Lista de Poemas

não me falem do tempo...

Não me falem do tempo
Atormentam-me os receios
A saudade entranhada em
mim vive
Não me falem do tempo
Povoa os meus sonhos,
os meus devaneios.
E se ilusões tive?

São agora rios de desespero
Partiram as esperanças
Mas eu espero
Pelas folhas que hão-de verdejar
As lembranças, hão-de voltar!

E hão-de rebentar flores
Passarão rios a cantar
Hei-de lembrar todos os amores
Até o derradeiro olhar apagar.
É grande a minha esperança
Meus olhos são ainda os da criança
Onde habitam assombros

Ainda acreditam na felicidade
Ainda que carregue nos ombros
Uma menina morta de saudade.
Se meus olhos partirem
Minhas mãos caírem
Com tantos cansaços
Não me falem do tempo
Deixem que siga meus passos
Que mais dias possa colher
Que sejam seara de trigo a
crescer.

rosafogo
natalia nuno
332

a viagem...

A este caminho não voltarei
Nem depressa nem devagar
Nem perdida com ele me cruzarei
E nem rasto vou nele deixar.
Só palavras apagadas
No fundo dum velho poço
Em águas estagnadas
Gritando...ah, só eu ouço.

Serão meu uivo de dor
Resíduos da minha inquietação
Restos de lágrimas sem cor
Lava fria, cinzas da erupção.

Caminho cujo horizonte não sei
Ou finjo ignorar...
Só sei que nele sonhei
Ser nuvem sempre a avançar.
Não levo mapa nem destino
Levo no rosto a indiferença
Caminho qual peregrino
Com Deus e sua presença.

natalia nuno
Rosafogo
324

corro à janela...trovas soltas

corro, corro à janela
a ver se alguém me espera
e as duas... eu, e ela
somos lenda d' outra era

surge o inverno desfeito
meu coração se comporta
fecho a janela e o jeito
é de esperar-te à porta

corro então a cortina
encho o peito de alegria
vibro como quando menina
rouxinol espreitando o dia

manhã clara como não vira
agora tarde cresce o dano
meu coração já suspira
foi tudo sonho...ou engano?

trazem-me as flores o odor
vêm florir-me o coração
trazem-me tempos de amor
aos olhos verdes que são

trago em mim o desafio
do tempo querer parar
meu corpo é água de rio
pronta a entregar-se ao mar

natalia nuno
rosafogo



262

lembranças louca companhia...

lembranças movem-se
na mente
numa louca orgia
e eu mudamente
finjo não sentir
tão louca companhia,
estreitam-me em seus laços
e cada uma me fala diferente
trazem-me saudades dos teus abraços
galopam dia e noite doces e constantes,
recordam-me teus passos
uma morre, logo outra nasce,
instante a instante...e o sonho
faz-se.

lembranças nostalgias aos molhos
trazem-me alegrias ou lágrimas aos olhos
engendram-se em mim
e em mim se abandonam
com voz desvelada,
que hei-de eu fazer
se me sinto lembrada
numa saudade que não consigo
esconder?!
saudades trago uma braçada
que acabei de colher.

as horas sucedem-se
e eu neste viver
o sonho, tão perto e se foi
fez-me feliz, como tive esperanças
de o ser...hoje nos meus olhos
a sombra que dói!


natalia nuno
278

entre ser, e não ser nada...

há sempre uma hora que morre
deixa meu coração ermo
e minha face amadurecida
na solidão...
minhas mãos me parecem alheias
de rabiscos cheias
com poesia inacabada
entre ser e não ser nada.

ao redor a escuridão me cerca,
na mão a bagagem triste
percorro um corredor sombrio
meu tempo se enche de vazio
e frialdade...já nem sei o que existe
sou solidão e saudade!

mais uma hora morta
como impedi-la de passar?!
ouço os passos do tempo,
deste tempo que teima meu sonho
quebrar.
esta hora é tudo que resta
vejo passar os dias um a um
e já nem sei a idade
e como se não restasse nenhum,
meu sonho
permanece na obscuridade.

