Lista de Poemas

fala-me de amor...

fala-me de novo com a voz de outrora,
diz-me palavras d'amor ardorosas de promessas
e eu dar-te- ei tudo inda que não peças,
que arda em nós essa antiga chama
mais rubra que a aurora...

procuro-te em mim e rasgo-me de emoção,
o amor é minha ventura, a mais bela memória
do passado, é ternura q' extravasa em m'coração
nesta última e efémera estação.
estás a meu lado e por vezes não te alcanço
sinto-me, como se fosse uma folha despida
que ninguém socorre, neste poema que escrevo
com o rumor da agonia,
poema que não morre... vive da minha utopia
é ele que me arranca à solidão e me dá vida
traz-me a chave do teu amor, o sonho do teu
leito, levanta o meu capricho, o meu desejo
e eu sei que vais amar-me do meu jeito.
e eu sei...que darei tudo inda que não peças
que as tuas palavras serão promessas que
se espreguiçam aos meus ouvidos,
para acalmar a sede dos meus sentidos,
desse fogo d'amar ainda não extinto.

fala-me... fala-me por favor...
palavras ardorosas d' amor.

natalia nuno
rosafogo
347

como tudo pôde mudar um dia?!...

à tardinha a terra é morna
rejubila o meu coração de outono
à memória sempre torna
aquele aroma da infância
onde a sonhar me abandono
trago a ânsia das estrelas
o delírio de voar
dou-me conta dos sentimentos
da saudade que não sei calar.

a vida outrora me dava alegria
como pôde tudo mudar um dia?
na memória sobrevive o que amamos
o que trazemos ainda no coração
o rio, o loureiro, o carreiro
o nosso chão...
cresceu o trigo, cheira a pão
lá vou eu criança levada p'la mão
cheiro a fumo, o fogo é lento
vejo as chamas a dançar
cresce-me um sorriso
afinal nada caíu no esquecimento.

natalia nuno
347

no vazio...

passaram os anos de maior vigor
agora amor...vamos acenando à vida
com um adeus animador
seguimos com coragem
esta viagem, incansavelmente
já que a vontade de viver
ancora ainda no nosso horizonte
e tudo faremos para a manter
às vezes, a taciturnidade se abeira de mim
e logo uma saudade sem fim
a querer perpetuar o horizonte dos meus sonhos.

o tempo invisível, partiu
apagando-se no silêncio, no vazio
num lamento doentio...a alegria já emudece
surgem , lágrimas e pensamentos de
resignação,
a este tempo que nos isola,
que à nossa pele se agarra como uma
prisão,
trago a sede no ouvido, do meu riso
trago sede de regressar ao calor do teu olhar
escondo-me num recanto da memória
e é aí que sei amar-te
ocupo os degraus da minha imaginação
fujo dos golpes e dos redemoinhos
levo-te no coração
e por atalhos vou sonhando à procura
de outros caminhos.

o tempo não abdica nem de ti, nem de mim
escuta os relógios e a sua pressa
sempre com a mesma obsessão... a de nos levar o coração
mas em nós habitarão quimeras sem fim.

natalia nuno
rosafogo
341

lembrança...

Hoje rolou uma lágrima sobre o papel
Manchando o sonho que descrevia
Lágrima gotejando sobre a minha pele
Sonho que deixei p'ra tras um dia.

Hoje abriguei os sentimentos
Escrevo ao de leve numa folha de rosa
Deixo a memória e dias cinzentos
E volto sorrindo à meninice gostosa.

Esqueço o tempo, e só levo o coração
Fico lá atrás a brincar às escondidas
E vou saltar à corda, viva de emoção
E na mão tenho as malhas preferidas.

Agora brinco de mãos dadas na roda
Soquetes branquinhos coração explodindo
Livre como pássaro e nada me incomóda
Quero ficar, deixem-me estou pedindo.

