Os olhos do meu pai
De menino, eu sabia quando uma nova dor brotava
Pelo silêncio boiando nos rios rubros de sua córnea.
Com o tempo, fui aprendendo que nem toda dor nascia
No silêncio do olhar - havia as que gritavam como louco:
Eram mais dolorosas, fediam a álcool e doíam em todos.
Mas as piores, as piores dores, eram as dores daninhas.
Elas nasciam pra dentro dele, como flores ao contrário:
Despercebidas, como orvalho em chuva que não chovia.
Sem cheiro, sem cor, sem vida, como dor que não doía.