Lista de Poemas

ELEGANTE

Se triste é ver um semblante chato
É terno acolher um semblante triste
Pois a tristeza é diferente do sorriso falso
Este sim existe escancarando a face

A tristeza normalmente usa disfarce
Esconde-se atrás de qualquer rosto nulo
Que por vezes nem parece estar cansado
Com o sofrimento que em si abate

Aprende-se com as quedas a enxergar
Verdades e superar dificuldades
Rotineiras que a vida em reservas impõe

Sábio é quem se interpõe ao cotidiano
Enfrenta obstáculos e serena ciente
De que mesmo a tristeza o põe elegante
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PELA VIDA

Lá pelas tantas da vida
Quando se arruma um amor
O amor desarruma tudo
E desestabiliza a logica
Que se derrama de paixão incontida

Lá pelas tantas o amor
Desestabiliza a logica
Desarruma o todo
De quem arruma paixão
A certa altura da vida

Mas que seria da vida
Se não fosse a logica do amor
Em qualquer estagio de paixão
Ainda que desestabilize
Incontido o que se derramou?
 
Que importa derramado
Desestabilizado e ilógico
Se a paixão refaz e renova
E o amor renasce e revive
Em qualquer fase da vida?

A resposta quem dá é a coragem
De amar e apaixonar-se incondicional
Sem importar-se se revive ou renova
Desarruma ou desestabiliza
Quem encontra paixão e amor pela vida
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CADA ERRO ENSINA

Não me tome tão repleto se tua fome não é tanta
Pois o alimento escassa e não é justo que soçobre
O espanto do pecado pelo desperdício da comida

Retira-me do teu armário antes que embolore
Doa-me a quem precisa e pouco tem a recobrir-se
Aquecer do frio, dignificar-se com um mínimo conforto

Da tua agua cede-me um gole que meus lábios molhem
Ou insignificante jarro para que banhe meu dorso
Limpe e lave o sujo que em mim impregna e cola

Vê se ouve minha fala, escuta o clamor que aflige
Minha alma sem guia recostada nas sarjetas
Que margeiam as avenidas dessa vida peregrina

Crê nas verdades que te conto ainda que assuste
E não me cobre do impossível se não te parece real
Pois nem sempre se acerta mas cada erro ensina
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POR DEBAIXO DA PORTA

                    Paulo Sérgio Rosseto

Caso esse vento arteiro sopre lá fora
Colocar agora a língua suave e assopre
Pela mínima fresta por debaixo da porta
E levemente vente por entre tuas pernas
Entregue-se lânguida ao frescor do arrepio
A essa benfazeja brisa que te acaricia

E caso resfrie puxe a coberta
Aconchegue-se ao florido jardim
Do seu travesseiro

Mas se o sono falte
Dê-se ao direito do devaneio

E se porventura incendiar
E tornar-se intensamente desperta
Jogue o lençol
Deixe-se nua e inquieta
Aos doces apelos
Desse vento poeta

@psrosseto

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DOCE DELEITE

Vai muito além da vontade
Por algo doce na madrugada
Um manjar branco ou pudim
Um naco de goiabada
Algum pastel de Belém
Camafeu de nozes
Diamante de morango ao creme

Extrapola o apetite
Pelo açúcar que excita
Que molha os lábios
A boca salivando treme
Por esse lascivo desejo
Do beijo adocicado
Legitimo chocolate ao leite

Doce deleite que arrebata
A sede não de água
Mas do carinho que mata
A saudade que arde sem jeito
No âmago do peito
Nos seios em pêssego
E por onde o querer lateja
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O ASSANHO DO VENTO

Quando faço tinir a corda do violão
O som acorda e acordes ressoam
Em diferentes tons de uma musica boa
Que brota do estojo que mora
No bojo do coração

Esse mesmo ar assopra a flauta, faz melodia
Repica nas mãos o bumbo e o carron
Zune no centro da minha voz
Chega aos céus como louvor
Constrói a paz que se precisa
Fortalece minha alma em festa