Aqui neste tempo, ameno e transparente
Sonhar, poder de pés descalços andar.
Que felicidade a deste dez réis de gente!
Princesa, só com a aldeia p'ra morar.

rosafogo
natalia nuno
310

entre ser e não ser nada...

há sempre uma hora que morre
deixa meu coração ermo
e minha face amadurecida
na solidão...
minhas mãos me parecem alheias
de rabiscos cheias
com poesia inacabada
entre ser e não ser nada.

ao redor a escuridão me cerca,
na mão a bagagem triste
percorro um corredor sombrio
meu tempo se enche de vazio
e frialdade...já nem sei o que existe
sou solidão e saudade!

mais uma hora morta
como impedi-la de passar?!
ouço os passos do tempo,
deste tempo que teima meu sonho
quebrar.
esta hora é tudo que resta
vejo passar os dias um a um
e já nem sei a idade
e como se não restasse nenhum,
meu sonho
permanece na obscuridade.

tudo parou na tarde que morre
parar o tempo como queria!
rente à sombra das àrvores a escuridão
a noite desce, não há saída
morreu o dia,
a noite traz-me o sonho p'la mão
amanhã haverá novo sentido
para a vida.

natalia nuno
rosafogo
375

ave sem ramo...



andorinhas volteiam no azul do céu
os estorninhos abalam em debandada
olhar que em mim mudou, que fiz eu?
que pelo jugo do tempo fui apanhada

pensei que meu coração asas tinha
julguei-me feliz em doces encantos
viva, era a saudade que me mantinha
e sonhos eram mil ...eram eles tantos!

trago agora cabelos de neve extrema
logo a vida envolta em névoa escura
se é vontade de Deus... ela é suprema!

lá ficou para trás ... a tão florida idade
e tudo o tempo me trouxe, menos a cura,
apenas dos anos restam danos e saudade

natalia nuno
rosafogo
383

até de madrugada...

amar-te é meu segredo

amor é malha que teço

tua ausência me dá medo

e ao temer tanto padeço...

corre o tempo e faz-te meu

tu perdido, nunca chegas!

este amor por ti cresceu

e tu amor tanto te negas.

não querer-te assim,

eu queria,

é tanta a minha agonia

quanto mais te nego

mais te quero,

e no desespero

é grande o meu apego

apregoo aos quatro cantos

que um dia?!

perco o fio à meada

e nem com reza aos santos

farás de mim tua amada

romã

natalia nuno

475

lenço da saudade...trovas

destas minhas mãos vazias
caem pétalas uma a uma
são cansaços de meus dias
s/ esperança de coisa alguma

trago na memória antiga
pássaro que m'estende a asa
trinando a mesma cantiga
q' trinava no telhado da casa

pra q' eu saiba donde venho
não me larga o pensamento
passado é tudo o que tenho
como estes versos que invento

outro modo de voar eu não sei
a vida só a sonhar faz sentido
morrendo já... nada aqui direi
já meu coração... é de vidro!

deixo-me ir antes que alguém,
sempre encontro uma saída
vou de jornada, e de ninguém
quero fazer minha despedida

aceno de longe um lenço
todo enfeitado de saudade
então percebo que pertenço
ali, onde busco minha verdade.

já q' o tempo me vai fugindo
a toda a hora... mingando...
fecho os olhos, vou fingindo
que sou eu... quem comando

a saudade é-me tão familiar
prende-me a coisas pequenas
leva-me no tempo e ao voltar
fica em meu coração a morar
pra que esqueça minhas penas.

