Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Da matéria inconsistente e vaga de que são feitos os sonhos guardei num vidro, uma ínfima parte. Quando alguém a quem se ama parte a alma triste e solitária vaga desiludida, sem mais crer em sonhos. Mas, quem outrora navegou nos sonhos, pode recuperar a esperança... (em parte) abrindo o coração, vencendo a vaga.
Nilza Azzi
217
Em foco
Ela era descarada nada temia tudo enfrentava e ousadia era seu lema
Quando era sua vez subia ao palco e brilhava sempre audaz no mundo vogava
Ela era também tímida receosa e tão pequena emitindo um som tão fraco quase cinza de um poema
Nilza Azzi
178
Lagos calmos
Até meu coração às vezes sonha com lagos calmos e suaves ondas...
Enquanto as tardes descansam olhando o voo das aves procuro tuas pegadas ó ninfa das águas claras
Nilza Azzi
160
Abalo
Nada pode provocar-me a lucidez, mesmo quando resisto ao convite do caminho que me afasta de ti... A poesia esvaziou-se de palavras e nesse vácuo não há mais o que temer.
Assusta-me o risco de não poder mais não conseguir chegar ao lugar onde repousa a tua alma e aguentar a solidão... Deixo-me apenas escapar do que não sou pois não há valor no mundo trivial.
O mapa do tesouro foi perdido e cada voz se abala nas histórias que viveu. Difícil e perigoso é o caminho que me afasta de ti, mas ainda encontro fadas nos regatos e seres da natureza junto às fontes.
Nilza Azzi
79
À uma hora
Os passarinhos cantavam
A minha Lília morreu. (folclore português)
quando o Amor vacila a dor estende tentáculos ajeita as suas ventosas agarra-se ao coração até que lhe falte alento
ó alma, que vieste à Terra como amar e não sofrer?
nilza azzi
252
luzes
já cedo acordou Lucinda bem antes do sol surgir na barriga leva ainda o filho que irá parir as dores da vida brinda qual bebesse um elixir
não chega o sol ao nadir e a tarefa dá por finda coseu uma peça linda um cueiro de zefir...
nilza azzi
42
Duvido que você saiba
Duvido que você saiba me explicar o que aqui fiz. Se o texto, com seus segredos, sumiu, diante do nariz, ou ficou no vão dos dedos. Quero ver você agora vir salvar-me dos meus medos!
Duvido que você saiba o que eu senti agora. Quando jorra o chafariz, a lágrima se evapora, mesmo se nos faz feliz? Quero ver você agora escapar por esse triz!
Duvido que você saiba ler piada sem sorrir. Se um quarto é inteiro quando é feito pra dormir, deter fogo sem aceiro... Quero ver você agora, contar tempo sem dinheiro!
Duvido que você saiba cortar a água com faca, tirar o leite das pedras, onde encontrar uma paca, porque uma nuvem empedra... Quero ver você agora achar onde o vento medra!
Duvido que você saiba que não morre uma amizade, nem mesmo quando se crê que tempo mata a saudade daquilo que não se vê... Quero ver você agora entender o que aqui lê!
Duvido que você saiba viver em ilha deserta e ainda achar alguém na hora e medida certa e não duvidar de ninguém... Quero ver você agora trocar tostão por vintém!
Nilza Azzi
59
Assim foi que chorei...
"No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho" (Carlos Drummond de Andrade)
No meio do caminho estava ela e não era a pedra, era a palavra foi quando tudo deixou de ser simples e o meu horizonte escureceu
A palavra não era a pedra nem o caminho do meio era o meio e o caminho era o meio do caminho era tudo que se via
Não havia como desviar impossível um ar de indiferença uma simulação de que não vi
Não! Prosseguir sem enfrentá-la nem pensar, nem sequer uma chance de agir como a água e contornar passar ao lado, assobiando baixo sem um ai ou mesmo um arrepio...
Era o obstáculo real o reconhecimento de que escarnecia da natural forma de dizer-se ainda assim pensei em algum truque a forma mais banal de solução
Pensei em dar um salto, ultrapassar a sua arrogância, o desacato porém aquela força intimidou-me desisti do trajeto bloqueado
Se não puder vencê-la, dizem todos...
Juntei-me à palavra atravessada deixei crescer o nó pela garganta e rolei em regato vida afora
Nilza Azzi
93
Fratura
Partiu-se a porcelana em mil pedaços, a bela estatueta, o bibelô... A vida também tem vários fracassos e assim, nossa amizade não durou.
Distâncias separaram nossos passos, findou-se aquele jogo de ioiô... Os bens da criatura são escassos, é fato e a natureza o revelou.
Com força inabalável e segura desfez-se a esperteza desse engodo, porque sou bem difícil de enganar.
Sinais, os pressenti, peguei no ar, suspeitos, a passar por mim a rodo, e assim foi-se a quimera, um dia pura.
Nilza Azzi
53
Quereres
Querer-me-ia sozinha tão eu mesma e tão alheia ensimesmada em meus sonhos num mundo sem pesadelos sem o medo do abandono.
Querer-me-ia distante tão dona de mim, tão minha presa ao meu mundo tranquilo num tempo sem novidades sem saudade do futuro.
Num susto, vi-me tão perto, tão longe dos meus quereres.