Ah, que saudade
Ah, que saudade eu tenho das palavras
que a voz se me embargou e, assim, não disse,
pois se perderam, longe, em outras lavras
foram reverberar minha sandice...
Nilza Azzi
No limiar da natureza
(“Se é de metal, minha visão atina
e ao pedregulho mais comum eu canto.” — Bento Ferraz)
Percorro as poucas ruas do meu bairro, as casas que contornam labirintos,os muros, pelo musgo escuro, tintos, as portas e janelas de madeira,um gato que aparece e já se esgueira, a velha que me espia da janela,a jovem sorridente e muito bela, e tudo que provoca algum espanto,se é natural, minha visão atinae o pedregulho mais comum eu canto,porque, se a natureza me convida,não posso desprezar o seu chamado.No mundo, eu não me sinto deslocado, meu bairro é sempre cheio de surpresase posso descobrir muitas belezas, apenas, ao dobrar qualquer esquina:Se é natural, minha visão atinae o pedregulho mais comum eu cantoe, assim, a cada pedra eu amo tanto,pois pedras também guardam sutilezase nada do que vejo é permanente...As nuvens condensadas pelo céu, os pássaros, em súbito escarcéu,acabam por gravar-se na retina.Se é natural, minha visão atinae o pedregulho mais comum eu canto...Meu canto almeja ser um acalanto, qual música suave das esferas, os sons que já vararam tantas eras,ou mesmo o próprio Verbo sacrossanto!Quem dera que o meu canto fosse ouvido,tal fosse uma verdade cristalina!Se é natural, minha visão atinae o pedregulho mais comum eu canto,assim evito apenas que o meu pranto, vertido por tristezas inconfessas, percorra as muitas ruas e travessasdo bairro onde nasci, faz algum tempoe os sonhos que deixei no calçamentoe a paz sejam reais, e não promessas...À paz, a inteligência se destina!Se é natural, minha visão atinae o pedregulho mais comum eu canto.A pedra não tem vida e, entretanto,não causa nenhum mal ao semelhante.Inerte, seu valor é mais constante,que aquele do mais mísero animal.Afeito a fazer bem, só faz o mal,e atinge com furor seu semelhante,esquece que o Amor é dom vital.Nilza Azzi
#poema com mote migrante
Vou pra Jabuticabal
Vou pra *Jabuticabal
– vou colher jabuticaba –
escolher em qual quintal
a fruta nunca se acaba.
Gosto de manga com sal;
pode ser verde, a goiaba,
desde que não faça mal,
eu como e não fico braba,
mas em Jabuticabal,
sou pajé da minha taba.
Nilza Azzi
*Jabuticabal: cidade do interior de SP
Se essa lua...
se essa lua, se essa lua fosse minha
eu pedia, eu pedia pra entregar
lá na rua onde existe uma casinha
que seria mais bonita 'inda ao luar
nilza azzi
Vazios
Eu tenho as mãos geladas, olhos baços,
sem ti, o mundo, inerte, perde o viço
e a vida se desfaz num tom mortiço;
sem ti, tudo me escapa, faltam laços...
Os dias vão e vêm, e nem por isso
serão os meus desejos, mais escassos,
nas horas que me escapam aos pedaços,
sem graça, pois me falta o teu feitiço.
A noite chega cheia de arrepios,
mas sonho que divido a minha cama
contigo, que teu corpo por mim clama,
porém meu leito assoma em seus vazios
e sem o teu calor, não tenho nada:
— A noite é uma esperança esfarrapada.
Nilza Azzi
Eu tenho
Eu tenho as mãos geladas, olhos baços,
sem ti, o mundo é inerte, perde o viço
e a vida se desfaz num tom mortiço;
sem ti, tudo me escapa, faltam laços...
Nilza Azzi
(... to be continued)
Gente esperta
Numa cidade pequena,
nalgum interior qualquer,
um grupo, sem qualquer pena,
daqueles que ninguém quer,
por certo, se divertia
às custas de um biscateiro,
homem de pouca valia,
que esmolava o dia inteiro...
Era pouca a inteligência,
daquele pobre coitado
e, com diária freqüência,
ao bar ele era chamado.
Já era fato certeiro
a oferta que lhe faziam;
lhe ofereciam dinheiro,
mas uma escolha pediam.
Duas moedas por vez,
lhe eram oferecidas.
A escolha que sempre fez
pois não eram parecidas,
(tinha a grande pouca monta
e a pequena mais valia),
mas para ele o que conta?
Pelo tamanho escolhia.
A maior valia menos,
mas ele pegava aquela
e todos riam, serenos,
já sabendo da mazela.
Mas um dia um camarada
chamou-o e perguntou:
– Você nunca notou nada,
na moeda que pegou?
Você nunca percebeu
que seu valor é menor?
– Sei sim, ele respondeu,
pondo um olhar ao redor;
muito menos ela vale,
cinco vezes na verdade,
mas a menos que me cale
e esqueça a minha vontade
de escolher a mais valiosa,
acaba-se a brincadeira
a turma fica furiosa...
Escolho então de primeira
a que vale menos, sim,
pois ao menos, diariamente,
eles entregam pra mim
uma moeda, um presente.
Que se pode concluir
dessa história tão comum?
Não se pode deduzir
e à toa fazer zum-zum,
que é tolo quem mais parece.
Nem sempre será tão certo
alguém pensar que conhece;
o sujeito era é esperto...
Quanta vantagem tiravam
do tolo? Faça um juízo!
Nenhuma, porém se achavam,
por certo donos de siso.
Alem disso, interessante,
eis um fato a se notar,
quem quiser maior montante,
pode sem nada ficar.
Outra coisa pra pensar
para refletir bastante:
podemos ignorar
o que pensa o semelhante
sobre nós e estarmos bem.
Ainda que outros não façam
o juízo que convém,
opiniões não desgraçam;
mais importa é o que nós somos.
Pode ser que alguém capaz
não demonstre, não supomos,
quem sabe até se lhe apraz
parecer ignorante
diante de outro bem tolo,
que faz pose, é arrogante,
porém nulo, sem miolo...
Nilza Azzi #cordel
(Baseado em texto de Arnaldo Jabor: “Pessoas Inteligentes”.)
Tenho medo
tenho medo
tenho medo de ti como de um rio
cuja profundeza não conheço
medo das águas agitadas e escuras
da correnteza que escorrega sobre as pedras
e dos caminhos longínquos e perdidos
tenho medo de ti, dos teus segredos
das tuas noites solitárias, dos teus ermos
da inconstância que me assusta os sonhos
da tua força sem medidas sobre o tempo que vacila
tenho medo da tua sombra sobre mim
tenho medo de ti como de um lago
dessa calma sempre atenta de águas claras
da grandiosidade do céu sobre as montanhas
vendo a pequenez do barco sobre as águas
os limites do horizonte ao fim da tarde
tenho medo de ti como de entrar no mar
quando as ondas me puxam para o fundo
mas atraída pelo impulso das marolas
busco o prazer de navegar nesse teu mundo
nilza azzi
A trova
A trova é uma arte antiga,
tão simples e encantadora;
de trovar não se fatiga
a minh’alma trovadora...
Nilza Azzi
Fascínios
Em face a borboletas e corujas,
escolho as borboletas, por que não?
As borboletas, co'as patinhas sujas
de pólen, entre as flores, sempre são
presenças delicadas, são beleza.
Encantam todos, sempre uma atração,
as borboletas, leves, indefesas...
Nilza Azzi