A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Nascer todos os dias e morrer sempre à noitinha,
Uma cabrinha a pastar com os lobos a deambular,
Vaguear todo o dia mas voltar sempre à tardinha,
Montar um cavalo selvagem sem nunca o amansar.
Amar ardentemente sem o fogo conseguir apagar,
Naufragar na tempestade para vir morrer na praia,
A tristeza triste duma criança órfã a soluçar,
Quando uma pobre catraia no mar se espraia.
Uma garrafa vazia à tona com a maré,
Uma caixa de música com a corda partida,
Uma mulher bonita no meio da ralé,
Um teólogo velho e de alma perdida.
O segredo dos Deuses à solta no manicómio,
Mil prisões e toda a fúria nelas contida,
Um adolescente carente à beira do promontório,
Uma fonte do caminho de água esquecida.
A solidão atroz das multidões em corrupio,
Lamentos e consolos sofridos afim,
As andorinhas na Primavera morrerem ao frio,
Esperar pacientemente a Morte ao fim.
Lx, 12-9-2001
625
Horas Certas
Que bom saber,
Ter o Sol hora marcada,
Para nascer.
Que bom saber,
Ter eu hora marcada,
Para morrer.
Que bom saber,
Não ter o vento hora certa,
Para soprar.
Que bom saber,
Não ter o vento direcção certa,
A tomar.
Que bom saber,
A alvorada preceder o dia nascer,
Tão quente.
Que bom saber,
A noite preceder a minha alma padecer,
Tão demente.
Que bom não saber,
Nada de nada,
E vaguear na estrada.
Que bom não saber,
Onde nos vai levar,
Nem quando lá chegar.
Que bom não saber,
Haver alguém a acenar,
A vir-me esperar.
Que bom não saber,
O caminho da entrada,
Nem ter mapa de chegada.
Que bom não saber,
A rudeza da caminhada,
E de nunca ser lembrada.
Que bom não saber,
Nada de nada,
Só ver o dia nascer por nascer,
Só ver o anoitecer por anoitecer,
E o vento soprar por tudo e por nada.
Lx, 8-8-1999
783
Seara
Uma seara me sorriu,
Foi hoje de manhazinha,
Ondulava ao vento que partiu,
Ficou tão sozinha,
Tão triste ela ficou,
Pelo vento abandonada,
Pisquei-lhe um olho e ela corou,
Ficou por mim enamorada.
Lx, 21-9-2000
655
Esvoaçar
Asas anseiam abrir-se ao vento,
Partilhando com ele a vida,
Voam sob grande tormento,
E a Lua reflecte-se impávida.
Voam por montes e campanários,
Por riachos, vales e feiras,
Matam a sede em fontanários,
De exaustão caiem nas beiras.
Voam ao sabor das correntes,
Ascendentes e descendentes pelo ar,
Asas planam transcendentes,
A tempestade murmura ao chegar.
Asas batem leve levemente,
A chuva não tarda enfim,
A enxurrada cai livremente,
A minha Alma poisa por fim.
Lx. 12-9-1999
639
Monte Estremunhado
Tão branca como as salinas,
A névoa embala as colinas,
Transpiram algo mais que a vida,
Muito para além da já tida,
Contam ao vento as mágoas,
Tão sentidas e choradas pelas lagoas.
O dia estremunhou devagar,
Levantam-se as trevas a bradar,
Escondem-se os espíritos ociosos,
Diluem-se pelos montes tortuosos,
As sombras imperam ao norte,
Ouvem-se sussurros de morte.
Lx, 10-1-2001
613
O Fim
Pareço viver desde o início dos tempos,
As minhas lágrimas criaram os mares,
Porque me abandonaste sem alentos,
Valia mais me cruxificares.
Deixaste-me angustiadamente só,
Nem o vento me acaricia os cabelos,
Nem o sol me aquece a alma em dó,
Nem a fonte sacia os meus apelos.
Trago a Humanidade aos ombros,
Nasci Poeta fatalista,
Sofro pela Humanidade aos tombos,
Morro Poeta idealista.
Nem as colinas do monte,
Nem as ondas do mar,
Nem a moça de fronte,
Me fazem encantar.
Lx, 24-7-2000
665
Desencontros
Porque vieram á cidade,
Quando Eu andava a escalar montanhas,
A navegar em mar alto,
A pescar no rio,
A passear no bosque,
A correr por montados,
A ouvir as aves,
A sentir o vento soprar,
Porque foram embora agora,
Quando fico sentado na tumba pela noite fora,
Alvoroçado pelo alvorecer da aurora.
Lx, 21-7-2000
643
Ser Ou Não Ser
Sou assim,
Porque sou Eu,
Se fosse como qualquer outro,
Deixava de O ser,
Viveria angustiado,
Se me obrigassem a sê-lo,
Ficaria prisioneiro de Mim,
Assim como Sou,
Apenas vivo torturado,
Orgulhosamente Só,
Mas honrado,
Talvez infeliz,
Mas revoltado,
Sou assim,
Sou Poeta,
Fatalista,
Por favor.
Lx, 25-7-2000
610
Sentirei falta Um dia
As montanhas desaparecidas,
As noites de Verão esquecidas,
O pão nosso de cada dia,
Conversas até hora tardia.
Os ribeiros nascem dos rios,
Dos pardais ouvem-se os pios,
Da fonte jorra água pura,
O Sol põe-se, o céu perdura.
Campos verdes ao relento,
Ensombrados por nuvens ao vento,
Árvores esquecidas ao centro,
Com troncos ocos por dentro.
Vales húmidos lacrimejantes,
Geram terras ricas e pujantes,
O luar reflecte-se no orvalho,
A noite acaba mais um dia de trabalho.
Abrupta a falésia precipita-se no mar,
Azul tingido pelo céu a estrelar,
As ondas afagam a areia doirada,
Chamam ofegantes pela alvorada.
Lx, 23-3-1998
651
Cena de Ódio 2
Odeio quando abro a janela ao acordar,
E deparo com um mar de gente a trotar,
Pela rua abaixo, pela rua acima,
Cientes da sua bestialidade ouvem-se zurrar,
São esgoto a céu aberto a caminho do mar,
Uns em baixo, outros por cima,
Como odeio ter a eles de me juntar,
Como é possível com eles ainda me desapontar,
Odeio a plebe porque é acéfala,
Odeio os doutores porque andam de mala,
Odeio os drogados porque cheiram mal,
Odeio a novela porque não é semanal,
Odeio horários de partida e chegada,
Odeio os filhos da madrugada,
Odeio mulheres brutas e sensuais,
Odeio os filhos delas como tais,
Odeio a velhice senil,
Odeio a juventude febril,
Odeio uma criança com uma pomba branca na mão,
Odeio comemorar os laços eternos de união,
Odeio as montras da vossa tentação,
Odeio as vossas conversas de café e perversão,
O vosso pecado original foi não terem todos morrido ao nascer.