natalia nuno
rosafogo
2011/6

576

os serões da minha memória...memórias

os serões da minha memória...memórias

Eram duas mulheres mais velhas, e uma jovem casadoira sentadas ao fresco nas noites de verão nas escadas da sua casa simples, feitas de adobos reforçadas de lages também elas frescas, ali ficava eu ouvindo com atenção as queixas e os ais do peso dos dias, do tempo que não corria de feição para o joeirar do trigo, dos seus homens que andavam fartos de cavar a terra, e o quanto era difícil dar conta da vida! A moça, ouvia e não dizia uma palavra, não esmorecia e não pensava noutra coisa que não fosse o dia do casório quase, quase a chegar... ía aprontando o enxoval com os parcos haveres, fazendo um picô, uma bainha, caseando uma almofada, para que tudo desse certo nos tempos que se aproximavam e que pensava ela seriam de eterna felicidade. Que teria sido feito dela? Chamava-se Cesária , o namoro só era permitido ao domingo sob o olhar da mãe que não arredava pé, por sinal descalço, creio que nunca a vi calçada, descia e subia vezes sem conta a ladeira que a levava ao rio ou à horta para colocar a burra à nora ou colher vegetais, seu nome Rosa cuja vida foi de espinhos tal como as vidas das restantes mulheres da aldeia. Tempos difíceis aqueles, ali passei muitos serões era ainda criança ouvindo muitas histórias, no céu um luar bonançoso e lá em baixo no rio o cantar das rãs que nos vinha aos ouvidos como uma música longínqua soando como se fosse uma harmónica incansável. Os vaga-lumes também nos faziam companhia ziguezagueando dum lado para o outro, enquanto a noiva suspirava pela noite de núpcias...eu, não arredava pé ouvindo as inquietações das mais velhas, até que a mãe da janela da cozinha erguia a voz chamando por mim e eu lá ía com meu perfume delicado e doce, flor pura sem inquietações e nenhum desejo em mim a não ser o conforto possível da casa onde nasci.Todo este aroma da infância o sinto nestas memórias neste recordar neste invocar o passado com todo o meu frenesim, passado longínquo mas não morto que recordo nestes dias que se apagam em si mesmo , tudo é visão presente, nada morre, continua pulsando o coração e o pensamento, e o sonho torna visível o invisível... cega de ternura me agarro a esse eco da infância, como um recém nascido se agarra ao peito da mãe.

natalia nuno
rosafogo
475

dúvida...

Dias cheios de nada

a porta aberta de par

em par

anda a vida agastada

gritando suas dores

algumas dúvidas algumas certezas

e eu amando até ao delírio

já esqueci

se me sorriste, se me olhaste

essa interrogação me ponho...

Será que me amaste?

Ou foi apenas sonho?

Neste tempo sério

o silêncio me envolve

já tudo é mistério

eu a vivê-lo porque te amo.

natalia nuno

romã

481

Comentários (11)

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natalia nuno

Grata por todo o apreço dado à minha Poesia, a todos desejo muita felicidade e que vossos sonhos se realizem. Um abraço

rosafogo

A todos agradeço o apreço precioso aos meus poemas...obrigado! Abraço-vos

charlesburck

A distância não nos impede as canções, vc canta lidamente ao teu amor

atal66

Fica-se com o gosto de mel e amoras ao ler os seus pensamentos ...um momento de puro deleite

quaglino

Poeta forte! Muito bom, muito bom mesmo. Quem sabe um dia chego lá. Parabéns de novo.

Natural de Lapas/Torres Novas A Poeta nasceu na pequena aldeia Ribatejana chamada Lapas/ Torres Novas a 19/1, Estudou na Escola Industrial e Comercial de Torres Novas . Participou nas seguintes Antologias: «Entre o sono e o sonho III» «trago-te um sonho nas mãos», «por um sorriso», «poiesis vol. XIII» e «poiesis vol. XXIX», «Viva Outubro 2009» e «Viva outubro 2010», «Licença poética 2011» , « Alma gémea 2011 antologia brasileira», «Tu cá, tu lá II», «Horizontes da Poesia III 2011», « Digo não ao não», «Na magia da noite», «Entre o sono e o sonho III» , «Mãe», « Poetar Contemporâneo 2012», « Cruzada da Poesia», «Horizontes da Poesia IV», «Horizontes de Poesia V» Antologia Poética Contemporânea «Entre o Sono e o Sonho IV», «A Palavra é uma Espada», «Amantes da Poesia 2014», «Horizontes da Poesia IX» «Utopia(s)», «Poetas da Cidade»… Antologias editadas por diversas Editoras situadas em Portugal e Brasil. Colaborou no jornal da sua cidade natal «O Almonda» Prefaciou as obras: « No Chão de àgua » do Poeta Paulo César, O romance « Óh África...oh África Minha» do escritor José Silva, e « Encontro-me nas Palavras» da Poeta Maria Antonieta Oliveira. Livros seus editados/ de Poesia: «Pesa-me a Alma» em 2011 Editora Lua de Marfim e «A Melodia do Tempo» em 2014 pela mesma editora. Com o 3º livro de Poesia editado na Roménia com o nome de «Moldura da Saudade» ou «Margini de dor». O quarto livro «Estremecimentos d'Alma» editado pelo editor Vieira da Silva em 2017......................todos os meus poemas estão registados no IGAC Entre 2016 e 2018 participou em cerca de quatro dezenas de Antologias a convite........