Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Quando chove, e a chuva manda, um ar fresco, limpo e úmido, leio um livro na varanda, enquanto me olhas, tímido.
Nilza Azzi
34
Refletores
Caminhar até à face mais verdadeira e desvestir a última fantasia, tirar máscaras e máscaras, sem fim. Descer fundo na alma, baixar degraus, onde não há mais luz a refletir, imagens distorcidas, realidades, despir véus e véus, entrever outros mais.
Caminhar pela Casa da Vida e ver-me alta, magra, nariz distorcido, incapaz de farejar o rumo certo, olhos arregalados, boca torta, incapaz, ante o chamado das palavras. Cabelos espichados, orelhas tão grandes, sem acuidade para ouvir a voz de Deus.
Caminhar, me perder no labirinto, bater contra as faces enganosas, ao supor ter caminhado em linha reta. Sentir na fronte o empecilho da cegueira, fitar, fitar a pupila dos meus olhos − e ver-me sem resposta.
Amedrontada, voltar à superfície, olhar pra fora, buscar revelações das cores, sons, vozes da Natureza. Atenta, misturar-me aos animais e plantas... Ser uma abelha a recolher o néctar, ou a formiga a percorrer a trilha, ver-me urubu, a engolir carniça, voar, condor, a devorar alturas, animal livre, cavalgar os campos, canário triste, dentro da gaiola.
Tornar-me flor, a exalar perfume, tronco, aceitar o corte que me abala, sem queixa, viga, a sustentar o teto. Seguir rasteira, inocular venenos, percorrer os miolos das florestas, bicho-preguiça, descansar a eternidade.
Saltar da árvore, quebrar todos os espelhos, E, sem respostas, prosseguir, a caminhar...
Nilza Azzi
60
Laços
Caminhada rumo aos céus, momento do nada.
Sem definição a nos unir, morre minha vida ao longe.
Invade-me a força do teu ser. Esmoreço. Entrego minha morte. Incita-me o amor. Reconheço razão no prosseguir...
À criança assustada, a mão, um olhar. A voz muda determina a liberdade. Me apago.
Teus pés, pegadas fortes, beijo e choro em solidão. Afagos tentam suprimir cansaço longo (com esmero).
Sei a despedida a aprender. Sempre possibilidade novo laço. Amar e desatar.
Nilza Azzi
47
Flores
Vou compor um ramalhete Com flores do meu amor Desisti, vão sem bilhete Apenas aroma e cor
Não vou mandar entregar Nem mesmo escolhi um cartão Prefiro eu mesma levar Vão da minha pra tua mão
E no palco de minh'alma Onde a faina tem efeito A primeira que se espalma O antúrio é o eleito
Diz ele da tua fé Cumprir a lei do serviço De uma entrega que assim é Um divino compromisso
Em seguida o girassol Flor de grande intensidade Da manhã ao arrebol Fala sobre a dualidade
A camélia é aquela Que ensina pelo exemplo Não se toca em flor tão bela Respeita-se como um templo
Vai também maracujá Já entre nós exaltada Unindo os lados que há Na identidade apartada
Magnólia e açucena Pelo perfume que exalam Da verdade sempre plena E da confiança falam
Hibiscos em várias cores Chamado da existência A vivermos os amores Cuidar da sobrevivência
Um mandacaru colhido Nos albores da manhã Coloquei sem alarido Por mostrar da alma o afã
Orquídeas, singelas, raras Trazem noção da unidade Por todas as vidas caras Busca da fraternidade
E finalmente vêm rosas Rosas todas, cores mil Das singelas às pomposas dizem do amor mais gentil
Nilza Azzi
67
Pena capital
Faz frio. É noite. Há fogo aceso. A chama em claridade brinda. Ao penetrar o corpo ileso o lume se desfaz e finda
em sombra. No espaço sem peso, a mente descansa. Bem-vinda, a certeza de ser coeso o ardor de vê-la assim tão linda,
em contraponto àquele céu anil. Sentir tão dentro tal espanto. Procurar seu mel,
aspirar à entrega total, apenas ser um simples réu: o amor a pena capital.
Nilza Azzi
131
Trilha
se nas reviravoltas me cansei das luas e se dos girassóis já se perdeu o encanto é que uma primavera foi embora um dia e nunca num verão eu soube o que era amar
pintei minha loucura em cor bem transparente deixei no céu o adeus sem mesmo refletir nos braços que partiram já não choro mais
se os restos de um poema são de cor brilhante e a trilha das palavras vem do pensamento além do imaginário tine a realidade certeira e mais cruel do que qualquer inferno
mas se numa recusa há sempre uma esperança repousam vinho e mel nos campos semeados
nilza azzi
154
vida
o que dizer dessa festa tão selvagem que mistura e confunde coragem e covardia e coloca assim juntos o joio e o trigo não tão indistintos nem tão emaranhados diante do olhar adormecido que desperta quando chega o dia!
nilza azzi
47
Divagação
Para falar da dor, uma palavra: – Basta! mas ao falar de mim, confesso que não sei, se aquela que busquei foi pecadora ou casta, contida ou arrojada, em vidas que sonhei.
Ao se falar do amor, despreze-se à Jocasta que ao filho se entregou, desrespeitando a Lei e a sorte lamentou, na sina tão nefasta. Eu já não sofro a pena, a sorte revirei.
Em busca da Palavra, eu sigo vida afora e já não tenho filho ou homem que me atarde, não creio na ilusão, nem Édipo me castra.
Das vinhas colher mel, é o meu desejo agora e ao mestre tão atento, eu digo com alarde: – Na fala do Poeta, há um sonho que se alastra.
Nilza Azzi
185
Sol
Me bate o coração, tão loucamente; pressente ter perdido o seu compasso... E o traço de um eletro já enlouquece qualquer especialista de plantão.
Padece desse mal crasso e frequente, irracional de alguns amantes, bem antes que lhes surja algum juízo; perece e já nem sabe o que era antes.
Às vezes até para (arritmia!), assusta o portador de uma extra-sístole, pois tal é o descontrole que lhe causas... Nas pausas, és um sol em minha mente!
Nilza Azzi
32
Quando Susana
Quando Susana saiu para o abraço da rua vazia foi espanto o que varou seu coração e, sim, foi medo o que empurrou seu passo adiante no espaço sem ecos que apenas refletia a cor da chuva na curva distante do céu