Enquanto o pulso compassa
E o corpo resoluto respira
Todo meu ser baila suave
No espaço junto às notas que flutuam
E fazem meu peito sereno arfar

Mas há um momento
Em que a orquestra para
Encerra e termina a cantoria
Então a noite silencia
Para que eu possa ouvir lá fora
O assanho do vento assoviando
Ninar meu sono com sua canção
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OUSADIAS

Meu sol costuma dormir pertinho
Nada dessa historia de ir ao Oriente no final do dia

Ele não viaja, apenas desliga a luz e torna amanhã
Alguma parte de ser que seja tarde
Ou faz amanhecer algo que precise
E nunca deixa de brilhar por mim

Antes de apagar põe os pássaros em suas árvores
Arrebanha as nuvens aos seleiros
Diz aos ventos que arrefeçam e se refaçam
E aos arcanjos que clareiem minha áurea
Para que eu não sonhe em vão ou perca o sono
Descabido temeroso com minha própria insônia
 
Mantem por fim alertas um punhado de estrelas
Por sentinelas, pois caso ela venha saberá
Onde me achar apesar de qualquer escuridão
Que me tome nos braços por ser ainda noite

Ensinou-me que a vida sem ousadias
Por vezes fica ilegítima e sem graça
 
Logo após faz manhã e entendo por fim
Que nada é à toa
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O QUE FAZEM ESSES HOMENS

O que fazem esses homens eternos
Dentro de templos fechados
No silencio sem janelas
Nos enredos de seus passos
Íntimos mistérios
Escondidos em preceitos?

Talvez rezem ou procuram
A oração perfeita e pura
Que cure a alma pela doçura da caridade
E torne mais perfeita e fraterna
Cada ser e a humanidade.

Seriam tantas as respostas
Nessa batalha mística do escuro
Contra a magnitude da vida;
Talvez seja escura busca
Que se aclara com a visão ávida da luz.

Vencem ardilosas e árduas batalhas
Trazem consigo pura e reta
A estrada por onde aprimoram e aprumam
Seus vastos e próprios espaços.

Do que sei guardo com a alma
Se desconheço estudo, e se descubro
Cubro com o manto do segredo.

Me torno também mudo
Como a calma que me resta.

Poucos veem o que fazem
Esses homens de terno.
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EM CADA GOTA

E se ao findar o dia me der um cálice ao meio
E mais meio e meio outro e outro mais meio
Serão deliciosos goles com inigualáveis aromas
Desse tânico raro e violáceo vermelho
A morder meu paladar e a língua a sorvê-lo
Intimamente inebriando-me inteiro

Provar da taça do vinho é um ritual nobre
De frescor frutado, ervas finas, floral, tostado
Um íntimo exercício privilégio de poucos
Ao brindar a loucura no translucido cristal
Que antepara o buque em cada gota que baila
Entre o brinde e o lábio que se entreabre matreiro

Ao bolero, às meias, aos saltos e ao cheiro
Que instigam o devaneio e a paixão sem pudor
Vivencio o diálogo dos sussurros do amor
Às uvas, à vinha e aos sonhos de Baco
Eu, irrequieto poeta provoco, sinto e provo sozinho
Do frescor da lua e sua malícia e final de boca
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POR TODOS OS LADOS

O cheiro da tua lembrança
Perfuma minha solidão
Seu bailar de um lado a outro na sala
Petarda meu sono
Dilata minhas veias
Farfalha e espalha
A vontade de investir todo o meu tempo em você

Parece ser incrível mágica
Viver entre a vontade
E o disfarce em saber nada
Pedir ou querer estar tão próximo
E a um só tempo enormemente distante
Como um veleiro na agua e longe do cais
Que surfa sem leme em mar revolto
Sem ventos para voltar

Há por todos os lados
Sempre um repetido e novo engano
Entre acertos e riscos de errar
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.