I-LX Jaezes de vida e morte
Sós sendo um e perdidos quando par,
a esperança é pouca e não a vejo acabar.
É a ironia de quem existe e persiste,
ser leigo quando aprendo e fraco quando insisto,
é a pressa de estar diante de quem me tem repelido.
Ensino fogo aos homens para olharem sempre a quem,
pois o controle que me tem fere-me quando se mostra e intervem.
Rogo então ao Pai antes das construídas morais,
para que eu presencie e seja vítima das hipocrisias angelicais.
Liberto-me de quem me tem,
e afundo-me sem carregar o ar que tanto faz reféns.
Lastimo apenas os rastros que se perderam nos anos,
recuperar uma porção será como portar oceanos.
Pois quando me provoca, noto-me fervorosa,
como se a fonte da vida é ter-me exposta.
I-LVII Jaezes de vida e morte
Nas minhas piores ideias,
atrevi dar-me mais que sete dias.
Montei o que me tire a culpa,
mas palavras têm se enferrujado na covardia.
Sobra quem peça perdão pela bagunça que
fazemos dos dias.
Lembro-me do ar escasso de Sodoma,
havia ainda tanto a ser discutido antes daquela escolha.
Mãe estava certa ao dar-me menos de uma semana,
pois já não havia onde por esperança.
O mundo sabia que eu jamais seria como ela,
eu carregava um futuro que seria enterrado depressa.
Por Deus, como foi bom viver,
um dia se desculpará por o que me fez perder.
I-XXXIII Jaezes de vida e morte
As vezes que evoquei seu nome,
confesso, não tive fé.
Temi estender tempos que nada servem.
Oro por cautela, por alguns dias, não muitos.
E se, com o pouco, ter eu alguma certeza,
livre-me então das marcas que me remetem à demência.
Que eu toneladas pese,
suficiente para ter de Sansão ambas as suas mãos.
Que eu ocupe seu tempo e lhe atrase os sonhos.
Que seus fios testemunhem as besteiras que me consomem.
Quero gabar-me dos meus medos e rir de seus animais.
Quero dizer que o que diz é mentira, justificada por coisas banais.
E terei sempre razão, pois o que tens para dizer de ti, tens guardado para si.
Em vão.
I-XL Jaezes de vida e morte
Como odeio aquele velho erudito que bufa seu cachimbo.
Está mais claro a medida que afundamos nesta fossa, Mariana.
Não se esclareça para me acomodar, já sou por nunca mudar.
Me fere gostar do que os incomoda,
e mais me machuca fingir que nada importa.
Vale a pena esquecer dos anseios que se fazem vãos,
mas me sinto miúdo por não ter o que fixa-me no chão.
Que eu enlouqueça, então, mantendo-me sensato,
"mais assustado que machucado".
Coragem ou necessidade falta às almas que não encarnam.
Vivem dos vislumbres de nossas vontades básicas,
curiosos sobre quem deles falam.
Existo, então, fazendo do nada menos ainda,
zombando dos que, de lá, trazem-me pistas.
I-XLVIII Jaezes de vida e morte
Finalmente, livre da maçante liberdade, tens-me,
mas não me tenho com tanta facilidade.
Lembro-me sendo algo como dezoito ou vinte e oito,
vendo-te surpreso por esta vida que não mudou
diante do mundo que muitos desolou.
Qualquer horizonte é euforia
desde que és tu que cobres minha vista.
Então o poupo das sortes desta noite,
não impedirei de sofrer o que o destino reservou-te.
Poupe-se de erguer-me a mão quando contento-me no chão.
Poupe-se de comparar-me ao mal,
pois não houve segundo que não fui igual.
E quando caído, enfraquecido e entorpecido,
preserva-me do romantismo, pois tendo ao transvio.
I-XLVII Jaezes de vida e morte
O vi e é verdade, como vulto sob arbustos,
cochichava sobre promessas de um futuro longe de influências.
