Lista de Poemas

Como nossos pais...


Naquele dia, desejando que fosse melhor que todos os outros, lhe disse.
- Bom dia, desculpe-me por ontem, uma vez mais lhe falei o que não devia e da pior maneira possível...
Apenas reiterava mais um pedido de perdão a quem o amava e suportava seu comportamento de sempre, mas não conseguia mudar de atitude, repetia os passos batidos que não o levaram até então a lugar algum, desnudando suas enormes dificuldades de se olhar, ouvir-se e melhor entender as razões para continuar carregando tantas mágoas e sofrimentos.
Acessar histórias de vida, acreditando apenas na memória, nem sempre fiel aos fatos, é reforçar as crenças enraizadas de que não conseguimos mudar o passado e que estamos fadados a sermos vítimas de nós mesmos.
Nada tem que ser para sempre, especialmente quando envolve o sofrer sem sentido por acreditar que não há jeito ou está gravado em pedra e, portanto, imutável.
O autoconhecimento é uma jornada possível para desarmar essas armadilhas e se permitir um novo caminho e verdadeiros dias novos para si mesmo a para com aqueles que nos amam e nos toleram, melhor encarando as dificuldades normais do dia-a-dia que, por si só, bastam.
Quando não acreditamos que merecemos dias melhores em nossa própria companhia optamos por uma vida ancorada na amargura e sofrimento que nos leva a infelicitar também quem nos escolheu para viver acreditando numa saída para algo melhor.
Quem está ao lado pode pensar da mesma maneira, nessa hipótese passam a ser dois a acreditar que a vida tem que ser como sempre foi, em muitas das vezes igual à saga de seus pais.
256

Beija-flores, amores e flores...


Sou um discípulo dos meus filhos,
mentores que me acolhem
em minhas dúvidas e temores,
e a eles me dirijo com amor.

Não se esqueçam,
cuidem sempre de seus amores,
mirem-se nos beija-flores,
ao se achegarem às flores,
com delicadeza e carinho,
sorvem vidas em seus néctares.

Com sabedoria, não esgotam suas amadas fontes,
continuam voltando, voltando e voltando,
estimulando-as a se manterem belas e vivas,
reciprocidade para todas as vidas.

Flores e beija-flores completam-se e nos ensinam,
com sutileza, cumplicidade, leveza e ternura os laços
se fortalecem sem prender, pois que,
ao contrário, predominaria o egoísmo que seca,
esvaindo-se dia-a-dia a paixão que aprendeu
a ser amor.
267

Valores humanos num planeta em transformação...



Acompanhamos com perplexidade a tensão envolvendo a Coréia do Norte e Estados Unidos, num flerte impensável ante eventual conflito nuclear de resultados inimagináveis para a humanidade.

Já há grande sofrimento com as guerras em curso na Síria e tantas outras regiões do planeta, hoje, oficialmente, ocorrem cerca de 50 delas.

Além dessas guerras oficiais há outras tantas, como as que vemos resultado do narcotráfico nas grandes capitais do Brasil, notadamente Rio de Janeiro e São Paulo.

Fome, seca, frio, inundações, corrupção, homicídios e suicídios, frutos do descaso de autoridades e cidadãos do mundo desconectados de sua responsabilidade social, moral e espiritual para com educação, saúde, infraestrutura e saneamento básico planeta afora.

Os voluntários em ações pelo mundo levam alento e esperança aos que sofrem direta e indiretamente as consequências da insanidade do homem, mostrando o extremo apego ao ter de parcela proporcionalmente pequena de pessoas, especialmente aquelas que detém as riquezas monetárias.

Essas riquezas estão nas mãos de cerca de 3% da população mundial.

Há uma onda de amor, também em curso, fazendo frente ao que há de ruim nesse momento nos mostrando, esperança ativa é um antídoto extremamente eficaz e imprescindível nesses tempos.

