melancolia...
jorra no peito a esperança
e uma secreta alegria
lembro a casa da infância
e o sol que nela havia.
afasto as cortinas da tristeza
meus passos espreitam com cuidado
percorrem com certeza
o lugar que ainda dói, mas é passado
hoje sou uma garça a deslizar
porque o tempo me é dado
trago o passado
na ternura do olhar.
trago as emoções por dentro a gritar
e aves dentro do grito
em sonhos a querer voar,
grito aflito,
de menina mulher pela vida vergada
rendendo-se à solidão
carregando no peito a dor calada.
fico na esperança à espera
meus versos despem-se na madrugada
o sangue em minhas veias acelera
enquanto a vida... é tão sem nada!
natalia nuno
rosafogo
Falo pra mim a mentir...
o odor do laranjal me embriaga
o tempo um instante parou
e vem a brisa e me afaga
já a aurora despertou.
vivo fora das horas
não me ouço, nem quero ouvir
eu sei que não demoras
falo pra mim a mentir.
vens afogar-te em meu mar
no vai vem da minha maré
mesmo que seja a sonhar
ou seja milagre até!
é de ferro a minha vontade
e a vida é tempo de flor
breve, como breve é esta saudade
nada faz sentido sem ti amor
quero a noite toda de estrelas
e tuas mãos nos meus seios
este momento é meu...quero tê-las
aqui me ofereço sem rodeios
se é sonho deixa-me sonhar...
este é o mundo dos meus segredos
onde tenho tudo pra te dar
e me entrego louca, sem medos
natalia nuno
um poema a mais por aí...
sentada sobre os dias me consumo
coloco palavras linha a linha
e sinto-me viagem sem rumo,
para um beco sem saída, caminha.
hoje estou ausente e indiferente
o poema escreve-se sem minha intervenção
é ele que quer ser surpreendente!
mas, ninguém ama sozinho, ele não tem coração.
audacioso, dormiu no meu regaço
fiquei de peito aberto, e passo a passo
saíu do labirinto da minha mente
é feito de sobras da minha solidão,
no tempo vai varrendo o pó
e sente-se absoluto, poderoso
deixando-me só.
mas a mim já não me ilude
nem tem qualquer virtude!
é apenas um poema a mais por aí
nesta caminhada sem rumo
nos dias que passam como fumo,
e, na bebedeira doce de cansaço,
já não acerto o passo...desisti!
natalia nuno
miragem...
já não sei o que dissemos
de tanto que falámos
de tanto que vivemos
de tanto que amámos
já não sei dos afectos
nem do amor em voo alto
dos sonhos de amor repletos
só sei da vida em sobressalto.
não sei do amor que em mim se agita
que é como areia do deserto
ora certo, ora incerto
em desespero no íntimo grita...
amor feito de plenitude e liberdade
perfeito, amor que é agora saudade.
hibernaram as palavras entre nós
já não sei o que dissemos
a vida deu tantos nós
que com calados silêncios a pusemos.
no sonho que não fecundámos,
dos versos que não te li,
à tona de água naufragámos,
eu na dor da ausência morri.
nas horas amargas da solidão
sombras adensam no pensamento
são tudo o que resta da paisagem
surgem com a força do vento
e rugem como trovão,
são da vida, uma miragem...
natalia nuno
a chama...
ternura que brota incessante
da inesgotável fonte do amor
afecto profundo do coração
é sol que cintila mostrando fulgor
doce e louca ilusão...
tudo rodopia à nossa volta
na memória, um mundo de recordações
pensamentos à solta,
tantas emoções
fragmentos do passado
que a memória ressuscita
e nossos sonhos agita.
os corações ansiosos a bater
a nossa pele a recordar o intenso viver
fá-la-emos das cinzas renascer
numa ternura efémera e real
e o coração reviver
até aos limites de quem ama
e assim nos amaremos até morrer a chama.
natalia nuno
dei-me à vida...
dei-me à vida
e de mim trago saudade
acordei a solidão,
agora que estou de partida
aceito a realidade
como se fosse ilusão.
