Lista de Poemas
cântico da inexistência
tal como na obra "casa de bonecas" de Henrik Ibsen
é necessário suster a respiração
enfrentar a vertigem que é a vida
esperar o prodígio
um prodígio qualquer
e concluir pela sua inexistência.
Pedro Rodrigues de Menezes, "cântico da inexistência"
de pernas para o mar
hoje foi dia
de deixar tudo
de pernas para o mar.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "de pernas para o mar")
logo serei o que existo
talvez não seja
mais que isto
menos aquilo
produto inteiro
real racional
gramática verbo
verborreico sangue
ponto luz corrente
arde-me o crânio
numa estrada luz
exactidão isóscele
coração para o pão
pele pedra sal e sol
ardem distâncias
o velho e a vela
o povo e o polvo
o braço e o baço
ver é beijar no Porto
mãos cruas que vêem
ensimesmada nudez
pobre infinda miséria
o céu aberto em ferida
sombra terror tremor
logo serei o que existo.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "logo serei o que existo")
os amigos
os amigos entardecem como papoilas
pousadas sobre o silêncio da garganta
penso, peso, escrevo, digo - axioma
que há campos póstumos de papoilas
que os amigos são as próprias amoras
invisíveis e negras no esquecimento da noite
absolvidos no absoluto tempo do crânio
rio, bato palmas, não regresso.
Poema dedicado ao Herberto
(Pedro Rodrigues de Menezes, "os amigos")
paradoxo de Banach-Tarski
pudesse eu
quadrado
arrancar
a raiz
quadrada
da vida
menos com menos
dá mais
incoerência
disseram
menos com mais
dá menos
confusão
disseram
mais com mais
dá intervalos
de desconfiança
restauro
rasteiro
paradoxal
(Pedro Rodrigues de Menezes, "paradoxo de Banach-Tarski")
o coração e o pão
quem não parte e reparte o coração
como quem parte e reparte o pão
incapaz de levar o rosto à mão
incapaz de lavar o rosto à mão
veio viu e vendeu o não.
Pedro Rodrigues de Menezes, "o coração e o pão"
Temazcal
bastou-me o incandescente violino
oblíqua labareda alada explodindo
rompendo o incauto negro véu
para que aos pés descessem
todos os imemoriais caminhos
singular tremor vaginal de terra
esplendoroso e fátuo tambor
absoluta e indigente catarse.
(Pedro Rodrigues de Menezes, Temazcal)
anatomia da sombra
trevo ou treva
dizem que depende da perspectiva
dizem
dizem
dizem
mas que olhar e toque seriam necessários
para que os momentos pudessem ficar suspensos
sem o toque desabrido de um astro em labareda
sem o olhar que fere e arde como cascata em lava
espreito
espero
a existência é isto ou nada disto
a inexistência é muito mais que isto ou que aquilo
adormecer sem o peso das pálpebras sobre a carne imunda
lançar braços como uma nova nódoa espécie de árvore
não é da felicidade que eu falo
não é a vida que me cansa
é esta sombra perpétua, asquerosa, que se cola à minha pele
ou é a minha pele asquerosa que se cola à perpetuidade
sim
não
talvez
que a perspectiva seja um problema do mundo actual
somos tantos e tantas são as coisas
que nos exigem, que nos esvaziam nesta nauseabunda ânsia
fazer
produzir
espero ter alcançado o âmago mais vazio da loucura
esvaziar-me, esvair-me como um líquido genial.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "anatomia da sombra")
quod absurdum
numa lentidão
intrépida
subtil
súbita
cadência
tudo me arde
numa lassidão
crânio
memória
orvalho
planta
palavra silêncio
quod absurdum
(Pedro Rodrigues de Menezes, "quod absurdum")
vodu
sem pressa
sem deter
discorre sem forma
e incolor
o deus terrível
profundo
silêncio cálido
que inebria e incapacita
que engole
sem mastigar
os ásperos calos
deformando
as minhas trémulas e gélidas formas
encerrando os olhos
com o capim
e as pedras
e as folhas tardias
do longo inverno
na caverna aberta deste crânio quartzítico
incandescente luz que me atravessa
imobilizado pelas asas abismais
ouço e vejo o temporal
contra a gruta do meu próprio templo
eu sou o templo e a sua ruína
os seus antepassados futuros
isto é o princípio do meu renascimento
e por isso estou estendido nesta catarse
envolvido pelo frondoso sudário da floresta
aguardo a tácita palidez da minha própria morte
talvez eu próprio seja este terrível deus
porque ouço a voz da lua e o corpo do sol
invocando em extintas línguas os meus nomes.
(Pedro Rodrigues de Menezes, “vodu”)
Comentários (6)
Parabéns por continuares sempre a escrever e partilhares a tua obra. Quem escreve nunca está verdadeiramente só. Saibamos agradecer quem por nós passou e permanece deixando o seu legado mais profundo. Um beijo
Lindo bjnhos
Está tudo bem grande poeta bjnhos
Olá Pedro és um orgulho muito sucesso nesta tua etapa bjnhos
Orgulho na escrita do meu querido Primo
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