Abracemos as causas que propõe o despertar humano para a inadiável ressignificação de valores extremamente materiais e egoístas que teimamos em cultivar, onde estivermos, coloquemos em prática o ensinamento universal aceito por todas as crenças, credos e doutrinas, o amor fraterno e solidário.

Nossas preces diárias fortalecem os que estão caídos.

Paz, amor, ternura e serenidade sempre.
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Segredos que não nos pertencem...

O outro é um universo a ser explorado, conhecido, para tanto há que se ter paciência, carinho, acolhimento, e só será possível se ele assim o permitir.
Nenhuma pessoa tem o direito de devassar o interior da outra, ainda que se pense que será para ajudá-la.
Mal sabemos de nós mesmos porque, em geral, ficamos na superfície do que e do porque somos e o que fizemos.
As muitas construções que nos moldaram ao longo do tempo, em uma jornada de incertezas, descobertas e medos, nos pertencem.
O que há em nossas entranhas só descobriremos se o quisermos, daí a partilhar, só se for com alguém especial, que nos queira bem e nos inspire absoluta confiança, com uma dose dupla de amor e sinceridade.
Se formos escolhidos por alguém que queira e precise dividir seus segredos que tenhamos muito cuidado com o que soubermos pois, ainda assim, não nos pertence.
288

Noite lá fora...


Ser ou ter que parecer forte é difícil,
um pouco de cansaço parece culpa,
ouça,
só por ora,
apenas por hoje,
me dá um tempo,
culpa?
não,
apenas limite,
por favor, me entenda,
eu preciso parar agora,
só por um instante
deixa-me respirar,
cair no sono,
renovar-me,
quando eu desejar um colo,
ou somente um momento,
sem culpa,
nos falamos ou apenas,
silêncio...
293

Silêncio...



O silêncio suscita,
uma mera expressão de desprezo,
se passa indiferença, com certeza doída, deixa ferida,
não duvides, quiçá um grito de socorro,
talvez um medo que paralisa,
muitas interrogações,
acusações, cumplicidade
ou um carinho,
uma das mais puras expressões de amor,
quem sabe um apelo,
mas, por certo,
creia,
não será jamais
apenas silêncio...
276

Preciosos segundos de paz...


Sonhava que estava a sonhar,
onde todos seus desejos poderia realizar,
chegava ao fim de todas suas dores
que alimentavam uma dor profunda,
ao menos uma única vez,
encontrar o dia de não olhar pra trás,
cronologia das marcas de amarras e âncoras,
dos medos que sempre o impediram de ir
a todos lugares com gentes de todos os cantos do mundo,
em que as lágrimas de sofrimentos se transformariam
em rios d'água cristalina a desembocar no mar,
aonde tudo se transmuta, numa espécie de magia,
os vestígios permaneceriam, não mais para lembrar e sofrer,
mas para lá buscar a energia sem fim,
sutil, delicada, a do amor que cresce seguro,
fechando feridas que não param de sangrar,
aquietando mente e coração ansiosos,
apropriando-se de preciosos segundos de paz...
259

Um dia qualquer à sombra do cajueiro..


Vivia o mesmo sonho misturado a despertares onde a tristeza, angústia e solidão se faziam companheiras, afastando-o mais e mais de um dia distante onde conhecia o seu lugar e sua gente.
Onde estavam seu canto, suas coisas, seu quarto, sua cama, a cômoda onde ficavam alguns porta-retratos?
Essa vaga lembrança o deixava confuso.
Porque seu olhar se fixava no chão quando, vez ou outra, alguém passava?
Quanto tempo mais daquela rotina, como se vivesse horas e horas, dias e dias, numa insossa repetição de nadas, sem sentido, aturdido em seu permanente estado de confusão e melancolia?
Alguns instantâneos faziam-no acordar inquieto e perdido, num outro lugar, ambiente simples, de conversas, da varanda, da sombra do cajueiro onde pessoas animadas conversavam e riam tanto, quanto tempo?
- O senhor não comeu nada hoje, vai ficar doente, pode ser que hoje alguém venha vê-lo...
- Precisa parecer melhor, vamos fazer a barba, cortar esses cabelos, trocar esse pijama, tomar um banho, cheirar melhor, o que vão pensar...
- O senhor não está me ouvindo...
- Não tenho mais tempo...