conto os meus cansaços
e sem apressar os passos
aceito a condição.
digo o que penso e sinto
com palavras vindas do peito
e às vezes dialogo comigo
e não minto, se disser que a vida já não leva jeito,
é um beco sem saída...
as coisas que também sei
é que à vida me dei,
mas eu sonho quando anoitece
e o sonho ainda acontece.
olho o mar, olho a montanha
partirei sem nada levar
só uma saudade tamanha
deste tempo em que a morte me poupava,
e eu não hesitava um momento
e a vida não parava.
e eram poucos os meus braços
e minhas mãos eram poucas,
para gratuitamente dar abraços
para matar saudades loucas.
depois de corridas tantas léguas
trago o corpo descaído
mas à vida não dou tréguas,
valeu a pena ter vivido.
natália nuno
ébrias fantasias...
Apanhou-nos a lua em nosso leito
amando-nos do nosso jeito
em redor tudo se aquietou
o vento na varanda suspirou
e na penumbra do quarto
a ventura por nós guardada
os corações pulsando dentro
do peito, ébrias fantasias
a sede recuperada
e a felicidade conquistada.
O desejo vai e retorna
como uma audaz primavera
ou como uma luz que se estende
morna...
Agora a quietude, depois o movimento
livre o corpo e o pensamento
da doce batalha, apenas
uma testemunha, a lua
fazendo-nos insistente companhia
num silêncio macio, até nascer o dia.
natalia nuno
amor saudade....
já não tenho mais palavras para dar-te. guardei-as nos teus olhos como se as sepultasse, para escrever mais tarde um poema que me amasse, me fizesse sentir viva, me falasse a tua língua e não esquecesse de me deixar ao teu beijo cativa...amor perfeito este que trago a latejar no peito, como uma festa de estio, amor que é rio, e é ponte que atravessa meu horizonte, tempestade e serenidade... amor que é saudade!
natalia nuno
miragem...
já não sei o que dissemos
de tanto que falámos
de tanto que vivemos
de tanto que amámos
já não sei dos afectos
nem do amor em voo alto
dos sonhos de amor repletos
só sei da vida em sobressalto.
klnão sei do amor que em mim se agita
que é como areia do deserto
ora certo, ora incerto
em desespero no íntimo grita...
amor feito de plenitude e liberdade
perfeito, amor que é agora saudade.
hibernaram as palavras entre nós
já não sei o que dissemos
a vida deu tantos nós
que com calados silêncios a pusemos.
no sonho que não fecundámos,
dos versos que não te li,
à tona de água naufragámos,
eu na dor da ausência morri.
nas horas amargas da solidão
sombras adensam no pensamento
são tudo o que resta da paisagem
surgem com a força do vento
e rugem como trovão,
são da vida, uma miragem...
natalia nuno
amar é mansidão...
gosto de em teus olhos me sentir
calar as minhas palavras e apenas olhar
aquele rio d'amor recordar
queimar-me no teu corpo, e o fogo repetir.
vivemos agora a vastidão do outono morno,
correndo ainda como criança alegre
sabemos que não haverá retorno
mas a chama sempre jovem connosco segue.
tudo nos deixou recordação
até alguma lágrima no rosto
amar é mansidão
que às vezes ateia e é fogo posto.
as sombras vão ficando em nós
e a inquietude no coração se fixa
trazida pelo medo de ficarmos sós,
basta-me olhar-te para ter alegria
mas, nada permanece o que era
e esta ventura, vai desaparecer um dia,
o amargo da vida nos espera.
puder olhar-te me prende à vida
és ainda a sede dos meus sonhos
olho-te de novo com doçura
amando-te na minha memória
já um tanto adormecida.
natalia nuno
rosafogo
imagem pinterest
Caraca, muito bom mesmo. Alma poeta.
Contundente, muito bom mesmo. Parabéns.
Obrigada :)
Fernando Pessoa Entre o sono e o sonho, Entre mim e o que em mim É o quem eu me suponho, Corre um rio sem fim.
Parabéns pela beleza da escrita!