Lista de Poemas

oscilam os pensamentos...

afoga-se o seu dia num espesso relento
obscurecendo-lhe o alento
e há reinos de mel a que abdica
e ela ali fica...
sorvendo o que lhe resta
acostumando-se a calar
para não se despenhar
nos oásis da sua loucura
onde o vazio lhe devora a memória, sem cura,
permanece pensativa e certa que lhe vão
fugindo as recordações, meras ilusões
dos anos que passaram...
o tempo gravou-lhe lentamente
sombras nos olhos, retirando-lhe sensualidade
o odor a espessa madressilva ou mel quente
enlouquecida na saudade,
esqueceu-se gente

olha para trás e pressente
o rumor da queda na tristeza
segue a orla do seu mar silenciosa
esquece os ecos que a atormentam
escreve palavras implorantes, desejosa
duma promessa de vôo até nova quimera,
e pelo sonho espera...sonha e extasia
e aos seus olhos embaciados volta de novo a alegria.

natalia nuno
295

sonho de primavera...

um tímido vôo,
porque as asas já são estorvo,
a PRIMAVERA da vida
deixou de ter amendoeiras em flor,
agora tem apenas nostalgia,
ergo os olhos ao céu e agradeço
por ela ainda em certos dias me visitar...
horizontes que despertam da obscuridade,
fecho minhas pálpebras
cativa em mim a felicidade
cedo ao desejo de sonhar...
ser falcão atravessando o céu,
e deixar
a solitária flor de sempre ao agora...


natalia nuno
330

transparências...

guardo palavras num frasquinho
como se fossem doce ou vinagre
as vou espalhando pelo caminho
vivendo esp'rança em tempo agre

e assim entre beijos inacabados
o olhar repouso, acalmo o desejo
trago os sonhos com nós atados...
e a esperança na promessa d' beijo

é já na hora tenra da madrugada
q' gritam os pássaros com ternura
na luz que avança leitosa azulada
a gente se ama, é nossa a ventura

amor me fio, janelas escancaradas
deixam entrar os ventos da aurora
e as vestes p'lo chão amarrotadas
é hora do amor... é do amor a hora!

tudo que tem sombra é sombrio
quando não se alcança o sol à mão
e a vida ás vezes presa por um fio
e aí nos amarra d' dor e solidão

no pomar tão brilhantes as cerejas
nas moitas sol aceso nos azevinhos
brilham mais m' olhos se os cortejas
acolho o cortejo dos teus carinhos

natalia nuno
291

pequena prosa poética...

a sombra parte abandona a parede cinzenta, amanhã estará de volta, os ninhos ficam tristes, só a memória dela acalenta, que as asas dos sonhos hão-de voltar para novas palavras talhar...mas que beco sem saída é esta vida...volta lá atrás, emigra na aventura do sonho, olha as abelhas que dormem a sono solto, as lágrimas que o rio solta pelas hortas, as flores já mortas, os amores perfeitos que a mãe gostava tanto... é o desencanto, não suporta tanta violência , desarmada pelo tempo, sente o peso da herança, esmigalha tudo o que lhe tirou a esperança, encosta-se ao que lhe resta ainda, e fica a magicar...deixa as palavras partir, ignora a descida sem luz e na inocência...quem lhe dera ficar...regressar às papoilas, cheirar as mimosas, esperar o próximo orvalho sobre as rosas, como se tudo estivesse certo nestas palavras vazias, exaustas, pobres andorinhas tardias...

natalia nuno
http://flortriste1943.blogspot.pt/
216

palavras leva-as o vento...

Ignoro onde me levam meus passos
Devo porventura desculpar a vida?
Como recuperar se só restam traços?
Em boa verdade, me sinto perdida.
Rompo com a própria vontade
Sozinha com pensamentos a esmo
Deixo-me a rememorar com saudade
Para não me esquecer de mim mesmo.

O tempo amadureceu este sentimento
De prosseguir, de me apressar no caminho
Não vá acontecer meu desaparecimento
Numa noite breve, dar-se meu descaminho.
Já nem sei com rigor nada a meu respeito
Só sei que estou numa idade diferente!?

Se é dia ou crepúsculo, a hora a que me deito!?
Se muitos ou poucos os passos em frente.

Face ao desconhecido, a imaginação é que tece
Não é medo não, só mau pressentimento!
Mas a Vida já nem aquece nem arrefece!
"Palavras, palavras leva-as o vento".

rosafogo
natalia nuno



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455

memórias de mim...pequena prosa poética

meu coração se abre ao sol e deixa penetrar nele o calor da vida, tal como um passarinho que abre asas e vai voando na expectativa de respirar em liberdade o perfume da terra quente, a minha alegria também renasce a cada manhã clara olhando as giestas ou avistando as sarças por entre o trigo, de tal forma que minha tranquilidade se alheia ao tumultuar da vida e eu fico num mundo diferente ladeado de muralhas de coisa nenhuma...daí que nas minhas dúvidas reste sempre um pouco de certeza, de que ainda corre uma fogueira dentro do coração cuja chama nada nem ninguém consegue apagar. Meu mundo de criança era um mundo de fragrãncias, coisas que não voltam, mas que recordo com saudade... pois o sol é promessa de cada dia, a esperança sempre um recomeço e são novas as forças a voltarem-me aos braços e às mãos que não cansam... como as gaivotas que seguem os barcos...com uma beleza sempre densa aos meus olhos, apesar da minha timidez infinita, continuarei por aqui a deixar-me sonhar.

