Lista de Poemas

soltas...

meu coração desabitado
não cabe nele entendimento
- logo se lhe dou cuidado
se enche de sofrimento.

os olhos verdes rasgados
resplendor do sol está cegando
andam p'los teus enamorados
a tua ausência chorando...

(rabiscos)
nataliarosafogo
1996
142

Nestes tímidos versos...

tremeluz a lua no mar
reflectida na onda que quebra
reacende-se a esperança
meu sangue corre e avança,
p'los caminhos da memória já varridos
olhamo-nos dois seres envelhecidos,
incansáveis andarilhos,
da vida e seus cadilhos,
de sedução embevecidos.
e a noite é quente e acetinada
há lilases no auge da floração
e uma promessa de vida falseada
a aquietar-me o coração,
e uma vontade constante de gritar
um grito, feito de gritos
nesta noite de breu...
anda o vento a gargalhar
rasgando-me o pensamento,
levando o sonho, roubando-me o céu.
É no silêncio das tardes
que as lembranças chegam e partem
da mente
e a premonição de verdades
ladeadas de sombras
que aguardamos brevemente.

nestes tímidos versos
que sangram no meu peito
há lembranças doloridas
há um caminhar de mansinho
de duas vidas unidas
que há séculos fazem o mesmo caminho.
A lágrima sempre pronta
o sorriso sempre aberto
à morte fazendo afronta
e sempre a saudade por perto.

rosafogo
natalia nuno
139

palavras, leva-as o vento...

Ignoro onde me levam meus passos
Devo porventura desculpar a vida?
Como recuperar  se só restam traços?
Em boa verdade, me sinto perdida.
Rompo com a própria vontade
Sozinha com pensamentos a esmo
Deixo-me a rememorar com saudade
Para não me esquecer de mim mesmo.

O tempo amadureceu este sentimento
De prosseguir, de me apressar no caminho
Não vá acontecer meu desaparecimento
Numa noite breve, meu descaminho.
Já nem sei com rigor nada a meu respeito
Só sei que estou numa idade diferente!?
Se é dia ou crepúsculo, a hora a que me deito!?
Se muitos ou poucos os passos em frente.

Face ao desconhecido, a imaginação é que tece
Não é medo não, só mau pressentimento!
Mas a Vida já nem aquece nem arrefece!
«Palavras, palavras leva-as o vento».

rosafogo
natalia nuno
201

sem tempo...

Não há pausas na minha melancolia
A saudade surge como um vento triste
Morri na saudade mais este dia
Maldita a vida que ainda insiste.

Tremem as àrvores, tremem de frio
E eu sinto a Vida presa por um fio.

Assim vou andando
Os sonhos ficando para trás
Meus olhos de menina chorando
Aquilo que o tempo me roubou
e foi capaz,
De me deixar vencida
De me vir dizer
Que a dor que trago sentida?!
Há-de deixar-me desfalecer.

Aceno à vida de mim esquecida
Procuro alívio para o desencanto
Vejo ao longe a meninice enternecida
Evaporei no tempo para meu espanto.

Vivo à mercê, triste ou sorridente
E já nada faço para ser diferente.

rosafogo
natália nuno
poema de 2010
157

mais um abraço...

em delírio prendes-me num abraço
e o dia tem outra claridade
este sonho eu faço e desfaço
quando me chega a saudade
imagens instalam-se no labirinto da memória
sem que nada aconteça passa o dia
surge a desmemória
a saudade avança...traz a letargia.

o relógio continua a pulsar sem tempo
até que eu já mal me reconheça
no pensamento se tudo é cinzento!?
coloco um sorriso,
para que o sonho aconteça
o silêncio da noite é misterioso
e o amor ali se esconde
dentro de nós, tão perto, não sei onde!
há uma fonte que em mim murmura
que é como grito de aflição
na busca incessante de ternura
neste dia de infinda solidão.

sigo caminho dando mais um passo
enquanto sonho,
que em delírio, me dás mais um abraço.

natalia nuno
rosafogo
159

escutando meus passos...

no sonho há aroma a magnólias
vindo do tempo, onde o tempo não contava
e o sol se aproximava de mim doce
abrindo a manhã como se fosse
a minha própria pulsação,
tempo sem tempo, cantava
um pássaro no meu riso
e habitava amor no coração.
estendo a minha mão
a esta vertigem que é sonhar
e é como se fosse o instante dum beijo
em que me olhas com um só desejo
a sede de possuir-me,
como vai longe a quimera
e eu na solidão, à espera...
no oásis da minha memória
ainda há uma busca indecisa
que meu coração precisa
que a ternura lhe seja entregue.
mas o tempo corre, segue,
e deixa apenas recordações
nuvens escuras, visões, mas uma claridade
indistinta, e um só pensamento sobre ti
dos momentos que vivi, e
uma derradeira saudade...um mundo de interrogações.
no coração trago a herança dos anos
e na boca arco-íris de sílabas que soletro
que são teias e outras favos de mel,
teço e desteço ilusões, enganos e desenganos
o amor e a desdita
que eu grito até ao fim,
ao fim da vida, ao fim da escrita.
trago em mim amarelas florestas de outono
no calafrio do meu corpo adormecido
no meu Deus supremo me abandono,
caindo assim, a minha metade
mais trémula no esquecido.
e fica a censurar-me esta saudade.
natalia nuno
166

loucura minha...

aonde quer que eu esteja
tempo sem dono me segue
nem a esperança benfazeja
lidar com o tempo consegue

nem onde quer que eu vá
o tempo me deixa em paz
nos intervalos de cá e lá
esquecê-lo não sou capaz

não sei que me quer dizer
seja inverno ou seja verão
esta interrogação faz doer
é de arrancar o coração...

não deixa de me espreitar
este tempo intempestivo
passo a vida a discordar
mas é com ele que eu vivo.

tempo não me deixa saída
sempre onde quer que esteja
anda sempre de mão estendida
maldito este tempo seja...


natalia nuno
rosafogo
177

Tudo quanto amei...

