Transparências
A libélula voava tonta à beira do lago,
inocente, sem suspeitar de qualquer perigo.
O ar já continha em si um peso vago
e a água refletia apurado brilho.
Na calma da campina, em meio à floresta,
os insetos noturnos, um mundo à parte...
Às margens do largo rio era manifesta
a justa da divisão do que se reparte.
Havia ali um quê de tempo suspenso
e as palmas contra o azul mal se balouçavam...
A lua seria cheia, a maré sem vento
e havia o homem perfeito que me amava.
Mas tempos são pouco firmes e mudam sempre,
transformam em poucas horas a paisagem.
O que soprava no alto, ora sopra rente,
e aos saltos, a forma elástica estica a imagem.
É certo que a solidão pode ser benquista,
se a forma de se entender conduzir ao nada,
se a luta pelas certezas que se conquista
transpassar a iridescência da alma alada.
Nilza Azzi
O Mistério do nada
extraí, do nada, o menos um
um zero e uma fração do infinito
que é nada, sendo tudo em dimensões
vazias, exteriores, estrangeiras
fiz poesia do nada misterioso
do abismo dos espaços estelares
das formas sem limites ou fronteiras
extraí do nada irrevelado
o sumo do sagrado e do profano
de mundos silenciosos, isolados
que me dão sede de beijar a tua boca
nilza azzi
Nostalgia
Perdi meu amor, é verdade,
num trem que há muito partiu.
Comigo resta a saudade
da aventura que vivemos,
dos banhos de cachoeira,
dos passeios pela praia,
da conversa sem sentido,
naquele banco da praça...
Lá foi meu amor num trem
que partiu há muito tempo
e meus olhos já cansaram
de perscrutar o vazio,
aquela curva do rio
que hoje lembra o nosso adeus.
Nilza Azzi
Selo
À tarde, quando o Outono bate à porta
e o vento sopra baixo, agita as folhas,
se vens falar de amor, a mim não tolhas,
nem faças dessa via a rua torta,
na qual eu vá seguir sem ter perdão.
Os ares já permitem ver encantos,
nas vestes mais charmosas, ou nos mantos
que aquecem corpos... Quero a ti, então,
a fonte mais real que traz prazer
à vida interna, ao mundo azul do centro,
às formas tão intensas, quando adentro
a inércia frágil, própria a todo ser.
Mas, caro, não me beije à luz de velas,
se o nosso amor, de fato, tu não selas...
Nilza Azzi
Paisagem
a chuva agradável
fininha, constante
envolve a paisagem
na névoa dos pingos
e tudo se torna
suave e disperso
nas brumas da tarde
o dia adormece
nilza azzi
Desfalando
um gato na lua
uma sombra na rua
um palhaço que atua
e a goiaba ainda crua
uma bala de festa
um mosquito na testa
um sagui na floresta
isso é só o que me resta
Nilza Azzi
A lua
Bela ela brilha e reina no céu.
deixa seu rastro em sinais de luz.
Quando se esconde, perde-se, é fato,
grande beleza em noites escuras,
onde se esconde a ave e a caça.
Falte o luar, então, nem por graça,
pode-se achar o rastro cruel,
de um sorrateiro lobo que aduz,
a perseguir as pobres criaturas
com aguçado ouvido e olfato.
Mas se um poeta ama de fato
e a lua cheia, pelo céu passa,
a inspiração se agita e reluz:
e não escapa tinta e papel
que não descreva suas agruras.
Se a companheira, pelas alturas,
sabe que a dor sentida é um fato,
o sonhador não faz escarcéu
e, disfarçando, bebe da taça:
bebida estranha, sabe a alcaçuz...
Lua formosa, minha fé pus,
busquei azeite e doces canduras;
deixei as flores, lá onde grassa
água da fonte. Não falte o tato.
Ao meu amado, o pote de mel.
Nilza Azzi
#cinquina
Sensação
passou a pata
pousou o pássaro
voou o tigre pela savana
bebeu a água qualquer girafa
quicou o Sol sobre a montanha
terra africana, bruta, selvagem
nilza azzi
Emoção
Inventei a paixão quando cheguei ali,
na janela da alcova. A copa, o cambuci,
as flores sensuais, o ambiente de sonho.
Um pedaço de céu que a cortina mostrava,
a sagrada impressão dos amores perpétuos
e meu corpo fremente a palpitar por ti.
As loucuras que fiz... Depois horas mansas,
o tempo de fruir do teu abraço quieto.
Na lembrança ficou, aquela flor sedosa
e a luz do teu olhar, meu doce colibri.
Nilza Azzi
#ghazel
Ondas
A onda que afoga meu ser em tristeza,
por nada se explica e em nada começa.
Engole meus sonhos, tranquila e sem pressa,
e afunda no abismo, minh’alma indefesa.
É um mundo perdido que a dor atravessa,
e nele não sobra nem luz, nem beleza.
Somente a saudade é que ali vive presa
a quando esta vida era sempre promessa.
Mas dizem que o mar, devolvendo às areias,
qualquer corpo estranho, em marés, quando cheias,
promove a limpeza das águas... Decerto,
mais limpa é a praia, em lugar mais deserto,
e as ondas que vêm e que vão, sobretudo,
não podem roubar-me a coragem... E eu mudo!
Nilza Azzi