Paulo Jorge

Paulo Jorge

n. 1970 PT PT

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

n. 1970-07-17, Lisboa

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Nascido





Jamais me esquecerei,

Que me fizeram,

Nascer um Dia,

Simplesmente,

Infindável.



Lx, 18-7-2000
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Biografia
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

Poemas

11

Dunas


Dunas douradas esquecidas,
De areias mil,
A brilhar ao Sol perdidas,
Com o Mar de perfil.

Recebes a teus pés as ondas,
Coroadas de puro branco,
Trazem com elas as conchas,
Que te dão tanto encanto.

Deixas-te pelo vento acariciar,
Quando te sussurra paixão,
Vergas-te à nortada polar,
Quando cometes traição.

E de noite ao luar,
Com o céu iluminado,
De mil estrelas a brilhar,
Recebeste meu corpo inanimado.

Cansado de tanto esperar,
Tão frio e desencantado,
Que até a dor fez chorar,
No meu coração desvanecido.

Lx, 28-6-2005
670

Acção, Reacção

As mil e uma verdades,
Para mim absolutas,
São mil e uma inverdades,
Para outro resolutas,
As certezas de hoje,
São incertezas amanhã,
A consciência de hoje,
É padecer no amanhã.

A razão de uma vida,
É a morte irracional,
Tudo nela contida,
É sorte transcendental,
Às vezes pura e genial,
Outras indigna e fútil,
Existência bela e emocional,
Ou sombria e inútil.

O ideal desvanecido em sonho,
Numa vida inteira diluído,
Acaba por não vir a ser estranho,
Estar pela sua própria essência possuído,
E que preencherá o meu vazio,
O meu silêncio doloroso,
O meu inconformismo ímpio,
Ao longo de todo o meu caminho tenebroso.

Lx, 12-10-2004
729

Opacidade Emocional

A monotonia de existir,
Logo ao acordar se instala,
O tédio não me deixa dormir,
E já é de madrugada.

A dor abrigou-se na minha alma,
E o silêncio preencheu a minha vida,
Devagarinho e com muita calma,
Sussurrou-me a morte ao ouvido.

Tão cansado de olhar,
Sentir e pensar,
Sonhar acordado,
Em tudo dar,
Como acabado.

Tão abalado fiquei,
Ao persistir e tentar,
Em vão testemunhei,
Sem nunca ter achado,
O segredo maior,
Tão bem guardado,
O céu à noite,
Estrelado.
Lx, 16-7-2004
774

O Horror

Murmúrios e lamentos vivem comigo,
Lado a lado e por todo o lado,
Vagueiam pelo mundo atolado,
A minha alma oferece-lhes abrigo,
São gerados em silêncio gelado,
Pelas lágrimas do meu chorado,
Libertei de mim o horror guardado.

Gritos dementes ecoam em glória,
Dor lancinante percorre a terra,
Incansável e com vida própria,
Emergindo atroz duma cratera,
Corrompendo tudo à sua passagem,
Tornando o Homem numa miragem,
O horror preencheu toda a paisagem.

A penumbra cobriu-me a esperança,
E os meus sonhos jazem esventrados,
Esconjurei-vos a todos agora degolados,
Que alguém ousou criar à minha semelhança,
Larguei os meus pesadelos ao vento,
Como os vossos carrascos sendo,
O genocídio deu à morte um alento.

Lx, 16-7-2004
658

Tejo Virtuoso

Translúcido e cristalino nasceste,
Lá longe numa nascente abrigada,
Sublime pelas encostas do monte desceste,
Vigoroso e com jovialidade apurada.

Percorreste por leitos tresmalhado,
Incansável banhaste vales carenciados,
Benemérito sem ouvir nunca obrigado,
Ofereces o néctar da vida aos bocados.

Quando passas por mim cansado,
Devagar ondulas ao vento,
Em busca do mar salgado,
Adormeces feliz ao relento.

Água santa da minha terra,
Inspira poetas e enche telas,
Lavado de lágrimas enterra,
Os marinheiros das caravelas.

Eternas ao meu olhar,
Aguardam solenes o destino,
Serenas e calmas a desaguar,
Gaivotas entoam patriotas o hino.