Trago nos olhos
silvados floridos.
Margaridas nascem nos meus dedos
Há rouxinóis na ribeira
dos meus sentidos
Chuvas de Abril lavam segredos.
Nas palavras há rosas abertas
Meu corpo foi terra de sementeira,
seara verde ... na tarde,
agora deserta certa,
sombra dura minha verdade!

Quer se queira ou não queira.

Depois da angústia a fadiga
que  surpreende o passo
O destino  vigia
Dando uma mão amiga
E o bálsamo do teu abraço.

Como o sol dum novo dia.

Chegue onde chegar meu dia
Ainda que me queira cegar
Pedirei a luz com que te via
Só mais um instante p'ra te olhar.
E então perguntar-te-ei:
Quem foi que morreu?
O tempo? Eu?

Ou tudo tudo que amei?
173

gente resignada...

Poema dedicado às gentes do campo

Verdes e azulados na planície
Onde o homem deixou a marca dos dedos
e o sonho vazio,
pra que alguém visse,
Que estão carregados de sombras e medos.

Campos de verde pranto
De sonhos desfeitos e escombros
Que a lua cobre com seu manto
Cansaço de morte sobre os ombros.

Anda a solidão aí p'lo ar
Carregada de cinza e tristeza
Andam gentes consumidas a trabalhar
De olhos vendados de incerteza.
Pisam as ervas que sangram
Levam vidas absortas
Trazem liberdade na boca
Mas as almas estão mortas.
E a esperança? É coisa pouca!

Levantam-se em pedaços
desfeitos
Pensamentos ausentes
Conhecem a desventura,  seus passos
são agora espigas sem efeito
de searas  morrentes.
A vida inferno ensurdecedor
Brutal cansaço este viver
Morrendo á míngua de dor,
a raiva em si  calada
amarga...que o faz sofrer.
.
168

o sol nasce na minha mão...

Quebram-se meus braços
Que fazer agora?
Será que é hora,
de parar meus passos,
ou ainda há tempo de verter
uma lágrima e enxugar o rosto?

Ainda me sinto a erguer
Com chama e com furor
E lágrima que se perder?
Será uma só, uma, orfã e por amor.

Resta-me a palavra
Tudo o resto deu em nada!
Em mim só a saudade lavra
no peito uma alegria desmesurada.

Não troco minha vida por nenhuma
Nem sonhos, nem esperanças, 
não troco, não!
O sol nasce ainda na minha mão,
E a alma vagueia por aí como pluma.
A vida que quebrou meus braços
Foi mãe e  madrasta
Deixou-me andar de pés descalços
Mas, traz-me sempre um novo dia
e isso me basta.

natalia nuno
148

Comentários (11)

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natalia nuno

Grata por todo o apreço dado à minha Poesia, a todos desejo muita felicidade e que vossos sonhos se realizem. Um abraço

rosafogo

A todos agradeço o apreço precioso aos meus poemas...obrigado! Abraço-vos

charlesburck

A distância não nos impede as canções, vc canta lidamente ao teu amor

atal66

Fica-se com o gosto de mel e amoras ao ler os seus pensamentos ...um momento de puro deleite

quaglino

Poeta forte! Muito bom, muito bom mesmo. Quem sabe um dia chego lá. Parabéns de novo.

Natural de Lapas/Torres Novas A Poeta nasceu na pequena aldeia Ribatejana chamada Lapas/ Torres Novas a 19/1, Estudou na Escola Industrial e Comercial de Torres Novas . Participou nas seguintes Antologias: «Entre o sono e o sonho III» «trago-te um sonho nas mãos», «por um sorriso», «poiesis vol. XIII» e «poiesis vol. XXIX», «Viva Outubro 2009» e «Viva outubro 2010», «Licença poética 2011» , « Alma gémea 2011 antologia brasileira», «Tu cá, tu lá II», «Horizontes da Poesia III 2011», « Digo não ao não», «Na magia da noite», «Entre o sono e o sonho III» , «Mãe», « Poetar Contemporâneo 2012», « Cruzada da Poesia», «Horizontes da Poesia IV», «Horizontes de Poesia V» Antologia Poética Contemporânea «Entre o Sono e o Sonho IV», «A Palavra é uma Espada», «Amantes da Poesia 2014», «Horizontes da Poesia IX» «Utopia(s)», «Poetas da Cidade»… Antologias editadas por diversas Editoras situadas em Portugal e Brasil. Colaborou no jornal da sua cidade natal «O Almonda» Prefaciou as obras: « No Chão de àgua » do Poeta Paulo César, O romance « Óh África...oh África Minha» do escritor José Silva, e « Encontro-me nas Palavras» da Poeta Maria Antonieta Oliveira. Livros seus editados/ de Poesia: «Pesa-me a Alma» em 2011 Editora Lua de Marfim e «A Melodia do Tempo» em 2014 pela mesma editora. Com o 3º livro de Poesia editado na Roménia com o nome de «Moldura da Saudade» ou «Margini de dor». O quarto livro «Estremecimentos d'Alma» editado pelo editor Vieira da Silva em 2017......................todos os meus poemas estão registados no IGAC Entre 2016 e 2018 participou em cerca de quatro dezenas de Antologias a convite........