Lista de Poemas

PROFUNDO OCEANO

Mergulho destemido pelos mares em teu oceano
Nado em tuas águas, saboreio teu sal e algas
Convivo com as ambíguas criaturas descabidas

Navego ao sabor das ondas e dos ventos surdos
Afloro das tuas estranhas profundezas cardas
Um tempo submerso, outro submergido ao avesso

Me tranco em ti totalmente próximo e íntimo
Sou a tua ilha, baía, teu quinhão de pedra e argila
Tua praia recomposta de areia e terra amalgama

Teu lodo e lama, tua cama de calcário e brita
Fértil mangue que margeia as bordas das Américas
E todos os demais Continentes destas vastas costas

De tanta agua lubrifico, giro e modifico o mundo
De tão vasto comando e comungo tuas entranhas
Porem mínimo sou só um pensamento que te agita
213

JANELA

                 Paulo Sérgio Rosseto

Teus olhos enamoram a lua
Tornando prata a noite bela
Fotografa filma prende
A imagem única à figura
Como vela que atraca
Ao cais do coração
Presa pela proa
No infinito vidro límpido
Da janela

Fico aqui imaginando
Onde estará maior beleza
Se à frente ou detrás dela

@psrosseto

207

NADA

De repente sou a ponte
Onde o rio se deita
E solícito escorre

De repente sou a margem
Que delineia o córrego
E o líquido esbarra e some

De repente sou a praia
Perfeita de espumas
E a maré consome

De repente sou a pedra
Que esbarra as ondas
E desvia os ventos

De repente não sou nada
Nem ponte nem margem nem praia nem pedra
Sou apenas fonte onde a agua medra
231

EXISTO

Eu penso que existo
Não sei se é verdadeiro
Pensar no existir às vezes é omisso
Seria como remeter a um início
O que se encerrou sem ter princípio
E principiou-se por ter sumido

Às vezes penso que posso
O que não é permitido refletir
Aquilo que se imagina sentir
Por unicamente pensar existir
Sem nenhum fundamento
Cabível dentro do pensamento

Por isso sigo as regras dos mortais
Ou seja, vivo entre possíveis rituais
Que me fazem pensar que se penso
Logo sinto  e vivo um pouco mais
206

AVENTURAR-SE

Sou deveras inesperado
Justamente porque na vida
A vida toda é simples aventura

Dessa mistura de presente e passado
Ai de quem não aventurar-se

Antigamente achava eu que o futuro
Fosse o imensamente distante

Hoje sei que o bastante vivido
Nada fora senão um ilhéu no arquipélago
Das circunstâncias do meu mar de anos

Tudo o mais são respostas que eu encontrar
165

GARGANTA

Se descer pela nua perna
Qualquer unguento viscoso
Saberás certamente ser desejoso
Fruto da malícia que te provoca
Na pronúncia de minha língua
A delícia de minha boca

Se escorrer entre a pele e a roupa
O orvalho da tua fruta
Tocarás sobre a leve renda
Os teus dedos bem de mansinho
Sentindo-te secar a garganta
Tão úmida estará tua gruta

Se ao roçar com os pés o falo
Embrulhados em brancas meias
Sentirás o que imagino ser
A maciez desse doce sonho
Enlouquecido pela nudez
Embevecendo o prazer puro

E se na penumbra do quarto
Largada e lânguida de vontades
Te debruçares por sobre a cama
Chamarás a chama que arde
Como se me ouvisses dizer: te amo
Gozarás ao chamar meu nome
442

TERNURA

Desconfio que ao teu coração faço algum bem
Pois recolho teu gratuito sorriso quando escolho
Passar uns momentos grudado em teus olhos

Não consigo te imaginar longe dos meus planos
Fora até mesmo dos santos demônios
Que atiçam perpendicularmente minha imaginação

Conheço-te melhor que a mim e te preciso
De todas as maneiras inclusive as blindadas
Pelo sofrimento indesejável do inesperado

Aprendemos a repartir os sentimentos
Os gostos pelos prazeres suaves da natureza
De nos reconhecermos nos apegos mínimos

Onde se aclara a saudade que acabamos sentindo
Há uma doce ternura religando toda essa certeza
180

PASSO

Pequenos gestos a qualquer momento e lugar
Desde o dormir ao passear pelos sonhos
Dependurado no dorso de uma nuvem rala
Vendo chover ouvindo o piar dos pássaros
As mãos aparando a leve fumaça do café
Borbulhas do espumante brincando no cristal da taça
Minha criança dançando balé
Caminhar quieto em direção à praça
Depois voltar no tempo e reler as cartas
Que te escrevia com palavras sem nexo e graça

Tenho tudo abastado repleto dos prazeres raros
Completo como se completa
Meu ciclo a cada dia

Por isso não envelheço
Apenas passo
192

ABISMO

Jamais temi abismos
É das profundezas que brotam também as grandes inspirações
Dos escarpados nascem inesperadas e saudáveis decisões
Do íngreme surge a versatilidade da renovação
Do inexplorado o lado maleável da versão

No fundo partilhamos as melhores experiências
E recolhemos gratificantes os resultados do que buscamos

Enquanto lamentam ausência de luz
Sigo de olhos fechados instintivo como um furacão
Seguro em suas mãos
209

AMAR

         Paulo Sérgio Rosseto

Adormeceria
Como entorpece o equilibrista
Os olhos de quem encanta-se
Sob a atenção do artista

Entorpeceria
Como acorda o olhar
Quem compartilha
A arte de ousar

Permaneceria adormecido
Despertaria entorpecido
Apaixonadamente amante
Eternamente solícito
Ante o torpor de amar

@psrosseto
@taperapua_editora

223

Comentários (2)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.