Lx, 2-7-2004
745

Partida

Partirei um dia qualquer,
Triste e dorido com a vida,
Não sei se poderei ousar sequer,
Levar para a morte a alma perdida.

Cedo ou mais tarde estarei de partida,
Levarei comigo o silêncio da vida,
Com certeza lembranças da música ouvida,
O verde dos bosques e o mar de guarida.

Montanhas que ousaram chegar ao céu,
Cobertas de neves eternas geladas,
Contaram-me um segredo quando anoiteceu,
Para lá das nuvens de chuva carregadas.

Que as estrelas todo o dia brilhavam,
Fazendo sempre muita companhia,
Ora duma roda de fogo nasciam,
Ora morriam num buraco negro em agonia.

Com as estrelas irei ter um dia,
Quando o destino reunir a irmandade,
De acordo com tudo o que previa,
Encarnarei um raio de luz em liberdade.


Lx, 1-4-2004
646

Uma Gota de


Uma gota de chuva,
Caída do Céu,
Em Liberdade,
Chorava,
Desencantada.

Uma gota de Luz,
Caída das Estrelas,
Ofuscada,
Vagueava,
Perdida.

Uma gota de mel,
Caída da flor,
Cheia de amor,
Desamparada,
Sonhava,
Angustiada.

Uma gota de fel,
Caída da Alma,
Magoada,
Cansada,
E só.

Lx, 10-11-2007
764

Luar

O Luar esbatia-se em mim,
Iluminando toda a seara,
De chuva prateada sem fim,
Rasgando-se em Noite clara.

O Luar dos amantes,
à beirinha dos portos,
O apego do navegantes,
O beijo dos poetas mortos.

O Luar caiu em mim,
Guardado pelas Estrelas,
Fez-me seu Delfim,
Encantado por todas elas.

O Luar dos montes,
Corre pelos caminhos,
Trás formosura às fontes,
Banhando ainda os moinhos.

O Luar da minha infância,
Era tão belo ao meu olhar,
Interpelava-me à distância,
Comovia-se ao ouvir chorar.

Lx, 1-4-2004
706

O Meu Sonho

Sonho a dormir,
Sonho acordado,
Da consciência sair,
Do mundo acabado.

Sonho com Terra,
Com o Vento e o Mar,
O Sol nunca erra,
De manhã ao raiar.

Sonho com a Noite,
Ao longe a chegar,
Carrega uma foice,
Vem a minha vida cegar.

Sonho com Música,
Arpas e violino,
Só o Silêncio fica,
E o badalar do sino.

Sonho a sonhar,
Com a partida,
Sem nunca chegar,
Só com viagem de ida.

Sonho Eu existir,
Apenas um engano,
Insisto persistir,
Em nódoa de pano.

Sonhei contigo um Dia,
Radiosa e sensual,
Seguias noutra via,
Contrária ao ideal.

Sonhei com algo,
Perdido e vago,
Jogava ao alvo,
Padeceu trespassado.

Sonhei com uma fada,
Sem trono nem luz,
Chorava desalentada,
Pelo Menino Jesus.

Sonhei com Luas distantes,
Num Espaço longínquo a brilhar,
Como gotas de Lágrimas persistentes,
Pousadas na minha face a brincar.

Sonhei com Terra húmida,
Fria de odor pérfido,
Uma cova aberta à medida,
Comigo lá dentro perdido.


Lx, 3-12-2003
730

A Grande Corrida

Corro há tanto tempo,
Sem destino ou rumo,
Corro contra o tempo,
Em desalinho, sem aprumo.

Corro atrás dos cães,
E eles ladram para mim,
As crianças fogem das mães,
Correm comigo para o fim.


Corro por montes e paixões,
Por campinas douradas,
Deixo para trás todos os pavões,
De penas conspurcadas.

Corro ora depressa ora devagar,
Por caminhos estreitos e largos,
Tão cansado sem nada alcançar,
Nem Terra Prometida sem encargos.

Voltei a casa Espírito dormente,
Aventureiro, perdido e demente,
Encarnei o meu corpo pendente,
E com ele adormeci para sempre.

Lx, 10-10-2003
844

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