Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

37

Cantiga pop


Contigo apreciei estrelas
onde o mundo já não me atinge:
a entrever na azul poeira,
chispas, faíscas dos confins,

nós éramos seres reais;
à escolha, ao encontro fatal,

as nossas almas partiram,
em uma viagem sem volta,
sideralmente reunidas

no fato que a ti ora exponho,
ou terá sido um mero sonho?

Nilza Azzi_Retranca
69

Você me tira o fôlego


Está distante a vez primeira... Eu não previ
e adormecida eu não senti o seu olhar,
mas acredito, nesse instante eu revivi,
embora às vezes, mal consiga respirar

e já não lembro quantas vezes eu senti
faltar alento, ao ver você se aproximar,
mas sempre ao susto desse amor sobrevivi
e a recompensa não me deixa reclamar.

Quero entender a melhor forma de medir
o que nos traz transformação, nos alimenta
ao mergulhar no que é sentir, chegar ao âmago

e reconheço uma verdade, sem fingir,
é fruição o que minh'alma experimenta,
pois eu confesso sim, você me tira o fôlego!

Nilza Azzi
43

Despojos


As sensações deixei atrás de mim
e já não sou quem quer a plenitude.
Se toda vida, um dia, chega ao fim,
não sei por que buscar tudo que ilude.

Na Terra não há bom, nem há ruim:
apenas acontece que, amiúde,
queremos retornar e crer, assim,
que pode, o que passou, ter amplitude.

Porém qualquer sentir é doloroso,
já que resume a perda posterior
e junto da chegada, está a partida.

Andei, por este mundo, comovida,
mas hoje já não penso num amor;
não mais eu creio que me traga o gozo.

Nilza Azzi
33

Revisão


Além da lembrança, nos tempos antigos,
a Terra e a Lua girando no espaço,
as águas ferventes, o ar inda escasso,
momentos repletos de tantos perigos...
Nos ovos dos mundos, estranhos umbigos
gestavam as formas, ainda sem lar.
O ventre da Mãe concebia, sem par,
futuras belezas, nas formas mais várias,
enquanto no globo, grupavam-se os párias
marcavam galope na beira do mar.

Depois, o intervalo de calma aparente;
ajustes, encaixes surgiram, sem pressa,
e foi olvidada essa fúria pregressa.
Aos poucos a vida mudou o ambiente
e soube fazê-lo de forma eficiente;
criou condições pra poder respirar,
ganhou as lonjuras, sonhou viajar...
Assim espalhou as sementes dos povos
que foram seguidos por outros mais novos,
migrando, em galope, da beira do mar.

A curta memória criou a ilusão
de certo conforto e até mesmo, de paz;
chegou o progresso com tudo que traz.
Na forma sem freios, ausente a razão,
perdeu-se o controle. Problemas, então,
tomaram de vez a atenção secular;
a terra a tremer e, nas ondas do mar,
perigos, tsunamis, tragédias e dor.
No mundo presente, essa cena de horror:
– fugir, em galope, da beira do mar.

Ao homem, pequeno, perante o universo,
compete rever os caminhos que trilha,
deixar de criar sua própria armadilha,
pois toda medalha contém seu reverso.
Mister, é conter esse estrago disperso
que altera a paisagem e faz duvidar
do nosso futuro; é preciso buscar
mais formas viáveis ao meio ambiente,
dar chance a uma vida que, em festa, apresente,
feliz, um galope na beira do mar.

Nilza Azzi
69

Lusco-fusco


Na luz da sala havia escuridão,
mas não por zelo. Era o comedimento
que novas gerações jamais verão;
a vida já foi longa, o tempo, lento.

Memória celular, já não acaso,
notícia de jornal, cheia de acento,
a voz, a vez e a volta ao poço raso;
as noites sem dormir um sono isento.

Nos ciclos e nas eras, queimo, abraso,
alheia ao mundo externo. A alma presa
transita entre o avanço e o atraso;

o homem se adianta à natureza.
Se é o calor mundano que seduz,
a vida é muito escuro e pouca luz.

Nilza Azzi
49

Viagens da Luíza


Conheço muita gente que gosta de frio,
conheço muito mais que prefere o calor;
é muito bom viver nas praias do Brasil,
mas prefiro São Paulo e um bom cobertor.

Espalhou-se a notícia de alguém que sumiu,
alguém que não estava ao inteiro dispor,
na hora da filmagem, que o público viu,
e assim tornou-se um ícone revelador...

Cada qual seleciona um lugar pra viver
todos podem saber, se dá pé, se não dá,
menos a Luíza que voltou para cá.

Acabou-se o passeio, o que se há de fazer?
Sabemos que o inverno anda brabo no norte,
menos a Luíza que não teve essa sorte...

Nilza Azzi
78

Mein schatz


Eu contemplei um pôr de sol à beira-mar
e vi a chuva a escorrer pela vidraça;
olhei a Lua e entendi o que é o luar,
pisei na grama e senti tudo que ela passa.

Achei a fonte e compreendi o que é doar
e de um filhote admirei encanto e graça;
ler um bom livro me rendeu prazer sem par
e um vinho seco eu degustei em linda taça.

Ouvi Beethoven, no meu canto, bem quieta
e caminhei no fim da tarde pela areia;
senti o perfume de uma rosa... quase aberta!

Deixei de lado tudo aquilo que me enleia
e do que eu amo essa é a amostra mais seleta,
só pra dizer do amor por ti, que me rodeia.

Nilza Azzi
638

Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!