Poderia eu ter o parado ali, mas era mau por si só,
e acreditei que ali mesmo se acabaria.
Ainda estava encantado pelas palavras dos criados,
desejando que, ao menos, meia duzia dita se realizasse.
Quando, sob controle do gim, estou a caminho de casa, os ouço aproximando.
Perguntam se meus temores são consequências dos rancores e,
o tempo dado-me para explicar que não os possuo,
prefiro fingir-me de mudo.
Não diga que é por acaso,
conheço o bem por minha tendência
de fazer da verdade sempre miserável.
Pois é tu que levado foi pelos amigos,
e não estou arrependido. Estou a caminho de casa
e já sinto o que fizeste comigo.
I-XLV Jaezes de vida e morte
Quando acabar o prazer, e seu sonho frustrado voltar,
pegue o que tens e dê-me um tempo.
Sei que agirá como se superou,
quando há minutos chorou por tolices menores que o marcou.
Quanto aos meus, não os perdi,
os escrevi para quando eu precise rir.
Mas o cansaço que os feriados me traz,
faz-me dormir antes de me lembrar.
E acordo suando, sob o mal desta cidade que,
há anos, vi-me aqui sonhando.
Não me digo arrependido,
os fantasmas daqui têm me distraído.
E tenho meu tempo gastado assentando esta casa,
um tanto irritado por não haver quem mais faça.
Estou crente que terminarei a noite ansioso,
e desfruto do dia com mau gosto.
I-XXXVIII Jaezes de vida e morte
De pé, diante do crime,
vejo que sorte a minha estar em seu time.
Estavam desoladas em dias romanos,
esmolando o corpo a Giacomo,
por noites longe do chão de Marco,
que sobre Teodoro fez-se espaço.
Minha vida e meu destino foram algo até me descuidar dizendo isto alto:
Ao meu lado, amigas e vestidas, pedi para que fugissem da intriga daquele quem as queria despidas.
Estamos fora do mundo que criamos - disseram as vítimas em prantos.
Apontem então as vistas à Florença, para que, se abatidas, percebam
que quiseram conceber famílias.
Mas o castigo de quem fala é bala,
e vi, orgulhoso, minha noite ser acabada para tê-las salvas.
I-XLIX Jaezes de vida e morte
Estou nervoso, mas não por estar mentindo,
temo coisas além de você e deste abrigo.
É a ansiedade por tanto desejar,
a incapacidade de esquecer o mundo que me faz viciar.
E culpa alguma sinto por vê-la chorar,
pois sei que não lhe resta tempo para durar.
Assombras um hipócrita que mata por futuros e julga prostíbulos.
Um fraco do tipo que chora por frustações que não vão embora.
Se julga-me não sei, mas sabes que para alguns o pior ansiei,
pois sou um ingênuo que nos zodíacos fiz-me e acreditei.
Há ainda quem aponte minha bondade santa, vendo-me como criança.
Calado e mutilado por quem permito e por quem insiste, sei que queres
mais uma vítima dessa tormenta, alguém que mostre, na arte, toda fraqueza.
Assim caminho longe e volto sempre, com coração frio e mente quente.
I-XXXVII Jaezes de vida e morte
Por aí, ando sem haver luz, como se coisa alguma temesse mais.
Pernas faziam-se bambas e as mãos nunca abertas,
a pele suava, o coração sentia minhas obras inacabadas.
Sinto-me nem mais, nem menos fraca, apenas cansada.
É a exaustão por temer algo que há tanto se atrasa.
O que se mostra adiante já nem mais basta,
e para ti tantas coisas adiantam.
À direita, insanidade, à esquerda, melancolia.
E ainda me puxa ao alto para que eu viva pior agonia.
Que castigo!
Mal chega a criatividade botando-te em palavras e já queres as últimas.
Que doença é esta que me faz pensar só haver você?
Escrevo por cima do que já havia dito, por vergonha,
e por ainda querer ser lida, mesmo que incompreendida.
Que eu me torne morta, se é a vida que me faz perdida.