tudo parou na tarde que morre
parar o tempo como queria!
rente à sombra das àrvores a escuridão
a noite desce, não há saída
morreu o dia,
a noite traz-me o sonho p'la mão
amanhã haverá novo sentido
para a vida.

natalia nuno
338

no vazio do verso...

a minha taça está cheia
cheia de mel e de fel
meu passado não é água nem espelho
é um cesto onde guardo vivências dum tempo velho
q' apaziguam meu coração
chão outonal sem folhas nem flores
raízes que crescem dentro de mim
onde só os sonhos tem odores
a jasmim...

os meus ombros dobram-se ao peso da idade,
enquanto o inverno estás prestes
a trazer-me a nostalgia
na última sombra do último dia
nos meus lábios há suspiros que a saudade
sustenta,
e me sinto menina que sonhos inventa,
mas na minha tarde já o sol declina
e os ventos avançam no corredor da mente
fustigam os pensamentos,
e quebram-me a alegria.
só o sol nascente
me trará com clemência, um outro dia

a minha taça está cheia
do ontem e do hoje
ficou meu rosto ausente
e já a vida me foge.
se insisto em ficar,
ela insiste em me desfolhar
despejo mais um cálice na estação que nada traz de volta
mas o sonho me impede de acordar
e no vazio do verso minha alma se solta...

natália nuno
rosafogo
339

à tua espera...

os dias parecem longos
sobretudo quando as flores morrem depressa
e logo a ânsia com que a saudade regressa...
espreguiçam-se as recordações na memória
e longas são as emoções.
vai a morrer a tarde, sigo contigo
de mão na mão, cabelos ao vento
e tu acendes em mim o desejo
dum beijo, outro beijo, e eu sonhando possuo o mundo
neste desejo tão profundo...
os dias parecem longos, passo por eles a medo
a dor não passa, a dor da saudade
desse amor, que vou recordando em segredo.

os dias passam... para mim minto
crendo que ainda plantarei flores na primavera
à chegada dos pássaros dir-te-ei o que sinto
e assim, remoendo o tempo, reenvento sonhos
à tua espera...
os dias não me trazem recados teus

por detrás das cortinas há lampejos de lua
deixam remediados os sonhos meus,
é a hora da loucura, dos abraços,
dias repetidos de saudade nua
da carne a envelhecer ...do sonho a morrer.

o tempo, vai agora bordando o silêncio
é tempo do coração quieto e sereno, da solidão
e dos dias que parecem longos, doridos, vazios,
onde adormeceram as emoções, uma ou outra dor ainda,
a saudade que não finda e
uma peregrinação de recordações.

natália nuno
rosafogo
415

indícios...

há uma neblina a circundar-te o olhar,
a luz está longe e no rosto há girassóis em fim de verão a morrer de cansados,
viver um pouco mais será um caminho por descobrir,
encontrar algum consolo,
deixar o tempo cair por terra,
seduzir o sonho e tê-lo por companhia para que arda tudo o que ainda arde dentro dele,
e se à noite vier a solidão que dói,
recorda a criança correndo pelos teus anos,
ávida de esperança, tão livre no seu vôo...
faz renascer em ti o universo
e cria mais um verso...é vida a Poesia.

natalia nuno
rosafogo

313

páginas do meu sentir...

As minhas poesias
São páginas do meu viver.
Da Vida contam os dias
Crescem nas minhas entranhas
São sonhos e quimeras tamanhas
Que no pensamento estremecem
E como rosas fenecem.
E ao morrer?!
Levam com elas, tristezas e alegrias.

Surgem das nascentes
da minha vontade
Dum rio que corre em mim
Suas margens e afluentes
São a saudade
Que vai crescendo assim.
Fazendo-me viver,
sem se importar ao que vim.

São como a força imparável do vento
São livres como nuvem passageira
São pássaros brancos em lamentos
Voando p'lo Mundo sem eira nem beira.

