As vezes o som do mar chega tarde e os olhos brilham gotas de sangue vagas aguadas ao longe emudecem meu corpo
As vezes o som do mar chega tarde e os vagos suspiros se perdem ondas marinhas no cais de fogo rasgam túmulos d'água
As vezes o som do mar chega tarde e nem sóis de maracujá cruzam pelos céus cinzentos marcas dos escombros em pedaços
As vezes o som do mar chega tarde e o coração entristecido morre nas sombras obscuras dos sonhos parados um frente ao espelho
As vezes o som do mar chega tarde e os colírios ondulantes despencam sobre cabeças vazias de dor só ilusão sobre cores azuis
As vezes o som do mar chega tarde e não conta mais mistérios de amor sobrando histórias usadas e lavadas caindo os adornos e as flores
As vezes o som do mar chega tarde e o cão da corrente prende o ar nos pulmões soltando bolhas sabões alados instantes do não mais
As vezes o som do mar chega tarde e a vida se esvai vazando óleo preto, sofrimento, excremento olhos de brasas cinzas
As vezes o som do mar chega tarde e Eu despenco do abismo dou adeus a todas as coisas encerro os passos sobre nãos enlameados As vezes o som do mar chega tarde ... As vezes o som do mar chega tarde As vezes o som do mar chega tarde
843
Falácia
Arrisco mais em ser sozinho o meu olhar Não pertenço a vagas mortas do mar Habituei meu corpo ao som de luas Não entreguei mais meu coração às putas Sou marca do impensado abismo Por mais que eu cante não encontro siso Agora as noites desprendem luz pelos galhos Agora não tenho a sorte de um céu de estrelas Só por ser aventurado anonimo vagando Quero o disco da música sobre o mundo Pelos recantos vagos em murmúrios vazios Espero das ondas certeiras o aviso do fim Não me espero em mim Sou outro nada habitado Cavando o buraco Aturdindo meu coração vadio As longas histórias do homem a me devorar O texto, a ficção, o meu lar Distante no tempo, vaga-lume Sons, luz, escuro.
781
Cicirandando
Canta-se, ama-se! Tome Transborde em vozes sobre os sinos e os fios da tempestade do tempo a eternidade
Canta-se, dança-se! Rode Falseando os abismos em lascas de dor e criando os brados da formosa aventura
Canta, repete, despete-me! -se ao cantar, ao chorar, no meu coração
Toma meu corpo, roda o desejo do amor Ventura, a tontura, o ardor
Cantemos, Amemos, hic et nunc
790
Corporis
Eu sou o rosto que te cruzou Teu sonho pequeno Eu sou o marco que não ficou Areia ao vento
O rastro do teu destino, A boca torta A te perseguir pelos becos Os fantasmas em tua cama Sou eu em tudo ao mesmo tempo
O sustento de caveira e ossos A luz e a escuridão Eu sou a própria sorte A tua própria encarnação
Sou a chama que te arde A bailar sobre as almas do passado
Sou nada e somente nada A dançar a valsa dos Vasos Quebrados
795
Rosa sepultada
São como botões brilhantes os meus olhos Ardendo sobre brasas de um coração ausente Como a serpente envolta em dardejante enleio A rastejar tonturas em lacrimante choro
Qual dia enfumaçado atravessado pelo meio A me marcar promessas soturnas Qual sabor amargo disfarçado em flor Enganando o meu sentido dilacerado
Não tenho sombras acolchoadas em minhas costas Sou o mundo fechado, a rosa morta pelo chão.
810
Desalento da noite ou da morte da noite pela virgem
Minha noite escura, por que me procuras? Quer o alento de meu calor? Quer o profundo do meu suspirar? A mancha do meu cobertor?
Noite fria, por que me crias? Não vias pois minha máscara de ferro Meus olhos em fogo devasso A angústia do desejo aprisionado
Noite tola, por quem me toma? Acaso a ti o palor é graça? Oh noite! Meus lábios são taças De transbordante anseio
Pobre tola não vejas a mim A musa do teu passado morto Pois sou filha do mundo torto Carnal e carmim
855
Abandono
O que canta e o que me consome Aqui estou Abandonado novamente Na roda dos enjeitados O que canta e o que me consome Por que canto E fui consumido...
A roda roda em mim.
850
FloresBelas
"Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços... São teus braços dentro dos meus braços, Via Láctea fechando o Infinito."
Versos de Orgulho Florbela
Lindo sonho de flores cândidas eternas Vasos elevados em alturas aéreas Rosas escarlates, magnólias belas Perfeito o murmúrio do teu sabor
Enlevada em som de harmonia Canta o obscuro da tua agonia, Nas bordas delicada jaz a solidão... São flores perdidas cândidas eternas em flores que se vão.
808
Pequena metamorfose
Mesmo sopro derramado Lágrima vertida em pó Secaram no meu rosto Sulcaram o meu rosto, Resta a aresta que me fica no canto da boca O gosto amargo do fel na boca Viro pedra, me pedrifico Pedra bruta Muda Fria Só.
772
Louco
Vergado sob o peso do cair na correnteza repuxando os nervos pra cobrir a pele nua falando em pacotes de nuvem o louco da lua cheia nascido do galho seco
A dias passados cantando borboletas na macieira passado um sopro de alívio ao ver azul pra cima um dia talvez ele não morra o louco cantado por raios brilhantes
Na ermida dos passos de um homem no mato a vaca vacila ociosa e com sono de um leite jorrando por dentro de si pela beleza de ter um pouco do escorregado molhado do líquido pela espuma
Assim cruzado no mistério sem nome o louco dos dias de final de mundo entende o cantar da estrela rebatida sobre o couro do chão vê a amarga e doce necessidade do leite o louco por vida pulsando o louco marinheiro da noite de lua de vida comida e vomitada, adubo.