Lista de Poemas

FEBRIL

Está gelada minha face
Porem se acesa a testa
Queima-me o todo que me resta

Se a unha arranha roça
Pelo braço a pele coça
Contundente acalmaria

Doem ossos doem dentes
Inflamam os olhos da alma
Sem palpável disfarce

O tédio receita-me o remédio
Que sobretudo vaporiza
Interna o que entedia

A dor de arder em febre eterna
Paradoxalmente me alivia!
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DETALHES

Meu ultimo escrito
Há de brotar de alguma garrafa
Debaixo de uma rolha
Cujo rotulo trará insígnias assim precisas:

Este poema traz cor robusta
Presença aveludada plena e intensa
Seus aromas lembram frutas maduras
Com notas densas que pigmentam ternura
Na boca tem palavras doces
Macias redondas de significados conexos
Combina perfeitamente com sonhos
Sinônimos e detalhes pequenos da vida

Por fim quem sabe
Tomai e embevecei todos vós
Deste meu tempestivo poema

E ao rodapé discreto lembrete:  

A morte nada mais é
Senão vestir o avesso do que nos cabe
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ALGUM LUGAR

Além é onde não fui porque fica após acolá
Não quer dizer que viva aquém
Porém me encaminho pra lá

Encontrarei bem no centro das historias que vivi
Motivos de ir adiante desbravar hoje o que ontem
Desviou-me por estradas que não iam a algum lugar

Quanto mais tempo vier em favor dos meus anseios
Terei meios de aplacar as vontades que ainda tenho
As audácias que desejo entender de onde venho
E o que aqui vim fazer

Preciso apenas querer que as demoras se sucedam
Que meus medos extirpem e revelem-me os segredos
Nos caminhos que buscar dentro e fora de mim

Efêmero passageiro caminheiro de onde vim
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ALENTO

Os olhos são sentinelas
Das linhas retas dos versos
Para que não misturem as pautas
Embaralhem as letras
Nem percam os sentidos
De como foram dispostas
Nos contextos diversos

Uma palavra mais outra
Outra mais de cada estrofe
Sem ponto sem vírgula sem nada
Não tenha começo nem pausa
Nessa costura dos versos
Exista interstício ou parada

Assim voando soltas
Por sentidos dispersos
Caibam inteiras nos sonhos
Dos corações mais complexos

É assim que poeta e poesia
Exterminam das faces do assombro
Cada um dos maus sentimentos

Todo olhar faz do poema um alento
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INCOMPREENSÍVEL

Quisera buscar significados
E rápido viera à mente um predicado
Diferente

Ventos vozes em remoinhos velozes
Cegaram a compreensão
E nada fiz que impedisse
Esse tremor nas mãos

Se a face encharca por saudade ou desejos
Se os braços buscam apoio para que o dorso não vergue
Ou se a fala embarga de emoção
É porque resisto ante a insistência do tempo

Nessa hora de calmaria pós turbilhão
Deixa-me em contrição
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ESMERO

Esse tempo de anseios e espera
Parece cera enquanto aquece
Derrete-se consome fenece
No entorno do pavio que encandeia
Bem no cerne da vela
E aos olhos faça cores
E tudo se ilumine acenda
E transforme a luz em prece
Na labuta abrupta que respira terra

Olha a pele
Envelopa a carne que também envelhece
Aos poucos o corpo dilacera e em nada se parece
Com a imagem bela de outrora
Porque o que há de mais nítido é justamente o agora
E embora esperamos no futuro o claro evidente
A vida é toda essa obra que renasce presente
Em cada aurora

Aprende a escolher
No escuro as dúvidas
Do opaco as expectativas
No breu espantos
Da penumbra os espasmos
Para aclarar os rumos e domar tua fera

Nestas noites de lua tão intensa sobre as águas
Quem é pedra como eu sonha o dia

Assim a vida menos entristece
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MARESIAS

             Paulo Sérgio Rosseto

Quando o mar me viu
Quebrou-me as cercas
Deixei ser levado
Deixei de ser cais
Tornei-me navio

Parti pelas ondas
Virei maresia
Fui marear em águas profundas

Tentei ser bonança
Calmaria e até fortaleza
Em meio aos temporais

A parte de mim então ancorada
Sustenta-me oculta
Navega-me pela vida

O que me enxergas
É esse outro lado que aflora atrevida
De pura alegoria

Este
Nem mesmo eu saberei
Decifrar jamais

@psrosseto

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DOS POEMAS DE AMOR

Eu tenho medo dos poemas de amor
São arroubos recolhidos por fantasmas em devaneios
Que afinal traduzem tanta realidade pelos versos
Que terminam perniciosos às verdades dos amantes

Estuporam o sabor dos beijos
Detalham a intensidade dos sonhos no suor das mãos
Reconduzem antes à obviedade os desejos
Insinuam que dentro do efêmero até mora a eternidade

Definitivamente eu não os leio
Apenas transcrevo desarranjos que me assopram
Esses endemoniados anjos
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GENUÍNO

Se buscares um poema exato
Não o terás por certo
Mesmo singelo breve suave
Rude ou afável por natureza
Todo poema é feito
Das incertezas
Do afeto

Mas se for para chamar de meu
Que seja este ato
Um apelo tão íntimo e genuíno
Que console tuas expectativas
E transcenda repleto
O imediato

Meu poema te quer
De fato
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NEVE

Esse floco que leve flutua
Teima em não pousar sobre o monte igual toda neve
Reluta aquietar-se junto ao gelo concreto da rua

Prefere estar ao vento suave
Resvalar na vidraça bisbilhoteiro
Escorrer pelo vidro levemente
E desmanchar-se ao vê-la incandescente
Também a derreter-se
Igualmente úmida
Acesa sob os lençóis
Nua

- Quem seria?

Como queria ater-me
Aos sinais da poesia!
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.