Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Certo dia, conheci abaetê, entre os brilhos da formosa airumã, quando ainda não nascera um novo oirã, e crescente, ia subindo airequecê...
Aprumado, vou saindo da carioca se um caboclo chega e diz baixo:-Anauê! Muito antes do começo de aracê, lá na ocara chega quem saiu da oca.
Os carinhos, eu relembro, da cunhã os sussurros em seu doce abanheém e não quero ter que ouvir nhenhenhém... Como é bom rolar por esse ybytatã!
Eu me sirvo da tigela de açaí, depois cuido de plantar uma juçara. Bem pertinho, vou ouvindo nhambiquara, que me aponta ao longe o belo ybacoby.
Não há mais escuridão, porque yami foi expulsa lá nos lados de araxá. De partida, levo junto o meu puçá; sem demora me encontrei com meu guri.
Vou pisando no capim, o aguapé colherei, porém não antes de virã. Ao voltar celebraremos... Anacã! Boa festa tem presença de avaré!
Animado vou tocando maracá; trago as honras de um valente guarini, que chegou, glorioso, vem de anomati e só quer rever, feliz, seu doce obá!
Mbyci (Bartira)
*exercício poético em que as rimas são vocábulos do tupi-guarani
97
Máscara
Sem metro, sem rima, sem pausa, sem cor, perdidos no espaço, sumiram de vista; são mil fragmentos... por mais que eu insista, eu não reconheço um pedaço, um valor
daquilo que outrora chamou-se razão. São tantos pedaços que ao mundo entreguei... O mais puro afeto, ao capricho da Lei escapa de mim, e eu não tenho noção
daquilo que espera por mim de ora em diante. Então eu não quero ser mais comportada, eu rompo com tudo e caminho adiante,
cantando revolta e tristeza guardada. A vida é cruel, é uma dor delirante: a poesia mascara essa dor tão danada.
Nilza Azzi
227
Inferno
Esse inferno, lugar de solidão, é por vezes o céu em que eu habito, onde as luzes eternas brilharão, só quando for calado o último grito.
E a solidão, procura do infinito, a forma mais real deste meu chão, faz flutuar, alheio e esquisito, o anseio que as manhãs jamais verão.
E o parco dos recursos, que aqui tenho, aguento, sem franzir sequer o cenho: – As brasas, sempre vivas, encobertas,
que queimam, descartadas as ofertas, de todas e quaisquer outras saídas, sem céu e sem razões desentendidas...
Nilza Azzi
198
Tolices
Ah, se de fato não se consentisse que nada se dissesse assim, à toa, por vaidade, até mesmo por tolice, ou só porque o silêncio descorçoa.
E se da voz, o som não mais se ouvissse, levando essa canção que só destoa, a mesma loa em forma de sandice, a frase que compõe qualquer pessoa.
Reservaria um tanto dos meus sonhos, poemas que jamais escreveria, os ninhos de algodão, meus pensamentos.
E como os anjos, róseos e risonhos, viveria nas nuvens, noite e dia, bem longe deste mundo barulhento.
Nilza Azzi
64
Impressões
Essa forma liquefeita se me escorre, tal recuo das marés. Deixa conchas cintilantes – na areia esponja – bem debaixo dos meus pés, as casquinhas já vazias... Esses mundos submersos meu terreno, as escarpas abissais, os taludes traiçoeiros escorregam amplitudes naturais. Quanto mais eu trago ao mundo mais palavras, mais realço as profundezas. Veladuras de metais, esse choque de texturas não explica a cena, o quadro; deixa apenas impressões...
Nilza Azzi
74
Águas de julho
Raio e trovão, a chuva cai bem forte; lá fora é frio e dentro é quase morte. É feito pausa extremamente longa que mora n’alma e nela se prolonga.
E a chuva sempre modifica o ar, ora mais leve de tanto chorar ora mais claro, pois que foi lavado, depois que a chuva foi para outro lado.
Porém sem chuva, sem a tempestade que, de repente, a nossa vida invade, não sobra graça, brilho à luz do sol,
fazendo o arco em cores no arrebol, nem a candura que se experimenta, quando afinal acaba-se a tormenta.
Nilza Azzi
242
Sensações de Inverno
No inverno desolado, a cada dia, o tempo escoa lento e rigoroso, entanto, se a coberta é bem macia, encontro na estação, deleite e gozo.
Se acordo cedo, a névoa delicia confere graça ao campo, inda brumoso, e o chocolate quente é uma alegria; reconfortante, além de delicioso...
E quando à tarde, espio da janela o fim que mais e mais, já não se arreda, nenhuma sensação é como aquela;
no azul do esquecimento a dor se hospeda, o dia chega ao termo e nos revela gentil, no firmamento, um sol em queda.
Nilza Azzi
72
Azul ausente
“Verificar o azul nem sempre é puro.”
(Do azul, num soneto_Alphonsus de Guimaraens Filho)
E não havia azul, mais, no meu mundo. Nenhum azul na noite sem estrelas e nem no mar, nos rios e nem pelas pequenas poças d’água... De azul fundo
não eram mais as flores e querê-las azuis não me traria o tom rotundo, o azul sempre tão caro, pois, segundo um deus qualquer, dá bom fado às camelas.
E sem o azul, perdeu-se a luz mais bela; tudo ganhou a cor da tempestade, os cinzas derrubando o horizonte.
E a cor mais triste vista bem defronte, tinge-me os olhos, quando o pranto invade, falto de azul... Que grande ausência, aquela!
Nilza Azzi
223
Acaso
Quisera acreditar em mim, a poetisa! É um nome tão formoso e creio que cai bem, mas sou mulher que, hoje, o chão das Letras, pisa e imprime à sua arte, a força que não tem.
Mas para tal mister, há que ser mais precisa e confiar em si – vencer todo desdém – fazer do seu labor a última divisa. Na busca do mais belo, espaço de ir além!
E bem quando a tristeza espalha mais raízes, e quando qualquer fé escapa e vai embora, mais forte é o seu verso, os ditos mais felizes
registra em seu poema e quase é a senhora da dor e da alegria... E as raras cicatrizes cura n'água salgada – as lágrimas que chora.
Nilza Azzi
85
Arranjos cósmicos
Quase notei, o vento no meu rosto, uma emoção guardada só pra mim, embora fosse um mimo já suposto. Recordação de um tempo sem ter fim invade a alma com grande doçura, deixando um leve cheiro de jasmim. Onde, no tempo, tua essência pura passou por mim para falar de amor? A imensidão testemunhou a jura, unindo o céu completo em luz e cor. Lendas distantes, calor envolvente; o imemorial jorra avassalador, fazendo a estrada sempre diferente, embora brilhe nessa mesma luz. Rolam as águas vindas das vertentes, nascem segredos, bardo que seduz... A nova aurora guarda o seu segredo; nunca abandona a quem lhe faça jus. Depois da esquina, da dobra do medo, o coração só quer saber de amar como sinal que ―seja tarde ou cedo, o mundo vai se desacelerar. Sonhar enfim com encontrar guarida, ter no universo, um único lugar, na fonte certa, a água preferida.