Canta-se, ama-se! Tome
Transborde em vozes sobre os sinos e os fios da tempestade do tempo a eternidade
Canta-se, dança-se! Rode
Falseando os abismos em lascas de dor e criando os brados da formosa aventura
Canta, repete, despete-me!
-se ao cantar, ao chorar,
no meu coração
Toma meu corpo, roda o desejo do amor
Ventura, a tontura, o ardor
Cantemos,
Amemos,
hic et nunc
790
Corporis
Eu sou o rosto que te cruzou
Teu sonho pequeno
Eu sou o marco que não ficou
Areia ao vento
O rastro do teu destino,
A boca torta
A te perseguir pelos becos
Os fantasmas em tua cama
Sou eu em tudo ao mesmo tempo
O sustento de caveira e ossos
A luz e a escuridão
Eu sou a própria sorte
A tua própria encarnação
Sou a chama que te arde
A bailar sobre as almas do passado
Sou nada e somente nada
A dançar a valsa dos Vasos Quebrados
794
Rosa sepultada
São como botões brilhantes os meus olhos
Ardendo sobre brasas de um coração ausente
Como a serpente envolta em dardejante enleio
A rastejar tonturas em lacrimante choro
Qual dia enfumaçado atravessado pelo meio
A me marcar promessas soturnas
Qual sabor amargo disfarçado em flor
Enganando o meu sentido dilacerado
Não tenho sombras acolchoadas em minhas costas
Sou o mundo fechado, a rosa morta pelo chão.
809
Desalento da noite ou da morte da noite pela virgem
Minha noite escura, por que me procuras?
Quer o alento de meu calor?
Quer o profundo do meu suspirar?
A mancha do meu cobertor?
Noite fria, por que me crias?
Não vias pois minha máscara de ferro
Meus olhos em fogo devasso
A angústia do desejo aprisionado
Noite tola, por quem me toma?
Acaso a ti o palor é graça?
Oh noite! Meus lábios são taças
De transbordante anseio
Pobre tola não vejas a mim
A musa do teu passado morto
Pois sou filha do mundo torto
Carnal e carmim
854
Abandono
O que canta e o que me consome
Aqui estou
Abandonado novamente
Na roda dos enjeitados
O que canta e o que me consome
Por que canto
E fui consumido...
A roda roda
em mim.
849
FloresBelas
"Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
São teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito."
Versos de Orgulho
Florbela
Lindo sonho de flores cândidas eternas
Vasos elevados em alturas aéreas
Rosas escarlates, magnólias belas
Perfeito o murmúrio do teu sabor
Enlevada em som de harmonia
Canta o obscuro da tua agonia,
Nas bordas delicada jaz a solidão...
São flores perdidas cândidas eternas
em flores que se vão.
807
Pequena metamorfose
Mesmo sopro derramado
Lágrima vertida em pó
Secaram no meu rosto
Sulcaram o meu rosto,
Resta a aresta que me fica no canto
da boca
O gosto amargo do fel na boca
Viro pedra, me pedrifico
Pedra bruta
Muda
Fria
Só.