Lista de Poemas

acompanhada e só...

acompanhada e só
cada vez mais me confundo
será que desatou o nó
e o amor está moribundo?
dos caminhos que a alma pisa
vem-me este enganoso pensamento
olvidar-te meu coração precisa
para acabar este tormento
as sombras do dia vão alto
já se foi mais uma jornada,
trago o coração em sobressalto
serei eu pouco, ou serei nada?

são sempre as trevas que rendem
se os sonhos não se acendem

natalia nuno
232

já não há malmequeres...

já não há malmequeres no meu outono
nem nos meus sonhos há qualquer segredo
já me arrancaram até o sono
já o vazio me apanha e me faz medo

faz tanto tempo que dormia numa cama
de folhedo...
abandono-me na tarde e regresso ao aroma
que a saudade me traz dessa primavera
de sangue novo, saudosa de quando era
menina do povo...

já o vento do poente não me enche o peito
de ar
extraviou-se a memória, quebrou-se o olhar
ainda assim escrevo, escrevo exaustivamente
tenho tanto amor no peito que de mim não estou
ausente...

fiz barquinhos de papel, pu-los a navegar 
como se a vida de par em par se abrisse
e os peixes de prata vinham as m' mãos beijar
hoje pra não sentir a solidão, apanho tílias e giestas
e os sonhos voltam a fazer-me festas...

acordo p'la manhã, e sinto-me botão por abrir
apesar de viver não seja perfeição
a natureza está sorridente, tenho de sorrir
é agora tempo que afaga, dá-me a tua mão
que a desesperança não se abata sobre nós
esqueçamos a longínqua margem do verão
e amemo-nos neste outono sereno que nos leva à foz.

natalia nuno
rosafogo
221

medo...

o peito é um mar sombrio, quando a noite surge enferma sem estrelas...as ondas em movimento brusco, vão em grande tumulto desbravando os meus sonhos de náufraga... a cada dia mais inalcansáveis até me deixarem obscuramente no esquecimento...é este o medo que sobe os muros por detrás de cada sombra...
natalia nuno
294

pequena prosa... utopia

Vidas serenas, solitárias e doridas do trabalho árduo...a minha memória demora-se um pouco a lembrar, a roupa estendida a secar ao sol, a louça lavada num alguidar de barro, o outono e os seus langores, as casas do lado de lá do rio, as pequenas ruelas estreitas e tortas, as gentes cansadas ao anoitecer sentadas nas soleiras das portas, estas imagens ajudam-me a negar que tudo morresse...

natália nuno
210

retardando o passo...

esqueço o pó do tempo
acomodo a felicidade no peito
as saudades são flores bravias
vêm de qualquer jeito
a alegrar-me, ou a fustigar-me
os dias...
meus sentimentos são rio
que cruza noutro, aclaram águas
esqueço mágoas, 
deixo o olhar vadio
o coração num doce cansaço
e assim vou retardando o passo.

natalianuno

167

versos que te dou...

pega estes versos que te dou
que fiz com prazer e arte
sou a que mais te amou
e vivo para cantar-te
se o destino é agrura
dor, ou punição
com amor e com ternura
te entrego meu coração
não sei de mim sem ti
trago o peito apertadinho
do tanto que vivi
foste o sol no meu caminho

pega estes versos que te faço
alastrem como chama da fogueira
sintam dos teus braços o abraço
e meu coração esqueça canseira
tudo o que levo desta vida
e a luz que nos meus olhos se vê
saudades sem conta nem medida
que saudade igual não te dê
e da memória d'outros dias
lembranças de amores distantes
levo rosas e melancolias
sonhos de todos os instantes.

natalianuno

204

ladainha...

