Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Contigo apreciei estrelas onde o mundo já não me atinge: a entrever na azul poeira, chispas, faíscas dos confins,
nós éramos seres reais; à escolha, ao encontro fatal,
as nossas almas partiram, em uma viagem sem volta, sideralmente reunidas
no fato que a ti ora exponho, ou terá sido um mero sonho?
Nilza Azzi_Retranca
69
Você me tira o fôlego
Está distante a vez primeira... Eu não previ e adormecida eu não senti o seu olhar, mas acredito, nesse instante eu revivi, embora às vezes, mal consiga respirar
e já não lembro quantas vezes eu senti faltar alento, ao ver você se aproximar, mas sempre ao susto desse amor sobrevivi e a recompensa não me deixa reclamar.
Quero entender a melhor forma de medir o que nos traz transformação, nos alimenta ao mergulhar no que é sentir, chegar ao âmago
e reconheço uma verdade, sem fingir, é fruição o que minh'alma experimenta, pois eu confesso sim, você me tira o fôlego!
Nilza Azzi
43
Despojos
As sensações deixei atrás de mim e já não sou quem quer a plenitude. Se toda vida, um dia, chega ao fim, não sei por que buscar tudo que ilude.
Na Terra não há bom, nem há ruim: apenas acontece que, amiúde, queremos retornar e crer, assim, que pode, o que passou, ter amplitude.
Porém qualquer sentir é doloroso, já que resume a perda posterior e junto da chegada, está a partida.
Andei, por este mundo, comovida, mas hoje já não penso num amor; não mais eu creio que me traga o gozo.
Nilza Azzi
33
Revisão
Além da lembrança, nos tempos antigos, a Terra e a Lua girando no espaço, as águas ferventes, o ar inda escasso, momentos repletos de tantos perigos... Nos ovos dos mundos, estranhos umbigos gestavam as formas, ainda sem lar. O ventre da Mãe concebia, sem par, futuras belezas, nas formas mais várias, enquanto no globo, grupavam-se os párias marcavam galope na beira do mar.
Depois, o intervalo de calma aparente; ajustes, encaixes surgiram, sem pressa, e foi olvidada essa fúria pregressa. Aos poucos a vida mudou o ambiente e soube fazê-lo de forma eficiente; criou condições pra poder respirar, ganhou as lonjuras, sonhou viajar... Assim espalhou as sementes dos povos que foram seguidos por outros mais novos, migrando, em galope, da beira do mar.
A curta memória criou a ilusão de certo conforto e até mesmo, de paz; chegou o progresso com tudo que traz. Na forma sem freios, ausente a razão, perdeu-se o controle. Problemas, então, tomaram de vez a atenção secular; a terra a tremer e, nas ondas do mar, perigos, tsunamis, tragédias e dor. No mundo presente, essa cena de horror: – fugir, em galope, da beira do mar.
Ao homem, pequeno, perante o universo, compete rever os caminhos que trilha, deixar de criar sua própria armadilha, pois toda medalha contém seu reverso. Mister, é conter esse estrago disperso que altera a paisagem e faz duvidar do nosso futuro; é preciso buscar mais formas viáveis ao meio ambiente, dar chance a uma vida que, em festa, apresente, feliz, um galope na beira do mar.
Nilza Azzi
69
Lusco-fusco
Na luz da sala havia escuridão, mas não por zelo. Era o comedimento que novas gerações jamais verão; a vida já foi longa, o tempo, lento.
Memória celular, já não acaso, notícia de jornal, cheia de acento, a voz, a vez e a volta ao poço raso; as noites sem dormir um sono isento.
Nos ciclos e nas eras, queimo, abraso, alheia ao mundo externo. A alma presa transita entre o avanço e o atraso;
o homem se adianta à natureza. Se é o calor mundano que seduz, a vida é muito escuro e pouca luz.
Nilza Azzi
49
Viagens da Luíza
Conheço muita gente que gosta de frio, conheço muito mais que prefere o calor; é muito bom viver nas praias do Brasil, mas prefiro São Paulo e um bom cobertor.
Espalhou-se a notícia de alguém que sumiu, alguém que não estava ao inteiro dispor, na hora da filmagem, que o público viu, e assim tornou-se um ícone revelador...
Cada qual seleciona um lugar pra viver todos podem saber, se dá pé, se não dá, menos a Luíza que voltou para cá.
Acabou-se o passeio, o que se há de fazer? Sabemos que o inverno anda brabo no norte, menos a Luíza que não teve essa sorte...
Nilza Azzi
78
Mein schatz
Eu contemplei um pôr de sol à beira-mar e vi a chuva a escorrer pela vidraça; olhei a Lua e entendi o que é o luar, pisei na grama e senti tudo que ela passa.
Achei a fonte e compreendi o que é doar e de um filhote admirei encanto e graça; ler um bom livro me rendeu prazer sem par e um vinho seco eu degustei em linda taça.
Ouvi Beethoven, no meu canto, bem quieta e caminhei no fim da tarde pela areia; senti o perfume de uma rosa... quase aberta!
Deixei de lado tudo aquilo que me enleia e do que eu amo essa é a amostra mais seleta, só pra dizer do amor por ti, que me rodeia.