Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Não há como controlar... O amor não se prende, creia; o amor é escrito na areia.
Como a mentira no ar, como a água se evapora, como a chuva vai embora, como o rio encontra o mar, é verdade secular que todo amante receia: o amor é escrito na areia.
Meu amor, eu sei agora desse calor que me aquece. Quando a luz já se amortece e o dia, ao fim se descora, enquanto a alma padece e a lua a praia clareia, o amor é escrito na areia.
Nilza Azzi
571
O céu choveu...
O céu choveu, à vontade, toda chuva que podia... Não há no mundo, verdade que não veja a luz do dia.
Nilza Azzi
595
Além da Porta
A cor do céu já é a cor do inverno e muda o mapa aos poucos de aparência. O vento esfria e o frio parece eterno; a luz boceja, esvai-se em indolência.
A noite guarda em sonho a minha essência, a solidão escura o mundo interno; traz a quimera, a dor que ninguém vence e a confusão das formas mal governo.
Além da porta, além dos velhos muros, onde andará o meu amor de outrora, olhos de mar em dias de ressaca?
Vive a lembrança cada vez mais fraca; na ideia esquiva a busca se demora. Oh, luz noturna, vastos céus escuros!
Nilza Azzi
574
Dizem
Hoje dizem que poesia é isso um fluxo de pensamento sem amarras uma explosão de sons uma corrente calma sem a história errante de um amor perdido uma questão engajada
Hoje dizem que a poesia é livre e perambula solta pelas linhas sem aceitar medidas coercitivas alucinante desde o festival de Verão
Nasça ela do coração ou da mente deve crescer sem freios explorar formas desavisadas esmiuçar as novas propostas rolar como a água entre as pedras versar um conteúdo insípido mas que possa embeber as pautas e suprimir delírios
Hoje dizem que a poesia esperta é moderna não quer saber da fonte em que nasceu de onde bebeu a lírica selvagem e transformou a imagem para sempre não quer a teoria necessária a prova de toque da pureza serve a si mesma e a seu poeta
Cansada dos rigores das escolas dizem ter ela incitado um movimento murmuram que partiu achou em Safo a voz tão procurada
Dizem que inventa a si mesma a cada verso e isso basta
Mas eu que sigo a regra empedernida e vi valor nas vozes dos meus mestres acredito no ritmo e na rima confortando meus ouvidos nessa ilusão em contraponto à lucidez uma artimanha para expor-me à verdade
Hoje dizem que já não sou poeta dizem que repito a mim mesma a cada verso e isso não basta
Nilza Azzi
52
Nos olhos...
Nos olhos do meu amor duas lágrimas brilharam... Teu cheiro de água de flor: nossas bocas se encontraram.
Nilza Azzi
54
No outono...
No outono que se avizinha, espero dias mais claros. A vida que diz: − Caminha! − não me fornece anteparos.
Nilza Azzi
572
Chegam as luzes...
Chegam as luzes do outono, frouxas, incertas e mornas; entre as cobertas ressono, enquanto o dia não torna.
Nilza Azzi
588
Fim
Dobre por ruas tortas Passos sobre o gramado Exéquias ao meu cadáver
Nilza Azzi_ Poetrix
573
Doces lembranças
Quando o dia começa, inda bem cedo, e atravessa a cortina do teu quarto, entra um raio de sol que, quase a medo, vem beijar o teu corpo lasso. E, farto
dos prazeres da noite, nas texturas dos lençóis, tu repousas as mãos puras contra o peito, num gesto de abandono.
Ao teu lado, com medo de acordar-te, meu olhar te contempla, mas destarte, quando lembro teu beijo, eu me apaixono.
Nilza Azzi
60
Fim
A vida me tem golpeado, e não pouco, pareço a bigorna nas mãos do ferreiro. A alma ferida ressente o braseiro, bem sei que este mundo está velho, está louco e nada é eterno, a tristeza tampouco, porém mal consigo parar de chorar – a velha saudade não quer me largar! Enquanto as imbuias prateiam a serra e o meu pensamento essa névoa descerra, revivo o meu sonho na beira do mar.
A dor que me habita resiste ao meu grito, pois ela não sabe que sou resiliente e tenho o controle perfeito da mente. Assim, eu espero por tempo infinito; na luta sem fim, sou fiel, acredito, jamais duvidei de qual é meu lugar, naquela varanda um amor aguardar. No meio da areia, uma flor vai rasteira, na areia branquinha da espuma que abeira, até que haja morte na beira do mar...