I-LIX Jaezes de vida e morte
Lastimo nervoso nas revanches que levantam meu nome,
estive sonhando com outro mundo em silêncio, e notei meu desespero.
Se eu perder uma única vez, não me restará vida para rogar,
e, de novo, a mentira é a saída para me safar.
Na última noite bebi, e exaltei os homens
que me forçaram o que fiz.
Um em particular, recordo de implorar para que
o verão não dure até nos secar.
Para que decida desconciliar,
se é o que nos prende ao altar.
Nada nos faz rico no escuro,
soamos tão lúcidos quanto incultos,
e a mente nós seguramos no mar,
não é que usaremos isto,
mas é o que nos resta amar.
I-LVI Jaezes de vida e morte
Como é bom estar vivo em prantos sob as asas de Piasa,
que, há muito, tem devorado minha raça.
Se meu Pai sonhar por me fora,
matar-me-ei antes desta hora.
É o testemunho de muitos que me faz verídico,
pois pelo pouco que ando já mal me sinto.
A crença de mim vem do inimigo,
a vida que fiz não me serve de abrigo,
e o passado que tracei foi tomado por vitimismo.
Me envergonho das loucuras passageiras e temo as que se permeiam.
É aflição que toma meu coração, pois me perdi nas lutas por paixão.
Queria eu residir aqui, como se, pelo mal, fosse meu teto resistir.
E não me acabaria em mil olhares, seria visto por mim e por Ele,
quem sabe.
I-XLII Jaezes de vida e morte
Tarde, mas antes da noite,
invocaram-me, tanto repetiram,
dezenas suficientes para sentir-me contigo.
Acreditei vagar, mas tratam-me como vivendo aqui.
Dizem sentir como eu, mas não os vejo como vivi:
Sobre pegadas de Flammarion,
martelando um sólido céu que nos separa do passado,
por amor e por coisas que jurei nunca dar ao acaso.
E por rancor dos jeitosos rostos que, outros,
fizeram-me deixar de ver,
espero Artur compensar-me,
com tal rígida espada,
os frouxos homens desta távola
que nada me puderam fazer.
I-XL Jaezes de vida e morte
Como odeio aquele velho erudito que bufa seu cachimbo.
Está mais claro a medida que afundamos nesta fossa, Mariana.
Não se esclareça para me acomodar, já sou por nunca mudar.
Me fere gostar do que os incomoda,
e mais me machuca fingir que nada importa.
Vale a pena esquecer dos anseios que se fazem vãos,
mas me sinto miúdo por não ter o que fixa-me no chão.
Que eu enlouqueça, então, mantendo-me sensato,
"mais assustado que machucado".
Coragem ou necessidade falta às almas que não encarnam.
Vivem dos vislumbres de nossas vontades básicas,
curiosos sobre quem deles falam.
Existo, então, fazendo do nada menos ainda,
zombando dos que, de lá, trazem-me pistas.
I-XLVII Jaezes de vida e morte
O vi e é verdade, como vulto sob arbustos,
cochichava sobre promessas de um futuro longe de influências.
Poderia eu ter o parado ali, mas era mau por si só,
e acreditei que ali mesmo se acabaria.
Ainda estava encantado pelas palavras dos criados,
desejando que, ao menos, meia duzia dita se realizasse.
Quando, sob controle do gim, estou a caminho de casa, os ouço aproximando.
Perguntam se meus temores são consequências dos rancores e,
o tempo dado-me para explicar que não os possuo,
prefiro fingir-me de mudo.
Não diga que é por acaso,
conheço o bem por minha tendência
de fazer da verdade sempre miserável.
Pois é tu que levado foi pelos amigos,
e não estou arrependido. Estou a caminho de casa
e já sinto o que fizeste comigo.
I-LIV Jaezes de vida e morte
Sinto que a vida vale a pena
quando um mortal me tens em mãos
e me corteja, disse ao Pai muitas vezes.
Fui agraciado pelos céus de sábado,
e agora sofro temoroso por um domingo ao acaso.
Um de meus vícios é apostar o que recuperei,
penso o quão péssimo é isso, e concluo ser pior que imagino.
Costumo perder-me na conta de quantos sacrifico
para fazer deste mundo um lugar para mim e meus filhos.
Assim ponho-me louco, para a que a conclusão
de um fim venha, e me arranque a vaidade do corpo.
Real ou não, ainda assim é por você,
vícios não seriam hábitos se não voltassem a acontecer.
Temo um mundo pior por domá-lo,
sofro um pouco menos por ser um amparo.
Oro ser este o último dos que me inspiram a estimar,
pois mal atingi o meio e tantos de ti vi passar.
I-XLVI Jaezes de vida e morte
Estou nervoso pela fome,
e pelas decisões sobre mim.
Não há conto curto que me faça
sorrir pela distância de onde vim.
O que de pior aconteceria a quem,
pelo tempo, é tratado como segundo?
Atado e feriado, ouço meus pais dizendo que
que demais me apeguei a este mundo.
Há tanto a ser escrito, mas a pensar me limito.
Quero dar vida às besteiras, e atar-me na tristeza.
E se puxas me sabendo que não me arrancaria,
seria o primeiro que faria.
I-XXXIX Jaezes de vida e morte
Brisa que entra pelas janelas fechadas,
que estrala as escadas que ninguém passa.
Assim ouço sem ter quem fale,
e fecho portas abertas por almas passadas.
Por que as abre se não as precisa?
Por que preserva as mãos se segurar é em vão?
Preserva o ódio faltando-te expressão,
e me atinge sem ser eu quem te reprime.
Muito choras pois, além de ódio, mágoa te aflora.
E o espero voltar quando dizer que zarpará,
pois sempre esquece-se de que jaz.
I-LXI Jaezes de vida e morte
Há tanto digo ao escuro:
Perdoe meus reflexos, meus péssimos hábitos,
cada noite sinto-me melhor sendo acuado.
Já levo o tempo para perder-se comigo,
atrasado, atado aos embaraços,
um presente como o passado.
Instinto infeliz que me pune por nada,
fez-se em minha casa, tomou-me a alma.
Temendo jogarem-me fora, vi-me perdendo a honra:
"Os erros não são meus, o mundo não se toca!
Chances nada adiantam se o dia sempre volta."
E tudo soa como piada para que alguns guardem mágoas.
Não que eu sinta o que escrevo ou de tudo me abstenho,
é só vício ludibriar-me por inteiro.
I-LIII Jaezes de vida e morte
Diante de tanta enfermidade, por nada sofro que me adoeça.
Amarguro-me sob luxos que me separam dos apuros,
e falho estando bem, lembrando-me dos anseios que trouxe ao mundo.
Privilegiado por chorar e viver para lembrar,
duvido ser vício, duvido não haver sentido no que lastimo.
Se há alguém, não sou eu quem a vida, com regalo, atravessa.
Não serei eu quem peregrina aos refúgios de quem espera.
Nego dizer que arrisquei por não haver o que fiz.
Perante aos infelizes em busca de tempo,
creio eu ser mais feliz.
Culpam minha índole que abandona a caça,
que, por qualquer prazer, se desvia da estrada.
Índole que me leva ao longe, ao fundo, respirando e desvairando,
alcançando e pensando, e menos me culpando.
Meu ápice do prazer é à tona trazer algo meu que nem sei se sou eu.
É pouco caso fazer do que conheço, e aos outros dizer que tenho o que mereço.
Gozo pelo privilégio de não ser exposto,
por o luxo de amar alguém pelo prazer do desconforto.