Lista de Poemas

ISSO

                    Paulo Sérgio Rosseto

Procuro meu rosto desde ontem

Passando pelo lado profundo
Cedo
Moço
Pouco achei

Depois aclarado
Andei por anversos
Mais rasos que o mundo

Nadei no movediço
Fui a fundo 
Refletindo o que pudesse ser

Só quando
Afundando em meu sumiço
Saberei se valeu
Isso


@psrosseto

8

TRÉGUAS

      Paulo Sérgio Rosseto

Bonanças são felpas
Que voam sem avisos
Colam como gatos
Que sobem no colo 
E ronronam abusados 
Sem licença

Enquanto anjos rolam ventos
Em saquinhos azuis pelas ruas
A calmaria derruba muros
E põe flores sobre os canos dos fuzis
No instante em que
A corda recosta bamba no chão

Aproveita que o fim do mundo cochila
Até que a outra face exploda
E a cobiça conspira e aniquile os bons
Até que morremos todos
Recolhendo as bombas com as mãos

De repente a paz respira

@psrosseto

30

CONFISSÃO

                    Paulo Sérgio Rosseto

Eu te confesso quase tudo
Só não disse que invento mentiras
Para disfarçar menores verdades

De que o único medo que tenho
É de não ser aquilo que finjo
Com tanta convicção
Que até acredito em mim mesmo

Quando nem ainda via o mar
Já dizia ser sal
E quando no escuro umbilical
Achava-me sol

No fundo nasci de um poema
Escrito às pressas
Ágil e raso feito peixe de atol

Às vezes tenho pretensa saudade
Do que nunca vivi
E isso sim de tudo é o pior

@psrosseto

32

RESISTÊNCIA

                      Paulo Sérgio Rosseto

Outro fato que ficou marcado também em 1969, foi a transmissão pela TV, dos passos de Armstrong na Lua. Se milhões de pessoas pelo mundo acompanharam esse feito, os vizinhos de Dr. Mário também puderam assistir. Pois Silvana quando imaginou espalhar a notícia de que havia ganhado uma Teleotto, todos boquiabertos viram o executivo da CM plantar uma antena de TV na lateral da casa, da altura suficiente para que o sinal da longínqua torre pudesse ser captado, transformando aquelas ondas em imagem e som. Pois naquela noite de 20 de Julho estava também a família de João espremida com demais vizinhos na sala da casa de Silvana vendo aquele grande feito da humanidade. O sono venceu a ansiedade das crianças que não entendiam direito o que estava acontecendo. Mas Carlos estava lá, junto dos pais, um tanto incrédulos, assistindo as imagens chuviscadas da transmissão e ouvindo a narrativa do jornalista Hilton Gomes, nos estúdios da TV Globo recém-criada no Rio de Janeiro. Essa mesma televisão foi colocada na varanda da casa de Silvana, para que a rua pudesse ver a final da Copa de 1970, quando o Brasil venceu a Seleção da Itália, no México, pelo placar de quatro a um, sagrando-se tricampeão mundial. Todos esses fatos ficaram marcados para sempre na mente de Inês, João, Carlos, e dos pequenininhos. Jamais puderam esquecer.” (O BARBEIRO DE SELVÍRIA – Paulo Sérgio Rosseto – Ed. Taperapuã – 2026  – 202 pág.)

Este, um trecho do meu novo romance recém-publicado, O BARBEIRO DE SELVÍRIA. 

Olha como sou privilegiado. Também eu, como Carlos, pude ver Armstrong no espaço, naquele 1969. Eu tinha exatos nove anos de idade. E agora, ou melhor, ainda ontem, 01/04/2026, pude assistir também a decolagem da nave ORION da missão Artemis II, a primeira viagem tripulada à órbita da Lua em mais de 50 anos. O foguete SLS partiu do Centro Espacial Kennedy, na Florida, levando quatro astronautas para um sobrevoo de 10 dias, testando sistemas vitais.

A NASA e eu, cada um a seu modo, existimos; meus sistemas vitais ainda funcionam. Por enquanto, resistimos!