Minhas poesias são madrugadas
São tardes vestidas de azul
Relampagos, raios, trovoadas
São este, oeste, norte e sul.
Gemidos desde o dia em que nasci
Rumores, insistências, são pão!
Elas aí estão falam por si.
Atravessam a memória sem rumo
São a lenha, o fogo, o fumo
Ardendo em mim,
procurando seu chão.

Minhas poesias são palavras perdidas
Palavras achadas
Sentidas
Amadas.

São becos sem regresso
Caminhos onde a saudade tem crescido
São a distância que meço
Da criança que sonhou e
tem seu sonho perdido.

natalia nuno
rosafogo
419

no fundo do tempo...

é larga a rua dos anos que já levo
é tão grande o silêncio que nem
me atrevo, e levo apagada a voz
e a angústia desliza no peito
desfeito...
a noite enferma é violência atroz
perco-me nas sombras
desejando horizontes onde possa
prolongar meu vôo

sem jeito, assim me vou...
a vida empurra-me para o nada
o sonho distante, a realidade presente
as sensações batem obscuramente
e vão morrendo na mente soterradas
aquietadas na dor do dia
e da noite, numa frágil porfia.

lentas são as horas
palavras caídas são vento da recordação
e tu que demoras!... recordando-te
sinto o frio irremediável da solidão.

emerjo na firmeza de seguir
vou pespontando os velhos sonhos
de esperança...visto-os com traje de menina
e como se regressasse do fundo do tempo
invento-me como outrora e uma nova luz
me acaricia e ilumina ...dou-te de novo o
coração, e tu me dás a mão.

natalia nuno
rosafogo
405

Comentários (11)

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natalia nuno

Grata por todo o apreço dado à minha Poesia, a todos desejo muita felicidade e que vossos sonhos se realizem. Um abraço

rosafogo

A todos agradeço o apreço precioso aos meus poemas...obrigado! Abraço-vos

charlesburck

A distância não nos impede as canções, vc canta lidamente ao teu amor

atal66

Fica-se com o gosto de mel e amoras ao ler os seus pensamentos ...um momento de puro deleite

quaglino

Poeta forte! Muito bom, muito bom mesmo. Quem sabe um dia chego lá. Parabéns de novo.

Natural de Lapas/Torres Novas A Poeta nasceu na pequena aldeia Ribatejana chamada Lapas/ Torres Novas a 19/1, Estudou na Escola Industrial e Comercial de Torres Novas . Participou nas seguintes Antologias: «Entre o sono e o sonho III» «trago-te um sonho nas mãos», «por um sorriso», «poiesis vol. XIII» e «poiesis vol. XXIX», «Viva Outubro 2009» e «Viva outubro 2010», «Licença poética 2011» , « Alma gémea 2011 antologia brasileira», «Tu cá, tu lá II», «Horizontes da Poesia III 2011», « Digo não ao não», «Na magia da noite», «Entre o sono e o sonho III» , «Mãe», « Poetar Contemporâneo 2012», « Cruzada da Poesia», «Horizontes da Poesia IV», «Horizontes de Poesia V» Antologia Poética Contemporânea «Entre o Sono e o Sonho IV», «A Palavra é uma Espada», «Amantes da Poesia 2014», «Horizontes da Poesia IX» «Utopia(s)», «Poetas da Cidade»… Antologias editadas por diversas Editoras situadas em Portugal e Brasil. Colaborou no jornal da sua cidade natal «O Almonda» Prefaciou as obras: « No Chão de àgua » do Poeta Paulo César, O romance « Óh África...oh África Minha» do escritor José Silva, e « Encontro-me nas Palavras» da Poeta Maria Antonieta Oliveira. Livros seus editados/ de Poesia: «Pesa-me a Alma» em 2011 Editora Lua de Marfim e «A Melodia do Tempo» em 2014 pela mesma editora. Com o 3º livro de Poesia editado na Roménia com o nome de «Moldura da Saudade» ou «Margini de dor». O quarto livro «Estremecimentos d'Alma» editado pelo editor Vieira da Silva em 2017......................todos os meus poemas estão registados no IGAC Entre 2016 e 2018 participou em cerca de quatro dezenas de Antologias a convite........