Lista de Poemas

ENCANTADA

Essa uva detém textura pronta
Maturada para há tempo
Tornar-se ainda mais casta
E de tão pura
Vinho

Encherá bocas com taninos
De prazeres indulgentes
Enquanto os lábios do tempo beijam-lhe a taça

Entre a pele da casca e o cerne das sementes
Lívida amadurece embriaga
Encantada extasia

Um gole das suas luas
Põe o mundo em estado de graça

Um brinde à vida que aniversaria!
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SEMPRE SERÁ PERTO

                  Paulo Sérgio Rosseto

Bem sabemos o que permanece
Para alguns aflora devagarzinho
A outros acontece com mais pressa

Na verdade a vida é um tanto curta
Enquanto o tempo traz sua medida incerta
As horas galopam exatas

Equilibrados no balanço do prumo
Seguimos confiados na inexatidão da fresta

Mas oh! tanto nos surpreende
Até o que nos absorve ou desprende
Amedrontamos com o pouco que nos resta

As certezas sim surgem do coração aberto
Mesmo que estejamos longe
Agora sempre será perto

@psrosseto

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DESATENTO

Observei que minha sombra displicente
Flanava dispersa translúcida intacta
Distorcendo-se entre beiras e bordas

Roçava indiferente sobre o aceso e o fosco
Sem olhos sem ouvidos sem sentidos
Contorcendo antes ou depois dos rastros
Ou melhor sem encontrar sentido
Ao não sentir os impactos

Senhora quão desatento estou eu!
Não percebi que era a luz dos olhos teus
Quem resguardando antevia
E de fato iluminava os meus atos
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ESCREVA TAMBÉM NÃO

As palavras esquecidas
Ficariam sentidas se perdessem os sentidos
Esmoreceriam mudas sobre a língua
Não fossem inventadas

Mas não seriam únicas feitas de desinvenção
Tenho outras tantas a dizer a pensar
Algumas para escrever
E uma infinidade delas para silenciar
Todas porem dessignificadas

São teimosas essas palavras que me povoam nulas
Tangentes se armam pelo inconsciente
Transitam pela dimensão do falar
Encorajam o calar nessa luta pelo inatingível

Hoje nada escreverei além destas de ilegível grafia  
As demais permanecerão frias
Mas ditadas
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UM BEIJO JOGADO

Foi mesmo um beijo jogado
(Quem até hoje não jogara!)

Era para ter acertado a testa
Entretanto resvalou pelos olhos incerto  
Deslizou pela ponta do nariz
E por um triz não parou nos lábios

O destino quis naquele intrépido inesperado
Antes que no lépido coração tocasse
Titubeasse inusitado entre o pescoço e o braço
Estalasse no ombro desnudado

Enfim entre o susto e o riso do risco
Estatelou-se em mil pedaços
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CARNIS LEVALE

Vieram todas cores e tambores
Alegoricamente agigantados
No formato multidão

Nada mais traziam senão
Intenções em sustentar os sons
Arguidos das guitarras braços
Contrabaixos teclados pernas
Suor passos suingue bandolins
Que se intrometiam no turbilhão
Cantante ritmado das câmeras e gruas
Do que os meus olhos viam

Eu assistia àquele incrível espetáculo
De braços cruzados à beira da rua
Até que o coração fora arrebatado
Indecoro e involuntário
Que nada dizia senão batia batia
Rebatia repicava repedidas vezes
Magicamente me colocando
Respirar aloprado junto à bateria
E fora de mim

Quando me dei conta havia incólume
Passado por entre a alma e a carne
Outro belo carnaval
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ASSINTONIA

Ele mastigava as vozes que ouvia
E o que diziam engolia
Sem sequer sujar os dentes

Saciava-se das lavaredas dispersas
Ao fiar credibilidades
Gritos burburinhos e silêncios

Até que tudo se dispersara
E prevalecessem senão verdades
Ainda que não absolutas

Agora nada mais escuta
Muito menos fala
Nem se assusta
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IDENTIDADE

São os rastros que me seguem
Como fosse guizo parte de mim

Teu cheiro dá pra ver 
Tanto por quanto é canto
Quando acende em teus olhos
O quanto ilumina teu ser

Nessa paixão feita de lados
Nascemos nus e iguais
Depois disso dizem-nos
Uns com menos aporte
Outros talvez por mais

Nada que o sol não dissesse
Se assim não perfumasse
Os segredos mais distantes
Por todo o sempre enfim

Porque conceber é encanto
Somos todos inacessíveis
Vacilo entre acaso e sorte
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OLVIDOR

Pensei ter ouvido deus
Dizer-se triste com tudo
Inconformado com a gente
Em desconsolo com o mundo
Perdido entre as desatenções
Daqueles que oram sem crer
Dos que creem e nem rezam
Ou vivem em estado de graça
E não fazem por merecer

Oh presunção do absurdo
Entremeio aos desacertos
Fui eu quem desdisse adeus
Fiz dos meus tantos encantos
Um rosário de encantados
Presunçoso inconsequente
Deitei-me com a santidade
Nos momentos mais errados
Cuidando da vida alheia
E não de quem estava do lado

Na verdade dissera ele
- Resolvas tu os teus descuidos
Que deslembro eu teus pecados
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ASSINTONIA

Ele mastigava as vozes que ouvia
E o que diziam engolia
Sem sequer sujar os dentes

Saciava-se das lavaredas dispersas
Ao fiar credibilidades
Gritos burburinhos e silêncios

Até que tudo se dispersara
E prevalecessem senão verdades
Ainda que não absolutas

Agora nada mais escuta
Muito menos fala
Nem se assusta
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.