às vezes sinto-me um rochedo de lua
é esta mudança que não mudo
por mais anos que viva a força em mim
perpectua
a força e a fé são mais que tudo
sou como a calhandra que voa sem parar
nestas linhas, linha a linha
ouvindo o eco do próprio cantarolar
versos que são reza, versos que são ladainha.

natalianuno
239

abusa...

usa o meu corpo
aumenta meio anseio
procura em delírio meu seio
faz dele uma festa
usa a tua mão desonesta
fá-lo delirar
não importa o pecado
fantasia,
deixa as roupas em desalinho
esquece a noite, esquece o dia
difama, desacredita minha seriedade
e num delírio escaldante
deixa-me ainda com saudade.


 natalianuno
204

poema...

o poema só vive
porque o poema sou eu,
meu corpo e meu destino,
minha vida
minha terra possuída
o fogo que em mim se alastra
a curva do meu seio
 delírio que me arrasta
meu rosto, minha afeição
minha luz, minha figura.

o poema só vive
no desejo do meu beijo
enquanto fôr criatura.

natalianuno
278

venho de longe...


Venho sempre de longe
ainda e sempre carregada com o fardo
que é o tempo, tempo pardo
que me põe nos olhos o cinzento
e romeira lá sigo descalça
como pastora
minhas memórias apascento,
já tudo se distancia
venho de longe
do tempo que tudo devora
trago comigo nostalgia,
e as mãos nervosas
vão semeando palavras,
rosas, que ninguém colhe
nutridas de amor, alimentadas
de esperanças, rendilhadas 
de lembranças.

Venho sempre de longe
trago sonhos novos
que povoam minha mente
em noites de insónia
e eu a deixar-me morrer
apressadamente,
cansada de cismar,
do mesmo chão repisar
com passos fantasma
entre a multidão
e venho chegando em dia
de outono
à minha espera o eterno sono,
e logo se cala o coração.


natalia nuno
rosafogo
281

Comentários (11)

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natalia nuno

Grata por todo o apreço dado à minha Poesia, a todos desejo muita felicidade e que vossos sonhos se realizem. Um abraço

rosafogo

A todos agradeço o apreço precioso aos meus poemas...obrigado! Abraço-vos

charlesburck

A distância não nos impede as canções, vc canta lidamente ao teu amor

atal66

Fica-se com o gosto de mel e amoras ao ler os seus pensamentos ...um momento de puro deleite

quaglino

Poeta forte! Muito bom, muito bom mesmo. Quem sabe um dia chego lá. Parabéns de novo.

Natural de Lapas/Torres Novas A Poeta nasceu na pequena aldeia Ribatejana chamada Lapas/ Torres Novas a 19/1, Estudou na Escola Industrial e Comercial de Torres Novas . Participou nas seguintes Antologias: «Entre o sono e o sonho III» «trago-te um sonho nas mãos», «por um sorriso», «poiesis vol. XIII» e «poiesis vol. XXIX», «Viva Outubro 2009» e «Viva outubro 2010», «Licença poética 2011» , « Alma gémea 2011 antologia brasileira», «Tu cá, tu lá II», «Horizontes da Poesia III 2011», « Digo não ao não», «Na magia da noite», «Entre o sono e o sonho III» , «Mãe», « Poetar Contemporâneo 2012», « Cruzada da Poesia», «Horizontes da Poesia IV», «Horizontes de Poesia V» Antologia Poética Contemporânea «Entre o Sono e o Sonho IV», «A Palavra é uma Espada», «Amantes da Poesia 2014», «Horizontes da Poesia IX» «Utopia(s)», «Poetas da Cidade»… Antologias editadas por diversas Editoras situadas em Portugal e Brasil. Colaborou no jornal da sua cidade natal «O Almonda» Prefaciou as obras: « No Chão de àgua » do Poeta Paulo César, O romance « Óh África...oh África Minha» do escritor José Silva, e « Encontro-me nas Palavras» da Poeta Maria Antonieta Oliveira. Livros seus editados/ de Poesia: «Pesa-me a Alma» em 2011 Editora Lua de Marfim e «A Melodia do Tempo» em 2014 pela mesma editora. Com o 3º livro de Poesia editado na Roménia com o nome de «Moldura da Saudade» ou «Margini de dor». O quarto livro «Estremecimentos d'Alma» editado pelo editor Vieira da Silva em 2017......................todos os meus poemas estão registados no IGAC Entre 2016 e 2018 participou em cerca de quatro dezenas de Antologias a convite........