Lista de Poemas

coração à la carte(siano)"

abcissamente desordenado
obliquamente perpendicular
que corações teriam cabido
no elevado absoluto vascular 
deste meu esdrúxulo músculo 
perante tão rubicundo pedaço 
é mesm perante este cubo só 
capaz de impedir dedos
apontando
apontados 
consigo eu funcionar 
infinitamente 
inderinido
equacionar
tal equação 
totalizar
o produto 
a incógnita
sendo xis.

[Pedro Rodrigues de Menezes, "coração à la carte(siano)"]

12

derivada do condão umbilical

não há nenhum mistério 
nasce primeiro a poesia
nasce depois o poeta
sem ciências exactas 
com exactidão absurda
nasce prelúdio o grito 
apogeu ensanguentando 
rio correndo pelas pernas
gloriosas na dor da mãe 
e se a criatura vem à luz
talvez "morra na praia"
com o condão umbilical
(não o cordão umbilical)
abraçando a sua garganta 
será por certo mostrengo
poesia cega bruta e sórdida 
dos dedos fará língua oculta
dos espinhos fará mil rosas
elevado no absoluto silêncio 
tecerá tremendos os caules
na planta dos horrendos pés 
e pelos ruidosos caminhos
tecerá o mais negro sepulcro 
ténue véu esvaecido e lúcido 
será tentado a estugar o passo
pelos mesmos campos comuns
que partilha com bois de charrua 
onde a charrua fingirá palavras
onde o boi se move pelos cornos 
e incapaz do objectivo terreno
ser-lhe-á imposto que caminhe
que caminhe sempre incapaz
até que a inevitável escuridão 
se abata leve nas pálpebras.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "derivada do condão umbilical")

87

discursos (Epicteto)

título: discursos 
(Epicteto)

subtítulo: ideias estóicas para uma vida melhor

parece um livro de auto-ajuda 
parece-me um licor de auto-ajuda 

[Pedro Rodrigues de Menezes, "discursos (Epicteto)"]
 

124

húngaros

entrar numa pastelaria
e pedir com leviandade
que me embalem húngaros
como se de Húngaros se tratasse
afinal a felicidade e a ironia
talvez sejam irmãs afastadas
e isto chega-me
é suficiente por hoje.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "húngaros")

126

semântica-quase

falar com gente
estar com gente
que não seja gente
que seja assim
capaz do ponto
sem sinais 
sem finais 
interrogação 
interregno
inconclusão.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "semântica-quase")

125

paradoxo binário

não quero viver
não quero morrer
mas metade da minha força 
é outra metade da minha forca.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "paradoxo binário")

Poema dedicado a Graça Costa
 

168

isto não é isto

isto 
são 
palavras
vírgula 
afinal 
vírgula 
são 
apenas
vírgula 
só um poema
vírgula 
um poema só 
ponto final

(Pedro Rodrigues de Menezes, "isto é um poema")


tal como Bazárov* talvez eu tenha
o pornográfico e fátuo niilismo 
onde o vazio da (in)glória desagua
pueril poderoso estéril e maduro.

*Bazárov, personagem de Pais e Filhos, Ivan Turguénev)

(Pedro Rodrigues de Menezes, "niilismo")


se eu pensar 
por alguns segundos
contarei os segundos
que me levaram a pensar
nos segundos
em que me demorei
nos segundos pensamentos.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "seguindo os segundos pensamentos")

146

polissemia

quando viver é impreciso 
(mas) viver não é preciso 
escrever não é impreciso
(mas) escrever é preciso.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "polissemia")
 

94

o primeiro silêncio

penso
como gostaria 
de ser
uma manhã 
atrás de outra 
manhã 
impávido e sereno 
despontando cru
bruto demais 
sem me deter
no extraordinário 
silêncio dos astros
mapa de escuridão 
capaz de guiar a luz
cómica ou cósmica.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "o primeiro silêncio")

213

equação impossível

se ao menos a vida se resolvesse
como um problema de cálculo 
financeiro, renal ou matemático 
e pudesse eu arrancar da algibeira 
a manipulação exacta da álgebra 
tornar sombra e luz indivisíveis
número inteiro, natural, primo
extrair do quadrado a raiz do problema 
fazer do coração triplas tripas isósceles 
imitar-me à transcendência real complexa
se 
se
se
pudesse eu equacionar tudo isto
numa fracção
de segundos
não teria razão.

(Pedro Rodrigues Menezes, equação impossível)

305

Comentários (6)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Carina Alexandra Oliveira
Carina Alexandra Oliveira

Parabéns por continuares sempre a escrever e partilhares a tua obra. Quem escreve nunca está verdadeiramente só. Saibamos agradecer quem por nós passou e permanece deixando o seu legado mais profundo. Um beijo

Cândida
Cândida

Lindo bjnhos

Cândida
Cândida

Está tudo bem grande poeta bjnhos

Cândida
Cândida

Olá Pedro és um orgulho muito sucesso nesta tua etapa bjnhos

Rosa Lima
Rosa Lima

Orgulho na escrita do meu querido Primo

Pedro Rodrigues de Menezes é um poeta português nascido em São Domingos de Benfica (Lisboa) no dia 24 de Março de 1987.