A água fria, por instantes, o desperta desse torpor, sente às costas a parede úmida onde se escora.

- Quem é você?
- Maria, já me esqueceu de novo...
- Onde estou?
- Na sua casa nova...
- Carla?
- Tá vendo, sua filha não pode vir, mas telefona sempre para saber do senhor...
- Chama a Nê...
- Sua esposa foi fazer uma viagem pra bem longe, vai demorar...
- Tome seu remédio, mais tarde volto com seu chá....
- Que dia é hoje?
- Tá mais esquecido, é sábado, dia de visita, por isso tem que ficar bonito...
- Carla..., Nê..., que dia é hoje...

Apenas um dia qualquer na vida de alguém esquecido que se lembra de uma vida distante e que ainda quer seu canto, sua gente, sua memória, seus amores...
254

Jeito e cara nova...


Angulando com visão precária e mãos grossas,
desenhadas nas asperezas dos seus dias,
apanha estimado cinzel e começa,
do nada,
naquele pedaço de pedra bruta,
assim como outros tantos,
guardados e empilhados há tempos,
a dar forma a uma escolha antiga,
conhece bem as sutilezas do tocar em bruto,
a rudez é apenas dum primeiro olhar,
o golpe inicial quebra o silêncio,
mas ele mantém,
em absoluta quietude,
a mesma determinação,
realimentar a cada novo dia,
a esperança,
mas e sempre,
com jeito e cara nova.
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Esperança na terra seca...


Refazem o batido caminho pela velha e conhecida terra seca, o mesmo sol que lhes dá vida também lhes judia marcando-os, nos rostos, os poucos, mas já aparentes muitos mais anos de vida...

Intenso, escaldante, é secura demais...

Se a chuva vier o chão não lhes negará a vida adormecida...

Já faz muito, mas ainda se lembram do último ano onde o inverno foi bom, nessa memória tem cheiro da terra sendo encharcada...

Exaustos chegam ao açude ainda com um pouco de lama, olham para o céu com poucas nuvens...

O pai cai de joelhos e puxa os filhos, com os olhos rabisca no barro todos seus desejos e sonhos como se fossem sementes e suplica:

Meu divino São José,
Aqui estou a vossos pés.
Dá-nos a chuva com abundância,
Meu divino São José.
"O sertão é uma espera enorme",
Dá-nos chuva com abundância,
Meu divino São José.

Talvez nenhum de seus desejos se realize e nenhuma das sementes veja brotar...

Sabe que não há certezas na vida, mas precisa acreditar que haverá ainda uma próxima vez, pelo menos para os meninos...
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Nascido no Brasil, na cidade de Apucarana, estado do Paraná, em 07 de outubro de 1957.

Pai: Node de Barros  Mãe: Gilda Montilha de Barros

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de Taubaté - UNITAU

Graduado em Biologia - Bacharelado pela Universidade de Taubaté - UNITAU

Especialização em Gerontologia pela Universidade do Vale do Paraíba - UNIVAP - São José dos Campos - SP

Mestre pelo Programa de Pósgraduação Interdisciplinar em Desenvolvimento Humano: Formação, Políticas e
Práticas Sociais da Universidade de Taubaté - SP.
Área de Concentração: Contextos, Práticas Sociais e Desenvolvimento Humano.

Tese de Mestrado: ASPECTOS DA CULTURA ORGANIZACIONAL E DO ENVELHECIMENTO EM SERVIDORES
PÚBLICOS DE UM INSTITUTO DE PESQUISAS