Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

15

O amor é escrito na areia...


Não há como controlar...
O amor não se prende, creia;
o amor é escrito na areia.

Como a mentira no ar,
como a água se evapora,
como a chuva vai embora,
como o rio encontra o mar,
é verdade secular
que todo amante receia:
o amor é escrito na areia.

Meu amor, eu sei agora
desse calor que me aquece.
Quando a luz já se amortece
e o dia, ao fim se descora,
enquanto a alma padece
e a lua a praia clareia,
o amor é escrito na areia.

Nilza Azzi
571

O céu choveu...


O céu choveu, à vontade,
toda chuva que podia...
Não há no mundo, verdade
que não veja a luz do dia.

Nilza Azzi
595

Além da Porta



A cor do céu já é a cor do inverno
e muda o mapa aos poucos de aparência.
O vento esfria e o frio parece eterno;
a luz boceja, esvai-se em indolência.

A noite guarda em sonho a minha essência,
a solidão escura o mundo interno;
traz a quimera, a dor que ninguém vence
e a confusão das formas mal governo.

Além da porta, além dos velhos muros,
onde andará o meu amor de outrora,
olhos de mar em dias de ressaca?

Vive a lembrança cada vez mais fraca;
na ideia esquiva a busca se demora.
Oh, luz noturna, vastos céus escuros!

Nilza Azzi
574

Dizem


Hoje dizem que poesia é isso
um fluxo de pensamento
sem amarras
uma explosão de sons
uma corrente calma
sem a história errante de um amor perdido
uma questão engajada

Hoje dizem que a poesia é livre
e perambula solta pelas linhas
sem aceitar medidas coercitivas
alucinante desde o festival de Verão

Nasça ela do coração ou da mente
deve crescer sem freios
explorar formas desavisadas
esmiuçar as novas propostas
rolar como a água entre as pedras
versar um conteúdo insípido
mas que possa embeber as pautas e suprimir delírios

Hoje dizem que a poesia esperta é moderna
não quer saber da fonte em que nasceu
de onde bebeu a lírica selvagem
e transformou a imagem para sempre
não quer a teoria necessária
a prova de toque da pureza
serve a si mesma e a seu poeta

Cansada dos rigores das escolas
dizem ter ela incitado um movimento
murmuram que partiu
achou em Safo a voz tão procurada

Dizem que inventa a si mesma a cada verso
e isso basta

Mas eu que sigo a regra empedernida
e vi valor nas vozes dos meus mestres
acredito no ritmo e na rima confortando meus ouvidos
nessa ilusão em contraponto à lucidez
uma artimanha para expor-me à verdade

Hoje dizem que já não sou poeta
dizem que repito a mim mesma a cada verso
e isso não basta

Nilza Azzi
52

Nos olhos...


Nos olhos do meu amor
duas lágrimas brilharam...
Teu cheiro de água de flor:
nossas bocas se encontraram.

Nilza Azzi
54

No outono...


No outono que se avizinha,
espero dias mais claros.
A vida que diz: − Caminha! −
não me fornece anteparos.

Nilza Azzi
572

Chegam as luzes...


Chegam as luzes do outono,
frouxas, incertas e mornas;
entre as cobertas ressono,
enquanto o dia não torna.

Nilza Azzi
588

Fim


Dobre por ruas tortas
Passos sobre o gramado
Exéquias ao meu cadáver

Nilza Azzi_ Poetrix

573

Doces lembranças


Quando o dia começa, inda bem cedo,
e atravessa a cortina do teu quarto,
entra um raio de sol que, quase a medo,
vem beijar o teu corpo lasso. E, farto

dos prazeres da noite, nas texturas
dos lençóis, tu repousas as mãos puras
contra o peito, num gesto de abandono.

Ao teu lado, com medo de acordar-te,
meu olhar te contempla, mas destarte,
quando lembro teu beijo, eu me apaixono.

Nilza Azzi
60

Fim


A vida me tem golpeado, e não pouco,
pareço a bigorna nas mãos do ferreiro.
A alma ferida ressente o braseiro,
bem sei que este mundo está velho, está louco
e nada é eterno, a tristeza tampouco,
porém mal consigo parar de chorar
– a velha saudade não quer me largar!
Enquanto as imbuias prateiam a serra
e o meu pensamento essa névoa descerra,
revivo o meu sonho na beira do mar.

A dor que me habita resiste ao meu grito,
pois ela não sabe que sou resiliente
e tenho o controle perfeito da mente.
Assim, eu espero por tempo infinito;
na luta sem fim, sou fiel, acredito,
jamais duvidei de qual é meu lugar,
naquela varanda um amor aguardar.
No meio da areia, uma flor vai rasteira,
na areia branquinha da espuma que abeira,
até que haja morte na beira do mar...

Nilza Azzi #galopeàbeiramar
54

Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!