@psrosseto

36

ESQUADRINHAS

               Paulo Sérgio Rosseto

A primeira é a da Preguiça
A próxima a da Canseira
Que segue da beira da praia
Até junto ao pé da ladeira

De um lado fica a do Descanso
Do outro a da Boêmia
Que cruzam com a do Repouso
Junto à da Paz e da Tranquilidade

Por elas passei a vida
Nesse pedaço de bairro
Ensaiando meus poemas
Escrevendo solitário
Os rastros que desenhei
Por anos que se passaram

Outras no entorno têm nomes
De flores pássaros e árvores 
Bichos estrelas e gente
Que fundou essa cidade

Umas foram calçadas
E receberam passeios
Mas só a minha ainda anda nua
De mato e areia molhada

Felizmente nenhuma traz nome
De alguma autoridade
Quando isso acontecer
Vou-me embora da Cidade
Vou-me embora da Cidade
Vou-me embora da Cidade

@psrosseto

62

CONFETES

             Paulo Sérgio Rosseto

O chão pulsa
Enquanto os meus passos 
Pedem licença à dança

Corpos navegam em suor e serpentina
Ao meu redor
Rindo dos relâmpagos
No céu de papel colorido

Nem toda máscara protege
E nem todo mundo está perdido
Há sol derretendo nos ombros
Purpurina grudada no tempo
Refrãos nascendo de lembranças
Dos encontros entre o peito e o vento

Somos planetas bêbados de alegria
Feitos de fantasias molhando desejos
Entre máscaras revelando identidades

Carnaval é isso
Instantes que explodem e se eternizam 
Sambando dentro da gente

@psrosseto

79

PENAS

                 Paulo Sérgio Rosseto

Há poemas que voam tão leves
Como fossem vestidos de penas
Que o ar tece fiado nas asas
Por tramas breves e faceiras

Às vezes despojam o chão
Sutis entre voos e quedas rasteiras
Viram sinais letras mensagens
No tear do tempo dos passarinhos

Quem pega uma pena no caminho
Carrega versos inteiros desses nas mãos
Penas que dançam penas que cantam
Penas que abrigam segredos dos ninhos
Penugens que às vezes se deitam sozinhas
Apenas desprendidas a duras penas 
Dores que por besteira flanam em remoinho

Afora traumas lamentos e encantos no entanto
Minhas penas eu as choro sozinho

@psrosseto

48

ESCREVER

             Paulo Sérgio Rosseto

De inicio 
A página é um lago deserto
Onde letra nenhuma navega
Apenas espera o vento de um risco
Um remanso de vogal
O mexer da consoante
Entre vagas por perto
À espera de possível barco

Cada sílaba é um passo 
No silêncio que se fragmenta
Entre a ideia e a palavra
Há um fio discreto

Entretanto a mão que ousa traçar 
Experimenta
Conquista a margem do improvável
Eis que surge outra página em branco
E nos damos novamente em viagem

Escrever é navegar-se do incerto
Ler é o encanto

@psrosseto

31

TRAQUINAS

                     Paulo Sérgio Rosseto

Meu pião escapa rodopia
E arrebenta a janela da menina
Aquela bola tombou entre cacos e gerânios
Agitando o silêncio na tarde que ardia

Do outro lado da cortina
A sombra balança e para
Suspense de câmera lenta no reino da rua
O que se move atrás do vidro rasgado?
Foi um deslize de pura estripulia
O pião em meio ao caos parece um olho
Observando o abismo que ele mesmo abrira

Ninguém respira até que a porta range
E surge a cinderela vestindo azul
Que num pavor maldisse arretada
– Batesse antes de entrar!

A tarde recomeça duplamente arriscada
Sob o olhar da vizinha 
Me buscando na calçada

@psrosseto

44

GRAVETOS

            Paulo Sérgio Rosseto

Todo graveto é mudo de si
Mas caído sussurra ao vento
Coisas de raiz deslembrada

São versos soltos
Que o chão faz juntar
E o vento os ensina a voar sem asa

Enquanto dormem
Besouros e formigas descem para beber
Nas suas lascas e acham água

Até que alguém deduza que sujam a casa
E põe pra queimar esses ossos de árvores podadas
Retesos no sol fazendo sombra pro nada

Quando eu era menino eu juntava tudinho
Para encompridar meus sonhos
E depois descercar porteira de estrada

Um graveto só serve mesmo
Para inventar pontes 
Para os versos que componho
Ou fazer abrigo de passarinho

@psrosseto

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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.