Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
o meu desejo por você vem das águas primordiais, porque lá, um dia, estivemos em comunhão, partilhamos a graça de um só coração e flutuamos, em êxtase, qual feto que desconhece em seu destino uma separação!
o meu desejo por você vem do barro de que fomos feitos ao emergir da águas para os céus, onde o ar suavemente nos secou e o fogo nos forneceu impulso, para que pudéssemos carregar cada qual, o nosso próprio Ser, insuspeita ainda a dor da Queda, a saudade de nossa inocência...
então, quando irrompe, meu desejo brota, poro por poro, em gotas d’água cintilantes! eu me molho por você, como um cântaro saturado, que não pode mais conter a umidade transbordante.
em meu desejo por você, eu, líquida, sou fonte única a matar a sua sede; sou lembrança das origens, na memória resguardada.
sereia de canto mágico aguardo em águas amenas, mas a intenção, não duvide, é levá-lo a nadar comigo, eterno mar abissal!
Nilza Azzi
83
Natureza reciclada
Entre brotos e botões, a primavera tece o rubro colorido e se prepara, com a cor mais adorável e mais rara, e com calma, pouco a pouco, ela se altera.
Foi preciso um ano inteiro e quem repara nos galhinhos que dormiram longa espera, entre os raios, sob o sol, vê que prospera um vermelho intermitente e uma tiara,
debruçada sobre o arco, adorna a entrada. Logo, logo as flores vão formar cascata: À visão de intensa cor, atordoadas,
borboletas... As asinhas abstratas das abelhas, transparentes – quase nada – e avezinhas com seu canto e passeata...
Nilza Azzi
232
Estragos de mim...
Estragos de mim esses olhos em seus caminhos indiscretos penetram as sombras sem medo descobrem alternativas
Começos de mim essa boca faminta por beijos errantes
Numa tela de Djanira a vida plana como um rio escoa a luz do momento reflete os desejos sinuosos
Entre as negras sobrancelhas surge um vinco involuntário
Nilza Azzi
243
Retrato de alguém
Sou assim sem graça, sem glamour ou dramas o que em mim se passa, guardo lá nas tramas de um pensar distante. Nada por dizer, passo a voz adiante.
Meu modo de ser desafia a norma pouco sei de mim do que me transforma nesse ser que, enfim arrebenta a casca e quer redefinir aquilo em que se enrasca...
Nilza Azzi
99
Velha toada
As flores que vi na estrada toldaram meus pensamentos, não deixaram sobrar nada atrás dos meus passos lentos.
Na praia vivo do vento que sopra vindo do mar; em terra, mas que tormento, jamais paro de pensar.
Entre flores, ventos, ondas, desisto de procurar; não acho quem me responda quantos peixes tem o mar.
Meu amor, na maré cheia, catei conchas, persegui caranguejos pela areia, mas não te encontrei ali.
Foi nos ares da montanha que encontrei alguma paz; o silêncio me acompanha: pensar, já não penso mais.
Nilza Azzi
107
uma garrafa...
Uma garrafa vazia de fato, está sempre cheia de toda luz que alumia e do ar que nos rodeia...
Nilza Azzi
205
Verão
Fez xixi aqui, mijou ali, marcou lá adiante, o cãozinho atravessou a praça indiferente ao sol...
Balançava a cauda erguida, orgulho de macho, ao sumir do outro lado na direção do bar do Sei lá... (argh!)
Nilza Azzi
41
Sexo legal
quero sexo ali na hora da vontade sem luxo na força da natureza e se o bucho cresce e me aparecem os meninos o destino que eles têm na cidade pode ser um descaminho mas no cantinho onde vivo quando eles pegam idade são os braços que me ajudam a pôr comida na mesa
nilza azzi
43
Ser flor...
ser flor e nada ser antes de abrir-me como se o imo revelado ainda guardasse o pólen para abelhas que passeiam carregadas de amarelo
nilza azzi
46
Testamento
Em bela caligrafia, registro minhas previsões para um futuro sem rima. À margem, anoto, a esmo, observações sem sentido sobre o meu poema barato. Imprimo o mata-borrão e tenho cópia em espelho... Escolho um velho envelope, guardo o papel bem dobrado, derreto o lacre na chama e selo o vão conteúdo. Marco a data de abertura, num feriado do futuro... Coço a pinta no nariz e caço a velha vassoura que nem sei onde ficou.