natalia nuno
rosafogo
353

nos dedos da solidão...

as palavras podem ser fogosas

e cristalinas, escritas com o coração

tranquilas ou fugazes

capazes, de se soltarem da nossa mão

com vogais de cor

resolutas,

ao encontro do amor

são sementeira, grão a grão

crescem frescas em seu verdor

palpitam, crescem voam e sonham

fazem da folha branca seu chão



decididas, são guerreiras

às vezes frias labaredas

as primeiras, a encher o nosso tempo

surgem dos labirintos e veredas

murmuram a infância perdida

nos dedos da solidão

às vezes ciladas de aflição

na minha memória preterida.



natalia nuno
341

pensamento...

...no caminho da memória,
o prazer lento da nostalgia puxa o fio das lembranças,
e, surpreende o coração.

natalia nuno
305

a travessia...

Há uma ponte na minha lembrança
A travessia é obrigatória
Do outro lado a criança
A criança da minha história.
Vejo o rio,
Já passaram as águas
As horas foram caindo...
Deixei por lá minhas mágoas,
Como gotas de cacimbo.

Tudo por lá está ausente
Tudo partiu eternamente.

Nostalgia, minha terra distante
Águas ainda soam nos ouvidos
Olho a vida neste instante
Nostálgicos os meus sentidos.

Solto as velas da imaginação
Não sei já o que é real ou ilusão
O que é alegria ou tristeza
Se é deleite ou sofrimento
Mas tenho a certeza!
Que é amor o sentimento.

Amor que sinto... carente
Da criança do meu destino
Num sofrer pungente!
Alojo-a nos labirintos do coração
Presa por um fio fino,
Ao ocaso da solidão.

rosafogo
natalia nuno




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315

pequena prosa poética...

no norte das minhas palavras abandonei a inocência, lá onde tudo era sonho onde lavrava a alegria, onde havia lufadas de sol, onde era seara e girassol, onde via regressar as papoilas vermelhas e os pássaros construíam ninhos nos beirais dos telhados...as estrelas vazaram, e trago agora os olhos molhados...fico a secar os olhos embaciada de emoção, sigo por entre a maresia à minha procura, porque me dói não saber quem sou nem onde estou, não me reconheço, e sempre que a mim regresso há um desajuste entre o sonho e a realidade, parto com velocidade... que mal fiz eu... quem secou a flor em mim? de trigo eu era... hoje sou girassol que morreu, assim... morreu-me também o tempo, sou pássaro no escuro à procura dum pouco de primavera...sigo caminho com o afago do vento não me deixo entristecer, não quero mais palavras, que já nada têm para me dizer...

natalia nuno
301

Comentários (11)

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natalia nuno

Grata por todo o apreço dado à minha Poesia, a todos desejo muita felicidade e que vossos sonhos se realizem. Um abraço

rosafogo

A todos agradeço o apreço precioso aos meus poemas...obrigado! Abraço-vos

charlesburck

A distância não nos impede as canções, vc canta lidamente ao teu amor

atal66

Fica-se com o gosto de mel e amoras ao ler os seus pensamentos ...um momento de puro deleite

quaglino

Poeta forte! Muito bom, muito bom mesmo. Quem sabe um dia chego lá. Parabéns de novo.

Natural de Lapas/Torres Novas A Poeta nasceu na pequena aldeia Ribatejana chamada Lapas/ Torres Novas a 19/1, Estudou na Escola Industrial e Comercial de Torres Novas . Participou nas seguintes Antologias: «Entre o sono e o sonho III» «trago-te um sonho nas mãos», «por um sorriso», «poiesis vol. XIII» e «poiesis vol. XXIX», «Viva Outubro 2009» e «Viva outubro 2010», «Licença poética 2011» , « Alma gémea 2011 antologia brasileira», «Tu cá, tu lá II», «Horizontes da Poesia III 2011», « Digo não ao não», «Na magia da noite», «Entre o sono e o sonho III» , «Mãe», « Poetar Contemporâneo 2012», « Cruzada da Poesia», «Horizontes da Poesia IV», «Horizontes de Poesia V» Antologia Poética Contemporânea «Entre o Sono e o Sonho IV», «A Palavra é uma Espada», «Amantes da Poesia 2014», «Horizontes da Poesia IX» «Utopia(s)», «Poetas da Cidade»… Antologias editadas por diversas Editoras situadas em Portugal e Brasil. Colaborou no jornal da sua cidade natal «O Almonda» Prefaciou as obras: « No Chão de àgua » do Poeta Paulo César, O romance « Óh África...oh África Minha» do escritor José Silva, e « Encontro-me nas Palavras» da Poeta Maria Antonieta Oliveira. Livros seus editados/ de Poesia: «Pesa-me a Alma» em 2011 Editora Lua de Marfim e «A Melodia do Tempo» em 2014 pela mesma editora. Com o 3º livro de Poesia editado na Roménia com o nome de «Moldura da Saudade» ou «Margini de dor». O quarto livro «Estremecimentos d'Alma» editado pelo editor Vieira da Silva em 2017......................todos os meus poemas estão registados no IGAC Entre 2016 e 2018 participou em cerca de quatro dezenas de Antologias a convite........