Pedro Rodrigues de Menezes

Pedro Rodrigues de Menezes

n. 1987 PT PT

Pedro Rodrigues de Menezes nasceu a 24 de Março de 1987, em São Domingos de Benfica, Lisboa. A sua poesia cruza imagética orgânica, estruturas conceptuais e linguagem metafísica, explorando temas como a memória, a ruína afectiva, o desaparecimento e os paradoxos da experiência humana. A sua escrita caracteriza-se pela densidade imagética, pela fragmentação lírica e pela transformação da emoção em estrutura verbal, frequentemente atravessada por referências matemáticas e simbólicas.

n. 1987-03-24, Lisboa

Perfil
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teorema do gesto nulo

deitado de costas

para o mundo

volto-me 

cheio 

girassol 

girando 

o sol

assombro 

crânio 

perpendicular

luz sombra

terrível sofisma 

asas que falam

vozes que voam

pessoas oblíquas 

como água 

pessoas verticais 

como a sede

a mão pousada

no obscuro ombro

determinante

mente e diz que não 

que o peixe morre

pela mão 

pelos gestos

por coisa nenhuma 

abre-se imensa

terra no mar

mas tudo isto porquê 

se eu só queria morrer

sem me querer matar.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "teorema do gesto nulo")

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Biografia
Pedro Rodrigues de Menezes nasceu a 24 de Março de 1987, em São Domingos de Benfica, Lisboa. A sua escrita desenvolve-se sobretudo no domínio da poesia, cruzando imagética orgânica, pensamento conceptual e uma intensa consciência da linguagem enquanto matéria simbólica, emocional e metafísica. A sua obra caracteriza-se pela recorrência de elementos corporais, minerais e abstractos, explorando temas como a memória, o desaparecimento, a ruína afectiva, a solidão e os paradoxos da experiência humana. Nos seus poemas, o corpo surge frequentemente transformado em arquitectura simbólica, enquanto a linguagem oscila entre o fluxo lírico e a contenção estrutural. A sua poesia revela ainda uma inclinação singular para a utilização de estruturas e terminologias de natureza matemática, lógica e teórica, convertendo conceitos abstractos em instrumentos poéticos e emocionais. Títulos como Teorema do Gesto Nulo, Aqueduto dos Sangues Livres ou Aritmética do Luto ilustram uma escrita marcada pela tensão entre emoção e estrutura, entre combustão verbal e cristalização imagética. Embora dialogue, em determinados aspectos, com algumas linhagens da poesia portuguesa contemporânea, a sua voz procura afirmar-se através de uma linguagem própria, fundada na mutação sonora das palavras, na densidade imagética e na construção de sistemas simbólicos onde sangue, pedra, língua, sombra e silêncio assumem uma centralidade recorrente. A sua escrita move-se frequentemente entre o fragmento e o aforismo, entre a anatomia e a abstracção, procurando transformar o indizível em estrutura verbal e o paradoxo em matéria poética.

Poemas

84

algo-ritmo

o passado
o pássaro
quando voam
voam para longe
tão plana a escada
tão plena a escala
nelas caberiam a vida 
o mundo inteiro.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "algo-ritmo")

64

de pernas para o mar

hoje foi dia
de deixar tudo
de pernas para o mar.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "de pernas para o mar")

302

anatomia da sombra

trevo ou treva 
dizem que depende da perspectiva
dizem 
dizem
dizem
mas que olhar e toque seriam necessários 
para que os momentos pudessem ficar suspensos
sem o toque desabrido de um astro em labareda
sem o olhar que fere e arde como cascata em lava
espreito
espero
a existência é isto ou nada disto
a inexistência é muito mais que isto ou que aquilo 
adormecer sem o peso das pálpebras sobre a carne imunda
lançar braços como uma nova nódoa espécie de árvore 
não é da felicidade que eu falo
não é a vida que me cansa
é esta sombra perpétua, asquerosa, que se cola à minha pele
ou é a minha pele asquerosa que se cola à perpetuidade 
sim
não 
talvez
que a perspectiva seja um problema do mundo actual 
somos tantos e tantas são as coisas
que nos exigem, que nos esvaziam nesta nauseabunda ânsia 
fazer
produzir
espero ter alcançado o âmago mais vazio da loucura
esvaziar-me, esvair-me como um líquido genial.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "anatomia da sombra")

232

heurística doméstica

um pano
ou
um plano.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "heurística doméstica")

Poema dedicado a Adília Lopes

83

Temazcal

bastou-me o incandescente violino
oblíqua labareda alada explodindo
rompendo o incauto negro véu 
para que aos pés descessem
todos os imemoriais caminhos
singular tremor vaginal de terra
esplendoroso e fátuo tambor 
absoluta e indigente catarse.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Temazcal)

386

coração à la carte(siano)

abcissamente desordenado
obliquamente perpendicular
que corações teriam cabido
no elevado absoluto vascular 
deste meu esdrúxulo músculo 
perante tão rubicundo pedaço 
é só mesmo perante este cubo só 
capaz de impedir dedos
apontando
apontados 
que eu consigo funcionar 
infinitamente 
indefinido
equacionar
tal equação 
totalizar
o produto 
a incógnita
sendo xis.

[Pedro Rodrigues de Menezes, "coração à la carte(siano)"]

113

física do astro

tudo é denso e pesado 
para quem já só tem asas.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "física do astro")
 

163

o coração e o pão

quem não parte e reparte o coração
como quem parte e reparte o pão
incapaz de levar o rosto à mão
incapaz de lavar o rosto à mão
veio viu e vendeu o não.

Pedro Rodrigues de Menezes, "o coração e o pão"

229

paradoxo de Banach-Tarski

pudesse eu
quadrado 
arrancar
a raiz 
quadrada
da vida
menos com menos
dá mais
incoerência 
disseram
menos com mais
dá menos
confusão 
disseram
mais com mais
dá intervalos
de desconfiança 
restauro
rasteiro
paradoxal.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "paradoxo de Banach-Tarski")

287

beija-mãe

não durmo bem
beijos são beijos
beijos são dados
dados rolados
tantas bocas
tantos beijos
de uma mãe 
vem a boca 
profunda
profundidade da boca 
mais profunda que a boca 
mais funda que a boca
mais alma que boca.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "beija-mãe")

 

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Comentários (6)

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Carina Alexandra Oliveira
Carina Alexandra Oliveira

Parabéns por continuares sempre a escrever e partilhares a tua obra. Quem escreve nunca está verdadeiramente só. Saibamos agradecer quem por nós passou e permanece deixando o seu legado mais profundo. Um beijo

Cândida
Cândida

Lindo bjnhos

Cândida
Cândida

Está tudo bem grande poeta bjnhos

Cândida
Cândida

Olá Pedro és um orgulho muito sucesso nesta tua etapa bjnhos

Rosa Lima
Rosa Lima

Orgulho na escrita do meu querido Primo