido,
os fantasmas daqui têm me distraído.
E tenho meu tempo gastado assentando esta casa,
um tanto irritado por não haver quem mais faça.
Estou crente que terminarei a noite ansioso,
e desfruto do dia com mau gosto.
I-XLIV Jaezes de vida e morte
Nascido e domesticado,
enquanto o céu é superestimado,
tenho sido ludibriado.
Sinto que me vê como não vejo você.
E tudo que eu pensei saber,
o que penso apender,
faz-me temer teu perecer.
O futuro abre-se como refúgio do presente.
Mas, Deus, estou apaixonado pelas vítimas
de anos precedentes.
E sei que pensam ver como os veria.
Sei que falharam por não serem quem deveriam.
Mas, como um tolo humano,
vi-me aqueus assombrando.
Ameaçaram cortar-me a garganta,
e riram juntos quando jantando.
Como voz apaixonada,
fingindo um inferno que vem do nada,
foi o que pude fazer por Acates,
que, ao menos, Protesilau mataste.